Em ano eleitoral, ninguém quer perder oportunidade de aparecer em agenda positiva, perante o eleitor. O Governo do Estado resolveu buscar protagonismo na autorização para o início de obra do Centro Comunitário pela Vida, o Convive, em Feira de Santana, hoje, e em Juazeiro no dia 18 de julho de 2025, tirando de cena as gestões municipais. Em Salvador, a estratégia não conseguiu "colar". "Parceria entre Governo do Estado e União garante implantação do Convive em Feira de Santana fortalecendo o Bahia pela Paz", é o título de matéria da Secretaria Estadual de Comunicação sobre o evento de hoje na Prefeitura de Feira, excluindo completamente o Município.
E é assim que a notícia repercute em toda parte, a partir das distribuição do release, escanteando o município, que é quem assina o contrato e faz a licitação para a construção - a de Feira, por exemplo, foi lançada em 30 de julho de 2025. "Rui Costa assina ordem de serviço do Convive", anunciou o Acorda Cidade. Bahia.Ba diz "União e Estado assinam ordem de serviço para Centro Comunitário pela Vida". Bem, a autorização deve ter sido dada pelos três entes, já que o projeto é tripartite.
Quem se der ao trabalho de ler sobre a natureza do Convive constata facilmente que, sim, é verdade, os estados tem participação nesta política pública, mas não é dessas unidades federadas a iniciativa, como na Bahia se faz parecer. Afinal, são os municípios que se inscrevem no programa, apresentam o seu perfil e documentação, para buscar a habilitação visando conquistar o investimento, que é federal. Um dos requisitos é a cidade apresentar estatisticamente elevado índice de criminalidade, o que é notório aqui. No país inteiro, 30 cidades foram selecionadas para receber os Centros Comunitários pela Vida.
Os estados não entram com dinheiro para a obra. Já os municípios podem necessitar de fazer contrapartida, como ocorrerá em Feira de Santana. A Prefeitura vai fazer a drenagem na região onde o equipamento será erguido, no Alto do Papagaio. No caso do Governo da Bahia, em relação ao Convive Feira de Santana, sua participação vai se dar através, principalmente, de duas unidades do programa Coletivos pela Paz, nos bairros Mangabeira e Conceição. Mas a movimentação da cúpula estadual foi intensa em torno da ordem de serviço do Convive. Ausente, o governador Jerônimo Rodrigues enviou o seu vice, Geraldo Júnior, além do secretário de Justiça e Direitos Humanos, Felipe Freitas. O senador Jaques Wagner, da tropa de choque petista na Bahia, também estava lá.
Justo, justíssimo, é o destaque dado à representação do Governo Federal, mentor e sustentáculo financeiro do projeto. Assim, Rui Costa, o ministro-chefe da Casa Civil, ocupou o espaço devido. Em Juazeiro, Jerônimo, sem Wagner, comandou o ato da ordem de serviço. Rui e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington Souza Lima, figuras mais importantes no processo, não estiveram lá.
A Prefeitura de Feira de Santana anunciou a cerimônia de ordem de serviço, inicialmente, como algo estritamente municipal. De repente, na véspera, soltou uma nota comunicando o adiamento sob a justificativa de que precisaria "alinhar" com a Casa Civil. Ninguém sabe se foi Rui Costa que reclamou e reivindicou a mudança ou se a gestão municipal pensou melhor e decidiu combinar com o ministro de Lula. Qualquer que seja a opção, a medida foi correta.
Em Salvador, na cerimônia de ordem de serviço em 19 de dezembro do ano passado, para erguer o Convive, em Pirajá, o Estado e a União não conseguiram o destaque registrado em Juazeiro e Feira de Santana. Na capital, o prefeito Bruno Reis foi quem comandou tudo. Nem Jerônimo, nem seu vice Geraldo Júnior, nem Wagner estavam lá. Muito menos Rui Costa. Apenas o secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos, Felipe Freitas, apareceu muito discretamente.
