“Sincera e honestamente, não estou com o espírito ainda de pré-campanha. Aqui nesse momento eu só estou com vontade de dançar um pouquinho e pular um pouco”. Assim respondeu o prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo, aos repórteres que o inquiriram, ontem, em Humildes, sobre sua possível candidatura a vice-governador, em chapa encabeçada pelo ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. Os dois estiveram participando da Levagem da Lenha, festividade profano-religiosa no distrito feirense.
Esta, geralmente, não é a reação de quem está pensando em ser candidato a algo, restando tão pouco tempo para uma definição. Quando o político está às vésperas de uma definição importante o discurso é outro. Ao desviar-se dos repórteres dizendo “vamos falar de festa, rapaz, oxe", ele parece transmitir uma mensagem com o objetivo de informar algo como "esquece isto, nem estou pensando nisto".
Em 4 de abril se encerra o prazo para filiações partidárias e ACM Neto já avisou que, até lá, deverá estar com a sua chapa completa. Resta preencher as vagas de vice-governador e dos dois candidatos ao Senado. Para estas últimas, já se sabe que uma delas estará ocupada pelo senador Ângelo Coronel, agora integrando a oposição, deixou o PSD e, consequentemente, a base governista comandada pelo PT.
José Ronaldo jamais foi tão cobiçado, em sua longa carreira política. Devido à frustração de 2022, quando fora substituído na chapa do próprio ACM Neto por uma neófita em política, seu nome passou a ser cogitado como possível futuro aliado da base do governador Jerônimo Rodrigues, ministro-chefe da Casa Civil Rui Costa e senadores Jaques Wagner e Otto Alencar, o "quarteto fantástico".
Diferentemente daquela eleição anterior, agora ACM Neto deseja um vice que seja do interior e tenha força eleitoral nos municípios: José Ronaldo é este homem, a senha está clara. Esta deveria ter sido sua estratégia quando da primeira disputa que participou para o Palácio de Ondina. Mas ele cometeu o grande erro que todos reconhecem e estão cansados de saber. Acontece que, ferido na alma, o prefeito de Feira de Santana parece ser um sonho inalcançável para o pré-candidato a governador pelo União Brasil.
Afinal, foi grande a dor de Ronaldo diante da humilhação a que foi submetido lá atrás, por decisão do próprio ACM Neto. As palavras que ouviu dele naquela manhã, quando soube que não seria o candidato a vice, sendo trocado por alguém politicamente sem as menores credenciais, devem ainda ecoar em seus experientes ouvidos. Não bastasse este fato, tem um outro empecilho a ser considerado, o seu mandato na Prefeitura, apenas no segundo ano.
Seria o primeiro caso, provavelmente, no Nordeste, de um gestor de grande cidade a deixar o bastão para o vice em duas ocasiões - em 7 de abril de 2018 passou o cargo para Colbert Filho, se lançou ao Governo do Estado e sofreu uma dolorosa derrota, coisa rara em seu currículo. E se perder novamente, desta feita com ACM Neto, vai para um melancólico fim de linha. Por estas e outras, tenho escrito reiteradamente em artigos enfocando as perspectivas para o prefeito feirense que não acredito em que venha a encarar mais uma aventura dessa magnitude. Mas, é claro, tudo pode acontecer.