A Copa do Mundo vem aí, mas dois assuntos, especialmente,
estão dando muito mais "ibope" no Brasil, nos últimos dias: a
aprovação, na Câmara dos Deputados, do fim da escala 6x1 para os trabalhadores
e a classificação de terroristas, pelos Estados Unidos, das facções PCC e
Comando Vermelho. Agora, estes grupos criminosos entram no radar da potência
econômica, bélica e tecnológica.
Deixemos o futebol para depois. Afinal, o Mundial ainda vai
começar dia 11 de junho. O debate sobre a redução da carga de trabalho ainda
vai precisar passar pelo Senado. Aprovada a Proposta de Emenda Constitucional,
sancioná-la vai ser muito tranquilo, posto que a sugestão é do próprio
presidente da República.
Vamos, então, conversar sobre algo mais concreto, mais
próximo: a decisão do presidente americano sobre as facções já entra em vigor
dia 5 do mês vindouro. Medida considerada boa ao Brasil, para muita gente, mas
também mal vista por outros tantos brasileiros. Na verdade, existe uma divisão
muito clara de opinião sobre o assunto. Quem é de direita, apoia e aplaude a
medida; a esquerda, a abomina.
E é assim mesmo que funciona, de uns tempos pra cá. Ao
eleitor de Lula, não importa o que seja. Se partiu da cabeça de alguém do
bolsonarismo, não presta - no caso do novo status conferido às facções, pelos
Estados Unidos, a iniciativa foi do senador Flávio Bolsonaro, que esteve na
Casa Branca com seu irmão ex-deputado Eduardo e conseguiu convencer
Trump.
O bolsonarista, por sua vez, tem a mesma linha radicalíssima.
Não há nada, absolutamente nada, que tenha origem no PT, com alguma serventia.
São dois campos magnéticos incompatíveis, uma divergência de pensamento
visceral.
Evidentemente, pode e deve haver exceções à regra, entre os
que cultuam a política de direita ou de esquerda. Mas não perca muito o seu
tempo procurando, porque é muito difícil de achar um desses que conseguem se
libertar da paixão e pensar com alguma razoabilidade sobre qualquer ação do
lado oposto.
Bem, a legislação brasileira tipifica o terrorismo como a
prática de atos violentos por razões de xenofobia, discriminação e preconceito,
com a finalidade de provocar terror social ou generalizado. Por estes
conceitos, PCC e Comando Vermelho não se enquadrariam.
A lei nacional, porém, não tem o poder de impedir
entendimento diferente sobre o terrorismo por parte de uma outra nação. O
Brasil não conseguiu combater com eficiência o narcotráfico, nessas últimas
três décadas em que o crime se desenvolveu. Também não parece haver dúvida
quanto a influência continental dessas facções.
Daí, com ou sem pedido de Flávio, qualquer dia os Estados
Unidos viriam a tomar essa decisão, como já o fizeram em relação a México e
Venezuela. O pensamento da direita é que os americanos, de algum modo, devem
ajudar o Brasil nesta guerra e que isto não representaria risco algum à
soberania do país. Na economia, os prejudicados seriam as instituições
financeiras que apoiam o tráfico.
Na esquerda, a ideia é que, com a nova classificação, os
Estados Unidos podem restringir as relações financeiras de empresas brasileiras
com americanas e causar danos à nossa economia. Além de abrir um precedente
para ações militares de suas forças no Brasil, mesmo que não haja risco algum
de uma prisão de Lula por suspeita de sua associação ao crime, diferentemente
do que ocorreu com Nicolas Maduro.
Bolsonaro e seus filhos já fizeram muita bobagem. O amigo
deles, Trump, parece ser um presidente meio maluco, meio inconsequente. O tal
secretário de Estado Marco Rubio, idem. O Brasil pode reclamar, é claro, da
decisão. Mas os Estados Unidos, tem, sim, o direito de colocar facções, sejam
de onde forem, que representem ameaça aos americanos, no lugar de terroristas.
Na verdade, caso algum instituto faça uma pesquisa, a maioria
dos próprios brasileiros vai dizer que PCC e Comando Vermelho são, sim,
organizações de terror. Por enquanto, há muita especulação sobre os
desdobramentos dessa medida do governo americano. Não sabemos quais
consequências realmente virão, só o tempo dirá. Esperamos não haver nada além
de cooperação internacional para nos ajudar a vencer o desafio.
Uma coisa é certa: se existem autoridades, empresários,
dirigentes de instituições financeiras, de rabo preso ou em conluio com essas
organizações, devem pôr a barba de molho. Não é mais somente o Brasil, com sua
letargia, conivência e incompetência, históricas, que estará de olho.