Feirense de família abastada e tradicional, foi um incansável defensor da democracia, o que lhe ocasionou a perda do governo municipal em 1964. Mantendo firme o seu ideário, foi eleito deputado federal e, em Brasília, não mudou o tom de voz. Queria o Brasil livre do regime militar e, por conta de um robusto discurso em torno do presidente do Chile, general Augusto Pinochet, foi preso e teve o mandato cassado. Francisco Pinto foi uma voz que não mudou.
Francisco Pinto ou Chico Pinto (Francisco José Pinto dos Santos), foi um dos políticos de Feira de Santana a alcançar maior prestígio no cenário nacional pela sua denodada trajetória em defesa da democracia, sem jamais transigir do seu ideário, mesmo sofrendo consequências marcantes capazes de devastar a pertinácia de líderes idealistas, mas que nunca o abateram. Filho de José Pinto dos Santos — ‘coronel José Pinto’ — e Ignácia Pinto dos Santos — ‘dona Pomba’ (o Hospital da Mulher homenageia-a), Francisco Pinto desde cedo demonstrou um interesse muito grande pelas causas populares ou comunitárias, o que o levou à formatura em Direito, com brilho, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1954.
A tendência política começou a ser exercitada antes mesmo da conquista do diploma universitário, tanto que em 1950 ele foi eleito vereador e, duas vezes por semana, deslocava-se de Salvador para Feira de Santana para participar das sessões da Casa Legislativa. Na época, a atividade legislativa não era remunerada e Francisco Pinto, como os demais legisladores, nada recebia. O destaque do seu trabalho chamava atenção e repercutia com crescimento no meio político e o respeito do eleitorado. Entre 1950 e 1954, Pinto foi secretário da Câmara, já que não havia essa função mediante salário como hoje.
Assim foi natural a inclusão do seu nome entre os formadores da comissão que foi até o Rio de Janeiro, em 1954, para mediar com o Presidente da República, Getúlio Dornelles Vargas, a implantação do sistema de água encanada da cidade, que fora prometido pelo presidente em visita à Princesa do Sertão, durante a campanha eleitoral. Por conta da morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto do mesmo ano, a promessa ratificada pelo político gaúcho só pôde ser cumprida em 1955 pelo presidente Juscelino Kubitschek.
Vale lembrar que constituíram a comissão, além do ainda estudante de Direito, Francisco José Pinto dos Santos (PSD), os médicos Wilson da Costa Falcão (UDN) e Renato Santos Silva (PR), e os professores Hamilton Cohim (PTB) e Antônio Manoel Araújo (PSD). Atuante no Legislativo feirense, Francisco Pinto conseguiu a implantação de um posto médico e da rede de energia elétrica para o distrito de Humildes. Também foi de sua autoria o projeto concedendo título de Cidadão Feirense ao ministro Simões Filho (fundador do Jornal A Tarde), que procedeu os trabalhos do Governo Federal para a implantação dos sistemas de água e energia elétrica em Feira de Santana.
Eleito prefeito de Feira de Santana pelo Partido Social Democrático (PSD), em 1962, durante histórica disputa com o dentista João Durval Carneiro, Francisco José Pinto dos Santos sentou na cadeira de prefeito em 7 de abril de 1963 e iniciou uma administração dinâmica, reunindo jovens e promissores líderes estudantis que integrariam uma nova geração da política local. Impulsionador da Educação, iniciou as obras do Ginásio Municipal, concluídas pelo seu sucessor Joselito Falcão de Amorim (que dá nome ao estabelecimento escolar), e de outros 10 prédios escolares. Elaborou o primeiro Orçamento Participativo Municipal, instalou a Farmácia do Povo e feiras volantes, além de implantar chafarizes e lavanderias em bairros, dentre outras ações em apenas um ano.
Apesar do elogiável trabalho, foi deposto do cargo pelo governo da Revolução em 1964 e recolhido ao Quartel da Polícia Militar, no Barbalho, em Salvador, onde permaneceu preso por cerca de 50 dias. Em 1970, Francisco Pinto foi eleito deputado federal e, pela sua postura combativa a favor da democracia, foi preso em 1974, após um vigoroso discurso no Congresso Nacional contra a presença do general Augusto Pinochet, presidente do Chile, na posse do presidente do Brasil, general Ernesto Geisel. Foram seis meses de prisão no quartel do Primeiro Batalhão da Polícia Militar, em Brasília, decretada pelo Supremo Tribunal Federal, e ainda teve a perda do mandato, por decisão da Mesa da Câmara Federal. No dia 12 de julho de 1974, entrevistado pelo radialista Lucílio Miranda Bastos (falecido), Francisco Pinto repetiu o que dissera em Brasília sobre o presidente do Chile. A consequência da sua atitude destemida, levada ao ar no dia seguinte — 13 de junho —, através do programa jornalístico ‘O Grande Informativo Matinal’, foi a cassação da Rádio Cultura de Feira de Santana — ZYN–24 — durante quase 10 anos. Antes disso, em 5 de agosto de 1974, a emissora foi notificada pelo Dentel e sofreu suspensão das suas atividades (transmissões) por 15 dias. Fundada em 1950 e então liderada pelo empresário e político Oscar Marques, a emissora foi retirada do ar às 10h52min do dia 18 de março de 1975, por ordem do general Osvaldo Colares, e voltou a operar em 26 de julho de 1985.
Depois da prisão em 1974 e absolvição pelo governo do general Ernesto Geisel, Francisco Pinto voltou à Câmara Federal em 1978 como deputado federal de maior votação na Bahia. Na década de 1990, passou a morar em Brasília, visitando Feira de Santana periodicamente e, embora fora das lides políticas de forma direta, esteve sempre como um experiente consultor. Faleceu em Salvador, aos 77 anos de idade, no dia 19 de fevereiro de 2008.