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Wellington Freire

O General Algoritmo

Wellington Freire - 04 de Junho de 2026 | 08h 40
O General Algoritmo
Foto: Reprodução/CNN Brasil

Durante mais de três mil anos, a guerra foi uma atividade profundamente humana. As armas mudaram. Os impérios surgiram e desapareceram. A pólvora substituiu a lança; o tanque substituiu a cavalaria; o míssil substituiu parte da artilharia. Contudo, uma constante permaneceu: no centro do combate encontrava-se um ser humano tomando decisões.

Talvez estejamos assistindo ao fim dessa longa tradição. As notícias sobre inteligência artificial costumam enfatizar seus impactos econômicos, suas aplicações médicas ou sua capacidade de transformar o mercado de trabalho. Menos atenção recebe uma questão igualmente importante: a inteligência artificial está alterando a própria natureza da guerra.

Na Ilíada, o mais antigo grande poema militar do Ocidente, a guerra possui rosto. Aquiles entra em combate e o destino dos exércitos se modifica. Heitor cai diante das muralhas de Troia e uma cidade inteira aproxima-se de sua ruína. A força decisiva é a coragem individual. O herói é, simultaneamente, arma, comandante e símbolo.

Séculos depois, Virgílio apresenta uma realidade diferente. Na Eneida, Eneias continua sendo um guerreiro, mas já não combate apenas por glória pessoal. Ele serve a um projeto histórico. O indivíduo começa a ceder espaço à coletividade política. Roma surge no horizonte como uma máquina de poder muito maior que qualquer homem.

A história militar posterior pode ser lida, em certa medida, como a ampliação contínua dessa lógica. Exércitos tornaram-se mais complexos. Estados desenvolveram burocracias gigantescas. Sistemas de comunicação permitiram coordenar operações em escalas antes inimagináveis. Ainda assim, no momento decisivo, havia sempre alguém decidindo.

Alguém avaliava informações. Alguém assumia responsabilidades. Alguém apertava o gatilho. Hoje, essa premissa começa a ser questionada. Sistemas baseados em inteligência artificial já são capazes de identificar padrões em volumes colossais de dados, rastrear movimentações inimigas, selecionar alvos potenciais e recomendar respostas táticas em velocidades inalcançáveis para operadores humanos. Em conflitos recentes, algoritmos passaram a desempenhar funções que, até há poucos anos, pertenciam exclusivamente ao julgamento humano.

Estamos diante do surgimento de uma nova figura histórica: o General Algoritmo. Não se trata de um comandante sentado em uma tenda, como Agamêmnon. Tampouco de um estrategista imperial à moda romana. O General Algoritmo não possui rosto, biografia ou medalhas. Ele existe na forma de redes neurais, centros de processamento de dados, satélites, sensores e softwares que operam continuamente, analisando cenários e produzindo decisões em frações de segundo.

Essa transformação produz uma consequência filosófica raramente discutida. O que acontece com o heroísmo quando a guerra deixa de depender do herói?A literatura ocidental nasceu celebrando guerreiros. Homero cantou Aquiles. Virgílio cantou Eneias. Durante séculos, poetas, cronistas e historiadores procuraram identificar indivíduos cujas ações alteraram o curso dos acontecimentos. A memória da guerra sempre foi, em larga medida, a memória de pessoas.

Mas uma guerra conduzida por sistemas autônomos desafia essa tradição. O protagonista deixa de ser o combatente e passa a ser a arquitetura tecnológica que o cerca. A coragem continua existindo, evidentemente. Soldados continuarão enfrentando riscos e tomando decisões difíceis. Contudo, sua centralidade tende a diminuir à medida que algoritmos assumem funções cada vez mais estratégicas.

Há uma ironia inquietante nesse processo. Durante séculos, comandantes buscaram reduzir o peso das emoções, do medo e do erro humano nos campos de batalha. A inteligência artificial representa o ápice desse esforço. No entanto, ao substituir parte do julgamento humano por sistemas extremamente complexos, criamos uma nova fonte de incerteza. Nem sempre compreendemos plenamente como esses sistemas chegam às suas conclusões.

Talvez este seja o grande paradoxo militar do século XXI. Quanto mais racional tentamos tornar a guerra, mais opaco se torna seu funcionamento. Diante das muralhas de Troia, era possível apontar para Aquiles e dizer: ali está a força que move esta batalha. No mundo que se aproxima, a força decisiva pode estar escondida em linhas de código dispersas por servidores localizados a milhares de quilômetros do campo de combate.

A guerra não deixará de ser humana. Mas, pela primeira vez desde Homero, ela talvez deixe de ser inteiramente nossa.



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