Os grandes exércitos do mundo contemporâneo são produtos de uma longa tradição histórica que associa vitória militar à superioridade técnica, à disciplina organizacional e à capacidade de impor uma derrota decisiva ao inimigo no campo de batalha. Essa concepção, herdada do chamado modo ocidental de guerrear, pressupõe que a guerra seja um instrumento racional a serviço de objetivos políticos claramente definidos e que seu desfecho se dê pela aniquilação, ou ao menos pela neutralização, da força armada adversária. O problema surge quando esse modelo é empregado contra inimigos que se recusam a jogar segundo tais regras.
A atual guerra em Gaza ilustra com rara nitidez essa
dissonância estrutural. De um lado, as Forças de Defesa de Israel (FDI), um dos
exércitos mais tecnologicamente sofisticados do planeta, dotado de
superioridade aérea, inteligência em tempo real, poder de fogo preciso e uma
cadeia de comando altamente profissionalizada. Do outro, os combatentes do
Hamas, organizados segundo princípios clássicos da guerra irregular:
fragmentação, mobilidade, ocultação no terreno humano e recusa sistemática ao
combate decisivo.
Não se trata, portanto, de uma assimetria meramente material,
mas de um choque entre concepções incompatíveis de guerra. O Hamas não busca
derrotar militarmente Israel no sentido clausewitziano do termo. Seu objetivo
não é a conquista de terreno, a destruição das forças inimigas ou a imposição
de uma capitulação formal. Sua estratégia repousa na sobrevivência, no desgaste
prolongado e na capacidade de transformar o tempo em arma política. Cada dia
adicional de combate, cada operação inconclusiva, cada baixa civil amplificada
no plano simbólico representa, para a lógica da guerra irregular, um ganho
estratégico.
Esse padrão não é novo. Ele se insere numa linhagem histórica
que remonta às guerras tribais, às insurgências coloniais e às lutas de
libertação nacional do século XX. Exércitos regulares, moldados para vencer
batalhas, tendem a fracassar quando confrontados com inimigos que não oferecem batalhas.
A busca obsessiva pela decisão, núcleo duro da tradição militar ocidental,
torna-se um fardo quando o adversário faz da evasão e da fluidez o seu
princípio operacional fundamental.
O caso iraniano aprofunda essa lógica em escala regional.
Desde a Revolução de 1979, o Irã desenvolveu um sofisticado sistema de projeção
de poder indireto baseado em milícias, forças paramilitares e atores não
estatais aliados. Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque, Houthis no
Iêmen e o próprio Hamas em Gaza integram um ecossistema estratégico que permite
a Teerã confrontar adversários muito mais poderosos sem jamais recorrer a um
embate convencional direto. Trata-se de uma arquitetura de guerra irregular
deliberadamente pensada para neutralizar as vantagens tecnológicas do inimigo e
diluir a responsabilidade política do confronto.
Nesse modelo, a simplicidade é uma virtude. Túneis, foguetes
artesanais, células autônomas e comando descentralizado mostram-se capazes de
desorganizar sistemas militares cuja eficácia depende da integração perfeita
entre informação, logística e poder de fogo. Quanto mais complexo o aparato
bélico, maior sua vulnerabilidade a inimigos que operam fora de seus parâmetros
normativos.
A dificuldade dos exércitos modernos em vencer guerras “simples”
decorre, assim, menos de falhas táticas do que de um erro conceitual. Não se
pode derrotar decisivamente um inimigo que não reconhece a validade da decisão.
Em guerras desse tipo, sobreviver já é vencer; persistir é impor derrota moral
e política ao adversário. Gaza, como tantas outras antes dela, não é apenas um
campo de batalha, é um lembrete incômodo de que a história militar não premia
necessariamente os mais fortes, mas os mais adaptáveis.
Ao leitor interessado em aprofundar o debate, remeto a:
Hanson, Davis. Porque o Ocidente Venceu:
mortandade e cultura. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.