O Estado pode vir a ter uma participação mais ativa no equipamento, após sua construção: garantindo que os serviços de esporte, cultura e assistência social funcionem de forma contínua; participar da supervisão técnica e aportar recursos complementares para infraestrutura ou pessoal especializado; facilitar a convergência de diferentes secretarias (Segurança, Assistência Social, Educação) para que o centro ofereça atendimento multidisciplinar, como apoio a vítimas da criminalidade e formação cidadã. Veremos adiante como será o seu envolvimento.
Principal liderança do Partido Novo em Feira de Santana, o empresário Carlos Medeiros, que surgiu na política local disputando a Prefeitura, tem a pretensão de ser candidato a deputado, nas próximas eleições. Ainda não sabe se vai concorrer à Assembleia Legislativa ou Câmara Federal. Medeiros foi candidato ao Paço Municipal pela primeira vez em 2020 mas foi no pleito de 2024 que se destacou. Surpreendeu o público mesmo sem tempo em rádio e televisão, por seu desempenho nas entrevistas que concedeu aos veículos de comunicação e também pela participação nos debates.
Nascido no município baiano de Alcobaça, 51 anos de idade, apresentou uma visão diferente da gestão tradicional, focada em enxugar a máquina, valorizar a meritocracia, modernizar e melhorar os serviços públicos, investir pesado em tecnologia e desburocratizar os processos em favor do desenvolvimento econômico. Obteve 9.717 votos, 2,95% do eleitorado. Um desempenho pouco melhor que o obtido por ele em 2020, quando conquistou 7.259 votos, 2,52%.
Diferentemente do que alguns possam pensar, o Partido Novo, na Bahia, segue independente da direita comandada pelo ex-prefeito ACM Neto. Deverá inclusive ter candidato próprio a governador, o deputado federal José Carlos Aleluia. O objetivo, segundo Medeiros, é eleger, no Estado, pelo menos um deputado federal e outro estadual, pretensão mais modesta que a de Aleluia, que cogita um par de parlamentares em cada instância. "Aleluia é uma opção diferente dessa polarização que estamos vivendo", avalia.
Imediatamente após as eleições, diz o ex-candidato a prefeito, o Novo deu continuidade ao processo de estruturação do partido pensando na montagem de chapa, tanto para deputado estadual como federal, em 2026. "Aqui em Feira de Santana, eu estou á frente (do partido). Trabalhamos a formação de uma (chapa) bem competitiva", disse ele, ao reafirmar que é pré-candidato: "Só estamos discutindo se vou sair para estadual ou federal. Temos outros que foram candidatos a vereador e que tem pretensão. Há bastante tempo ainda".
Esta Tribuna tem por tradição aprofundar a apuração dos conteúdos que divulga, em respeito aos seus leitores, que merecem e desejam tudo muito bem esclarecido. Dias atrás, divulgamos o resultado de uma pesquisa, realizada pelo conhecido Instituto Veritá, de Urberlândia, Minas Gerais, com a avaliação do primeiro ano de mandato dos prefeitos de 23 cidades brasileiras não capitais. José Ronaldo, de Feira de Santana, obteve uma classificação considerada de razoável para boa. Ficou fora do top 5, exatamente no meio da tabela, em 11 lugar. Misturadas todas as cidades, interioranas e capitais, total de 49, o gestor feirense ficaria na 20a posição, também considerada intermediária. Fosse a Princesa do Sertão uma 27a capital, o prefeito feirense teria um destaque maior, precisamente o 10o lugar.
A pesquisa das capitais, realizada no final de 2025, tem detalhes de sua metodologia publicados no portal do Veritá. Diferentemente da que envolveu os municípios do interior, feita, em campo, no longo período de 13 de janeiro a 11 de fevereiro (quase um mês!), que não explicava uma série de possíveis questionamentos. Solicitamos então, pelas redes sociais, que o instituto enviasse várias informações complementares. Nesta quarta-feira, recebemos a resposta.
Explica a organização que o levantamento aconteceu nas 23 maiores cidades do Brasil, excluindo as capitais estaduais, com o objetivo de avaliar a percepção dos moradores sobre os serviços prestados pela cidade e sobre a gestão municipal, incluindo nota para o prefeito e indicador de aprovação ou desaprovação da administração.
