Durante mais de três mil anos, a guerra foi uma atividade
profundamente humana. As armas mudaram. Os impérios surgiram e desapareceram. A
pólvora substituiu a lança; o tanque substituiu a cavalaria; o míssil
substituiu parte da artilharia. Contudo, uma constante permaneceu: no centro do
combate encontrava-se um ser humano tomando decisões.
Talvez estejamos assistindo ao fim dessa longa tradição. As
notícias sobre inteligência artificial costumam enfatizar seus impactos
econômicos, suas aplicações médicas ou sua capacidade de transformar o mercado
de trabalho. Menos atenção recebe uma questão igualmente importante: a
inteligência artificial está alterando a própria natureza da guerra.
Na Ilíada, o mais antigo grande poema militar do
Ocidente, a guerra possui rosto. Aquiles entra em combate e o destino dos
exércitos se modifica. Heitor cai diante das muralhas de Troia e uma cidade
inteira aproxima-se de sua ruína. A força decisiva é a coragem individual. O herói
é, simultaneamente, arma, comandante e símbolo.
Séculos depois, Virgílio apresenta uma realidade diferente.
Na Eneida, Eneias continua sendo um guerreiro, mas já não combate apenas por
glória pessoal. Ele serve a um projeto histórico. O indivíduo começa a ceder
espaço à coletividade política. Roma surge no horizonte como uma máquina de
poder muito maior que qualquer homem.
A história militar posterior pode ser lida, em certa medida,
como a ampliação contínua dessa lógica. Exércitos tornaram-se mais complexos.
Estados desenvolveram burocracias gigantescas. Sistemas de comunicação
permitiram coordenar operações em escalas antes inimagináveis. Ainda assim, no
momento decisivo, havia sempre alguém decidindo.
Alguém avaliava informações. Alguém assumia responsabilidades.
Alguém apertava o gatilho. Hoje, essa premissa começa a ser questionada.
Sistemas baseados em inteligência artificial já são capazes de identificar
padrões em volumes colossais de dados, rastrear movimentações inimigas,
selecionar alvos potenciais e recomendar respostas táticas em velocidades
inalcançáveis para operadores humanos. Em conflitos recentes, algoritmos
passaram a desempenhar funções que, até há poucos anos, pertenciam
exclusivamente ao julgamento humano.
Estamos diante do surgimento de uma nova figura histórica: o
General Algoritmo. Não se trata de um comandante sentado em uma tenda, como
Agamêmnon. Tampouco de um estrategista imperial à moda romana. O General
Algoritmo não possui rosto, biografia ou medalhas. Ele existe na forma de redes
neurais, centros de processamento de dados, satélites, sensores e softwares que
operam continuamente, analisando cenários e produzindo decisões em frações de
segundo.
Essa transformação produz uma consequência filosófica
raramente discutida. O que acontece com o heroísmo quando a guerra deixa de
depender do herói?A literatura ocidental nasceu celebrando guerreiros. Homero
cantou Aquiles. Virgílio cantou Eneias. Durante séculos, poetas, cronistas e
historiadores procuraram identificar indivíduos cujas ações alteraram o curso
dos acontecimentos. A memória da guerra sempre foi, em larga medida, a memória
de pessoas.
Mas uma guerra conduzida por sistemas autônomos desafia essa
tradição. O protagonista deixa de ser o combatente e passa a ser a arquitetura
tecnológica que o cerca. A coragem continua existindo, evidentemente. Soldados
continuarão enfrentando riscos e tomando decisões difíceis. Contudo, sua
centralidade tende a diminuir à medida que algoritmos assumem funções cada vez
mais estratégicas.
Há uma ironia inquietante nesse processo. Durante séculos,
comandantes buscaram reduzir o peso das emoções, do medo e do erro humano nos
campos de batalha. A inteligência artificial representa o ápice desse esforço.
No entanto, ao substituir parte do julgamento humano por sistemas extremamente
complexos, criamos uma nova fonte de incerteza. Nem sempre compreendemos
plenamente como esses sistemas chegam às suas conclusões.
Talvez este seja o grande paradoxo militar do século XXI.
Quanto mais racional tentamos tornar a guerra, mais opaco se torna seu
funcionamento. Diante das muralhas de Troia, era possível apontar para Aquiles
e dizer: ali está a força que move esta batalha. No mundo que se aproxima, a
força decisiva pode estar escondida em linhas de código dispersas por
servidores localizados a milhares de quilômetros do campo de combate.
A guerra não deixará de ser humana. Mas, pela primeira vez
desde Homero, ela talvez deixe de ser inteiramente nossa.