Consumir água tratada de maneira adequada é fundamental para manter a qualidade de vida de uma população, significando contrair menos doenças, ou seja, água tratada é mais saúde para as pessoas. Em Feira de Santana, o serviço de fornecimento de água tratada é de responsabilidade da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), que afirma atender cerca de 225 mil domicílios, o que representa, conforme a concessionária, uma cobertura de 98%. A média, portanto, estaria acima da nacional, que é de 83,5%.
Apesar do número, muitas famílias reclamam da constante falta de água, especialmente no verão, quando há aumento do consumo. Em muitos domicílios onde há rede de água encanada, portanto com cobraça regular de conta, os moradores se queixam que a água não chega às torneiras. Em localidades da zona rural, distantes da sede do município, a situação é ainda pior, já que, em muitas delas, a rede não chegou.
FALTA FREQUENTE – São muitas as reclamações da população feirense com relação à falta de água. As emissoras de rádio e a TV local denunciam, quase que diariamente, a situação de precariedade em que vivem muitas famílias. As queixas são diversas. Mas a principal delas diz respeito à falta de água nas torneiras. Moradores de diversos bairros e localidades reclamam que chegam a passar meses sem fornecimento de água.
Atualmente, os moradores do loteamento Rocinha, no distrito de Humildes, alegam estar sem água há cerca de dois meses. Em março desse ano, o mesmo problema foi registrado no bairro Aeroporto. Moradores precisaram comprar água mineral até para tomar banho. Apesar das contas pagas, muitas famílias do local também alegaram que enfrentaram dois meses de falta de água.
De acordo com a Embasa, uma das causas do desabastecimento são os serviços de manutenção no sistema. No entanto, a empresa diz que informa, com antecedência, por meio de veículos de comunicação da cidade, os locais onde haverá a suspensão do fornecimento. Em caso de problemas emergenciais, a Embasa afirma que não há como haver informação prévia. Sendo assim, sugere à população que suas respectivas residências tenham reservatórios de água, para que possam ter suas necessidades atendidas por, pelo menos, um ou dois dias.
Essas foram as únicas justificativas dadas pela Embasa, ainda que a nossa reportagem tenha indagado a respeito de localidades em que os moradores alegam passar dias e até meses sem fornecimento de água. A concessionária se limitou a recomendar que, uma vez detectada a suspensão do serviço, os moradores informem o problema, por meio do número 0800 0555 195 ou do WhatsApp (75) 9978-2302, sendo este último um canal exclusivo para atendimentos de demandas em Feira de Santana.
AUSÊNCIA DE COBERTURA – Quando questionada sobre o porquê de algumas áreas ainda não serem abastecidas, a Embasa, por meio de sua Assessoria de Comunicação, explicou que essas informações deverão estar inseridas no Plano Municipal de Saneamento Básico, elaborado pela Prefeitura Municipal de Feira de Santana. O documento, segundo a companhia, trará informações a respeito de quais áreas necessitam de ampliação da rede de água. Disse também que somente após o contrato firmado é que passará a ter responsabilidade sobre essas áreas. E que o contrato ainda está em fase de negociação.
INVESTIMENTOS – Ainda segundo a empresa, desde 2015, muitos são os investimentos que tem realizado na área de abastecimento de água potável, em Feira de Santana: implantação de Sistema de Abastecimento de Água; reservatório, rede de distribuição e ligações domiciliares em diversos povoados dos distritos de Tiquaruçu, Matinha, Maria Quitéria, Calango, Alecrim Miúdo, Terra Dura e Ipuaçu, “beneficiando 4,8 mil pessoas, com Investimento de R$ 6,8 milhões (recursos próprios da Embasa)”. A obra, segundo a concessionária, foi concluída em julho de 2015.
A Embasa também informa que realizou implantação de Sistema Adutor EEAT3/ EEAT4, na sede de Feira, beneficiando 4,8 mil pessoas. Segundo a empresa, o investimento foi de R$ 4,8 milhões (Sudene) e a obra foi concluída em dezembro de 2017. Outra ação que está sendo realizada, conforme a concessionária, é “a ampliação do Sistema Integrado de Abastecimento de Água (SIAA) de Feira de Santana, intervenção que vai possibilitar o aumento da capacidade de produção e adução, permitindo o abastecimento satisfatório de todas as cidades e localidades adjacentes atendidas pelo sistema”. Além disso, a empresa salienta que a obra também permitirá o funcionamento pleno dos setores de distribuição Norte, Leste, Centro Industrial Subaé e Tomba. “A implantação do projeto proporcionará o aumento de produção de água bruta e tratada para o SIAA da ordem de 180%”, afirma.