O universo da pesquisa é formado por eleitores com 16 anos ou mais, residentes nos municípios pesquisados, que declaram ter o domicílio eleitoral registrado na própria cidade avaliada (ou seja, votam no município pesquisado). A amostra teve 14 mil "entrevistas estruturadas, com questionário alinhado aos objetivos do estudo, estruturado com 77 perguntas, padronizado para aplicação uniforme em todas as cidades do recorte".
De natureza quantitativa, a pesquisa teve entrevistas conduzidas por meio de uma unidade automatizada de respostas, com tecnologia de reconhecimento de voz e transcrição de áudio para texto, utilizando questionário eletrônico desenvolvido especificamente para este trabalho. Os entrevistados atribuíram notas de 0 a 10 para 51 serviços relacionados ao dia a dia da cidade, ao prefeito (0 a 10), e informaram se aprovam ou desaprovam a gestão atual.
A amostra, informa o instituto, foi definida com base em fontes oficiais e parâmetros demográficos e eleitorais, garantindo proporcionalidade e representatividade por sexo, faixa etária e distribuição geográfica dentro de cada município, permitindo comparação entre cidades no mesmo recorte. Margem de erro: 3%.
O controle de qualidade dos questionários passa, após a coleta, por "filtros de consistência e checagens de validação. Foi realizada supervisão do processo e procedimentos de verificação para assegurar a correta aplicação do questionário e a integridade das entrevistas".
O recorte, diz o Veritá, integra um mapeamento nacional em etapas. Ao final do ciclo completo, é consolidado um ranking nacional dos prefeitos e um raio-x comparativo da percepção dos moradores sobre os serviços municipais e a condução da gestão pública nas maiores cidades do país.
O grande dilema, para não chamar de drama, do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, não é aquele que ele faz questão de frisar, em todas as entrevistas concedidas à imprensa: se José Ronaldo vai ou não ser o candidato a vice, na chapa por ele encabeçada para o Governo da Bahia. A questão é outra, senão vejamos. Ronaldo ser ou não candidato, nestas eleições é fato menor no processo. O que conta, mesmo, é quem vai apoiar, para o Palácio de Ondina, não sendo ele postulante a nenhum cargo eletivo em outubro, algo que parece estar muito próximo de se concretizar. Afinal, pode não ser vice em chapa alguma e isto não resolver absolutamente nada. Basta que anuncie que seu candidato preferido não será o da oposição.
ACM Neto tem pregado nas entrevistas, com razão, que para ser candidato a algo Ronaldo precisaria receber o apoio do eleitorado que nele votou e o elegeu por maioria em primeiro turno, no pleito municipal de 2024. O vice-presidente nacional do União Brasil tem dito que somente acredita em uma renúncia de mandato por parte do prefeito de Feira de Santana se houver apoio do povo, para esta decisão.
José Ronaldo, nesta altura do campeonato, já deve ter números de pesquisa em mãos, a propósito dele deixar ou não a gestão, entregando-a ao vice-prefeito Pablo Roberto, que comandaria o Poder Executivo por dois anos e oito meses. Nessa hipótese, o atual titular do Paço Maria Quitéria teria exercido o quinto mandato por apenas um ano e quatro meses. Portais de notícias e programas de rádio bem poderiam realizar pesquisa de opinião para mensurar o sentimento do feirense sobre o prefeito sair ou ficar.
Bem, não é do feitio de Ronaldo prometer e não cumprir. Como já escrevi aqui algumas vezes, o prefeito não deverá deixar a administração para ser candidato, até o final dos quatro anos, diante da ênfase com que fez o juramento em sua campanha. Claro, as especulações são normais, pois estamos falando de política, ainda mais, levando em conta que o próprio possível candidato a vice-governador, ou a senador, por alguma razão ainda a ser estudada, deixa todo mundo na dúvida, quando diz que está pensando qual decisão vai tomar - o suspense vai durar até o o início de abril.
Retornando ao ponto inicial, a grande questão é quem José Ronaldo vai apoiar para governador. O favoritismo nesses cenários, creio, é sempre da permanência onde o político está. A surpresa seria sair do local se encontra, especialmente no caso de alguém que há cerca de meio século faz parte de uma mesma sigla e, mais que isto, de um mesmo segmento, a direita. ACM Neto cometeu, em 2022, o grande erro de sua trajetória, ao desprezar o prefeito feirense e toda a sua influência regional para optar por uma ilutre desconhecida em sua chapa.
