Às vezes a História registra guerras que mudam o mundo. Outras vezes registra guerras que apenas ampliam cemitérios. A pergunta parece brutal. Mas ela se impõe sempre que os canhões silenciam, os diplomatas retornam às mesas de negociação e os sobreviventes começam a contar os mortos: para que serviu a guerra?
O recente acordo entre Estados Unidos e Irã recolocou essa velha interrogação no centro da cena internacional. Depois de meses de confrontos, milhares de mortos, cidades atingidas, navios ameaçados e mercados em pânico, o mundo assiste a uma situação curiosamente familiar. O estreito de Ormuz volta a ser aberto à navegação. As negociações sobre o programa nuclear iraniano retornam à pauta. O regime de Teerã permanece no poder. Tudo isso já existia antes da guerra.
Naturalmente, nenhuma guerra termina exatamente como começou. Há sempre destruições, deslocamentos humanos, traumas e transformações invisíveis. Mas a questão estratégica permanece. Quando observamos os objetivos declarados pelos protagonistas do conflito e os comparamos com os resultados alcançados, surge uma desconfortável sensação de circularidade histórica. Como se a violência tivesse percorrido um vasto arco apenas para regressar ao ponto de partida.
A História está repleta desses movimentos circulares. Em 1953, a Guerra da Coreia terminou praticamente onde havia começado. Depois de três anos de combate e milhões de mortos, a fronteira permaneceu próxima ao Paralelo 38. O mapa pouco mudou. Os cemitérios, porém, multiplicaram-se.
Entre 1980 e 1988, Irã e Iraque travaram uma das guerras mais sangrentas do século XX. O conflito consumiu quase uma geração inteira de jovens dos dois países. Quando terminou, as fronteiras eram praticamente as mesmas do início. O território disputado continuava onde sempre estivera. O que havia mudado era a paisagem humana.
O mesmo poderia ser dito sobre a longa aventura americana no Afeganistão. Após vinte anos de ocupação, milhares de vidas perdidas e trilhões de dólares gastos, o Talibã retornou ao poder. Em muitos aspectos, a situação política fundamental do país voltou a se parecer com a existente antes da invasão de 2001.
Os romanos conheceram experiência semelhante nas florestas da Germânia. Durante séculos, legiões atravessaram o Reno em campanhas sucessivas. Venceram batalhas, incendiaram aldeias, ergueram monumentos à vitória. Contudo, a fronteira imperial permaneceu no mesmo lugar. A Germânia continuou sendo a Germânia. O império descobriu, lentamente, que nem toda vitória militar produz uma transformação política duradoura.
Clausewitz observou que a guerra é a continuação da política por outros meios. A frase tornou-se célebre porque contém uma verdade inquietante: o valor de uma guerra não pode ser medido apenas pelos seus êxitos militares. Ele depende daquilo que a guerra consegue produzir politicamente.
É justamente aí que reside a tragédia de muitos conflitos. Exércitos podem conquistar cidades, destruir bases inimigas e dominar os céus. Ainda assim, fracassar em alcançar os objetivos que justificaram o recurso às armas.
Talvez seja por isso que as guerras frequentemente produzam uma estranha ilusão retrospectiva. Durante o conflito, tudo parece decisivo. Cada batalha é apresentada como um momento histórico. Cada ofensiva é anunciada como o prelúdio de uma nova era. Mas, quando a poeira baixa, os historiadores descobrem algo desconcertante: muitas vezes os acontecimentos retornaram ao mesmo lugar de onde partiram.
O mundo contemporâneo parece particularmente vulnerável a esse tipo de impasse. As grandes potências possuem meios extraordinários de destruição, mas uma capacidade cada vez menor de moldar realidades políticas complexas. A força continua sendo capaz de derrubar edifícios. Tornou-se muito menos eficaz para reconstruir sociedades.
Talvez a pergunta mais importante não seja quem venceu ou quem perdeu a recente guerra entre Estados Unidos e Irã. A questão verdadeiramente histórica é outra.
Quando as futuras gerações olharem para este conflito, verão nele uma transformação genuína da ordem internacional ou apenas mais um episódio da longa coleção de guerras que começaram com promessas grandiosas e terminaram devolvendo o mundo ao mesmo lugar?
Os mortos, infelizmente, já não poderão responder. Mas a História continuará fazendo a pergunta. E ela costuma ser implacável com guerras cujos resultados não justificam o preço pago por elas.
Nota: ao leitor interessado em aprofundar aquilo que aqui é meramente esboço, recomendo o clássico estudo de ARON, Raymond. A Paz e a Guerra Entre as Nações. Brasília: UNB, 2002.