Outras melhorias apontadas pela Embasa são:
*Setor Norte: investimento de R$ 54,3 milhões (OGU/PAC)/ 307 mil pessoas beneficiadas. Obra concluída em outubro de 2016.
*Setor Leste: investimento de R$ 29,7 milhões (OGU/PAC)/ 69,4 mil pessoas beneficiadas. Obra concluída em outubro de 2018.
*Setor Tomba: a licitação da etapa relativa ao setor Tomba está em andamento, com valor previsto de R$ 49,8 milhões (BNB)/ população a beneficiar é de 401 mil pessoas. Obra com duração prevista de 540 dias/ 18 meses.
*Sistema Produtor de Feira: obra a licitar, com valor previsto de R$ 261,9 milhões, com recursos do BNB/ população a beneficiar é de 598 mil pessoas. Obra com duração prevista de 720 dias/ 24 meses.
*Perfuração de Poços: quatro poços tubulares (investimento total de R$ 88,2 mil); Casa Sócio Educativa Zilda Arns (R$ 14,7 mil); Conjunto Penal de Feira de Santana (R$ 36,56 mil); localidade da Piaba (R$ 21 mil).
RISCOS À SAÚDE HUMANA – São inúmeros os perigos de se consumir água sem tratamento adequado. Diarreia e vômitos são alguns dos sintomas que podem ser causados por enfermidades provocadas pela ingestão de água contaminada. Essas doenças variam de gastroenterites leves a doenças de maior gravidade, como a febre tifoide, a hepatite A, a leptospirose e o cólera.
De acordo com a professora e médica infectologista Normeide Pedreira, as doenças veiculadas por água de origem não potável e contaminada são causadas, principalmente, por vírus, bactérias e parasitas (vermes). “Não apenas beber, mas comer alimentos lavados com esse tipo de água também pode transmitir essas doenças”, explica.
A infectologista afirma ainda que outra forma de adquirir doenças via água contaminada é através da pele, quando em contato com microrganismos presentes em lagoas, fontes, rios e outros mananciais. “A esquistossomose e a leptospirose se destacam como as mais graves dessas doenças e podem até levar à morte”, alerta.
Normeide Pedreira explica que há maneiras de combater essas enfermidades, mas a maioria precisa de intervenção hospitalar. “Há tratamento para essas doenças, entretanto podem acabar envolvendo hospitalização e, na dependência do diagnóstico e tratamento serem precoces ou tardios, pode haver inclusive, risco de morte”, ressalta.
A médica diz que, em áreas onde não há saneamento básico, é mais frequente as pessoas serem acometidas por esses males. “São comuns, principalmente, em áreas onde não há saneamento, com armazenamento inadequado de água e possibilidade de contaminação de reservatórios, por fezes humanas ou de animais. Também quando há despejo de esgoto não tratado em rios, lagos, córregos e até mesmo no mar. Mesmo em quantidades mínimas, os dejetos oferecem risco de contaminação e transmissão de doenças, já que um grama de fezes pode conter até 10 milhões de vírus, um milhão de bactérias ou mil parasitas”, observa.
COMO EVITAR – Para as pessoas que não têm acesso à água potável, a infectologista afirma que há alguns procedimentos que podem ser realizados, a fim de viabilizar o consumo dessa água de maneira confiável. “A cloração da água consegue evitar a maior parte das doenças, entretanto alguns parasitas, como a giárdia e a ameba, podem apresentar resistência ao cloro. Em áreas de água não tratada adequadamente, recomenda-se pedir orientação à companhia de água, para dosar o cloro de acordo com o tamanho do reservatório. Também é recomendável ferver toda a água para consumo, além de evitar comer hortaliças cruas, que possam ter sido regadas ou lavadas com água possivelmente contaminada”, enumera.
A médica também informa que “hábitos simples de higiene, como lavar as mãos antes de se alimentar e de manipular alimentos, além de defecar em sanitários (não ao ar livre), com lavagem das mãos antes e depois, podem evitar essas doenças. Em águas recreacionais, a exemplo de piscinas, praias, lagos e rios, é preciso evitar urinar ou defecar, a fim de minimizar os riscos de contaminação”, conclui.