Pelo discurso adotado mais recentemente, dizendo inclusive não se sentir traído pelo companheiro de União Brasil, Ronaldo dá a entender que está bem mais propenso a seguir firme com a oposição ao governador Jerônimo Rodrigues. Alguém diz, "mas eles dois estão se relacionando muito bem, vai ser difícil o prefeito dizer não a Jerônimo". Negativo. o prefeito, águia em política, pode dizer simplesmente que tudo o que houve foi institucional, sem qualquer compromisso de ordem política, e estará tudo muito bem explicado.
O que está em jogo não é meramente uma resposta a ACM Neto por conta do que ele aprontou lá atrás. Trata-se de uma mudança de rumo radical, após Ronaldo ter construído uma vitoriosa história, ao longo de 50 anos. Um eleitor ronaldista, a propósito, tem uma justificativa interessante, para a permanência do prefeito na direita: "nós elegemos a ele, não ao PT. Portanto, ele não pode, agora, entregar-se à esquerda que nós ajudamos a derrotar".
"Já é um sinal, uma pessoa que não votou em mim já dizer ‘olha, eu tô pensando em a gente poder caminhar juntos’. E isso dando certo quem vai ganhar é Feira de Santana”. A frase, atribuída ao governador Jerônimo Rodrigues é fresquinha, extraída, de acordo com noticiado em veículos como "Blog do Velame" e "Bnews", de uma entrevista coletiva concedida pelo chefe do Executivo Estadual no Circuito Osmar, nesta quinta, abertura do Carnaval de Salvador. E deve botar lenha na fogueira do pré-candidato da oposição, ACM Neto.
Não sabemos se o governador ouviu exatamente isto, do prefeito, ou se é uma forma de dizer, de Jerônimo, em relação à informação de Ronaldo, esta sim, efetiva, de que em março lhe daria resposta sobre quem ele vai apoiar na campanha que se avizinha. Certamente, os dois conversaram este assunto no recente encontro para festividades religiosas em Humildes. E Jerônimo resolveu tornar público, em pleno carnaval, o que ouviu do prefeito.
Com seu estilo rigoroso de segurar informações confidenciais, Ronaldo não deve estar confortável diante do fato de o governador revelar parte da conversa ao pé do ouvido. Mas agora está dito e fica a certeza de que o prefeito se encontra realmente matutando a ideia de apoiar a reeleição de Jerônimo e que, portanto, não é líquido e certo o que muitos defendem em seu grupo, que ele deixará para trás a desfeita que lhe fez ACM Neto quatro anos atrás, ao escanteá-lo da vice, em sua chapa, e irá apoiá-lo de novo.
José Ronaldo está determinado a realizar a maior de suas gestões à frente da Prefeitura de Feira e disposto a mudar de rota partidária, caso tenha segurança de que isto representará avanços em seu projeto. Claro, tudo é aposta, que pode dar certo, ou não. Com a experiência que detém, é difícil ele dar um passo em falso, nessa decisão. Da parte de Jerônimo, há muita disposição de buscar o importante apoio. Em julho do ano passado, ele já dizia ao portal feirense "De Olho na Cidade que “falta de convite não é".
Sempre que escrevo sobre Ronaldo e sua dúvida entre Jerônimo e ACM Neto, gosto de reiterar a opinião de que o prefeito não deverá ser candidato. Acredito que continuará no Paço Maria Quitéria, de onde vai apoiar um desses postulantes ao Governo do Estado. As chances de cada um, aparentemente, estão muito divididas, neste momento. Se fosse caso de pesquisa, poder-se-ia dizer, haveria empate técnico.
Nas redes sociais, sempre que o assunto é levantado, leitores reagem. Muitos dos seus seguidores renegam uma adesão de Ronaldo à reeleição do governador, mas há os que lhe são muito fiéis e que o acompanhariam, e votariam, em que ele venha a indicar, mesmo não simpatizantes do PT. Fala-se em março, mas eu acredito que ele somente decidirá mesmo em abril.