A Edgar Morin
A humanidade sempre parece ter estado dividida em duas
grandes camadas que se entreolham com pasmo, ou rejeição. De um lado, os que demonstram
uma vontade férrea de julgar, punir e castigar, até mesmo com a eliminação
física, todo e qualquer ato ou comportamento supostamente desviante de
uma certa norma que este mesmo grupo queira ver como inquestionável.
Para estes indivíduos, a humanidade é, em si mesma, um
projeto falido, sendo o homem, com suas fragilidades e pequenezas, um
retumbante fracasso social e espiritual. A fim de garantir sua zona de
conforto, assacam dados supostamente avassaladores: os níveis de violência
social, a corrupção em todas as esferas da sociedade, a demonização da
Política. Para garantir sua própria existência, reivindicam uma liberdade
sem freios, recusam qualquer contrato social que poderia tolher a realização de
seus desejos e caprichos.
Somente a volta a um suposto passado mítico parece ser
o caminho a ser seguido e, entre lamúrias e imprecações, clamam pelo que
consideram “bons tempos passados”, sem jamais serem capazes de convencer aos
outros, aos que não forem perguntados, deste suposto paraíso.
O ressentimento e até mesmo o ódio são os adubos que fazem
crescer sua indignação para com as transformações sociais. Querem a garantia
impossível de uma lei e uma ordem estanques, atemporais.
Do outro lado, uma parte desta mesma humanidade, independente
do seu grau de instrução, diga-se de passagem, parece mesmo manter vivos os
arquétipos fundamentais que mobilizam para uma vida centrada na afetividade.
O primeiro, o arquétipo da criança que, apesar das
desilusões, não cansa de ter esperanças, e se põe à prova, coração na mão, sem
medo de voltar a estender a mão para o próximo, qualquer que seja sua
aparência. Como Sísifo, esta gente não abandona a crença num mundo
melhor e não se furta a traçar estratégias para implantar na terra habitada
a justiça social, como todo rebelde que sai em busca das curas dos males
sociais.
Ao invés da desconfiança no ser humano, esta parte da
humanidade propõe repensar os fundamentos da educação, pois sabe que o ser
humano é produto da educação que recebeu e que o moldou. Lutando pela
liberdade, não perde de vista que, sem a responsabilidade individual, a vida
social se tornaria uma selva onde prevaleceria a lei do mais forte.
E, sabem que não há nenhum paraíso a ser buscado, nem no
passado nem no futuro: o Planeta terra é sua casa e seu destino e, todos os
seus esforços deverão ser despendidos para que sejam criadas as condições para
a prosperidade de todos. E, por isso, começam, cada qual, a reeducar-se para
realizar as revoluções necessárias que devem começar dentro de cada um, em
escala planetária.
Tateando, por vezes à beira do precipício, a humanidade
segue, por vezes retirando a venda dos seus olhos, outras vezes indo ao inferno
pensando encontrar a luz, como nos lembram os versos de Lupicínio Rodrigues, e
cabe a cada um de nós escolher se avançamos com o coração aberto, estendendo a
mão ao próximo, construindo sonhos de olhos abertos, ou se, fechados em
barricadas, continuamos a nos manter isolados, recusando a presença do Outro em
nossa vidas, condenados a viver no medo, eternamente em guerras.
É assim, entre luzes e sombras, que caminha a humanidade,
desde tempos imemoriais, embora contando com tecnologias inovadoras que são
incapazes, por si mesmas, de transformar a história humana.
E não haverá nenhuma saída para escapar da barbárie que não
seja pela educação emancipadora que ensine – pela literatura e pela leitura
literária – a aprender a ser e a viver junto.
Somente assim poderemos quebrar este enfeitiçamento que condena a humanidade a viver sem esperanças e sem compaixão, com os homens e mulheres perdidos em si mesmos, sem autonomia, mesmo achando que são livres para consumir sem limites.
*Humberto Luiz Lima de Oliveira é professor e escritor. Autor do
livro "Crônicas de uma Infância no Sertão: Memórias de uma Família
Brasileira".