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Política

Indígenas acusam Bolsonaro de mentir sobre canibalismo e vão ao TSE

15 de Outubro de 2022 | 12h 22
Indígenas acusam Bolsonaro de mentir sobre canibalismo e vão ao TSE
Foto: Getty

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) ingressou com uma representação junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após vídeo de entrevista do presidente Jair Bolsonaro (PL) ao The New York Times viralizar nas redes. Na gravação, de 2016, o candidato à reeleição afirma ter presenciado um ritual indígena com prática de canibalismo, em uma aldeia Yanomami. Na ocasião, Bolsonaro também declarou que “queria ver o índio sendo cozinhado”.

Além disso, o atual presidente afirmou que “comeria um índio sem problema nenhum” e que só não o fez porque ninguém de sua comitiva quis acompanhá-lo. “Daí o cara: se for, eu tenho que comer. Eu como. Aí na comitiva ninguém quis ir”, disse Bolsonaro.

As declarações repercutiram ainda mais ao serem usadas pela campanha do presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). A Apib classificou a fala de Bolsonaro como ofensiva e falaciosa.

De acordo com o portal de notícias UOL, na última quinta-feira (13), ocorreu o julgamento da decisão do ministro Paulo de Tarso Vieira Sanseverino, do TSE, que barrou a veiculação do referido vídeo pela campanha petista, a pedido do presidente. Na alegação, o magistrado ressaltou que o PT tentava associar Bolsonaro ao canibalismo, com “alteração sensível do sentido original” da fala do presidente.

Na sessão de ontem (14), Sanseverino reforçou o argumento, que foi endossado, de forma unânime, pelos demais ministros. Os outros magistrados não apresentaram votos próprios.

Segundo o UOL, no documento encaminhado ao ministro relator do caso, a Apib oferece “opinião técnica” sobre a defesa de Bolsonaro ter pedido ao TSE a remoção da publicação do vídeo veiculado na campanha petista, sob a alegação de conter desinformação e ser ofensiva à honra do candidato à reeleição. A entidade repudiou as declarações de Jair Bolsonaro. E reiterou que elas são “mentirosas” e “ofensivas” à cultura e história do Povo Yanomami.

Além disso, a Apib observou que a defesa do presidente informou ao TSE que a única mentira veiculada na entrevista de Bolsonaro “seria a de que o povo Yanomami teria a ‘tradição’ de alimentar-se dos restos mortais de seus irmãos”. Segundo a representação dos povos indígenas, quando citou o canibalismo, o presidente fez uma declaração “absolutamente preconceituosa e inverídica”.

Para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, os argumentos usados pela defesa do candidato à reeleição, que foram acolhidos pelo TSE, “apenas refletem o real pensamento de Jair Messias Bolsonaro, preconceituoso e difamatório dos povos indígenas tradicionais do Brasil”.

A entidade assegurou que, em nenhum momento da História, os Yanomamis realizaram qualquer prática de ingesta de carne humana. “Ao revés, os relatos de Bolsonaro ao The New York Times apenas demonstram seu desprezo à verdade e à história dos povos indígenas e, em especial, do Povo Yanomami, que jamais, nem hoje, nem ancestralmente, tiveram rituais canibalísticos entre suas práticas”, garantiu.

A Apib disse, ainda, que “a argumentação trazida, além de mentirosa, apenas reforça o discurso e as práticas do atual presidente, condizentes com uma história política de desprezo e estímulo à morte aos povos tradicionais brasileiros”.

No entendimento da associação, não há “descontextualização” no material usado pela campanha petista, uma vez que a entrevista dada por Bolsonaro reflete, com precisão, seus preconceitos históricos contra os povos originários. “Insere-se no contexto da atual política institucional de genocídio e perseguição do governo Bolsonaro contra os povos tradicionais, que levaram à explosão dos casos de violência, mortes e invasões a terras demarcadas, nos últimos anos, tema de interesse público e social relevante para o debate eleitoral”, frisou a entidade.

Conforme o UOL, a Apib aponta que, de 2019 a 2021, durante o mandato de Jair Bolsonaro e a gestão de Marcelo Xavier na Fundação Nacional do Índio (Funai), “nenhuma terra indígena foi identificada, declarada ou homologada”. Segundo a representação dos povos autóctones, ocorreu justamente o contrário. “Nessa gestão, o Governo Federal retardou, pelo menos, 27 processos de demarcação de Terras Indígenas que já estavam em fase avançada de andamento”, destacou.



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