"Flávio é ingênuo demais para ser presidente", escreveu ontem, com poderosa dose de ironia, em sua coluna neste portal, o excelente jornalista e economista André Pomponet – não estranhe o sobrenome. É assim mesmo, e não, "Pamponet", de origem francesa, mais comum no Brasil. Hoje, muito provavelmente em contraponto, o igualmente experiente e grande articulista e jornalista Batista Cruz, registrou, aqui: "Brasília é a terra dos ingênuos porque todos recebem dinheiro e são gravados".
André é um prestigiado colunista permanente deste site,
escreve, três vezes por semana, sobre os mais variados temas. Gosta muito dos
dados estatísticos, extraídos das pesquisas e tem feito um bom retrato social
"da Feira de Santana". Trata também, e com a mesma eficiência, das
questões políticas latentes, como esta mais recente, envolvendo o banqueiro
Daniel Vorcaro, preso por aplicar golpe bilionário no país.
O colunista disse com outras palavras que Flávio Bolsonaro
está desclassificado, ou desqualificado, como queiram, para ser presidente do
Brasil, depois do escândalo em que se envolveu. Ele, realmente, decidiu ir
comer farelos no mesmo prato de Daniel Vorcaro, sob o singelo pretexto de que
nada mais se tratou de "um filho que buscava patrocínio para o filme do
pai".
Batista também é da casa, um dos fundadores do jornal Tribuna
Feirense, 26 anos atrás. O irmão do saudoso jornalista e professor Anchieta
Nery não escreve ainda com a regularidade que desejamos, neste veículo onde ele
não é, obviamente, visto como um convidado, por toda sua história entre nós.
Promete, e vamos cobrar, aparecer mais vezes, com a sua caneta inteligente e
afiada.
Ele diz, em seu artigo, que a esquerda também estaria fazendo
parte deste "banquete de Thyestes" e relembra escândalos outros, como
o do INSS, descontos indevidos dos aposentados, Petrolão e Mensalão, nos quais
as digitais da esquerda, incluindo do presidente Lula, estariam indelevelmente
registradas.
De algum modo, ele deseja minimizar as responsabilidades de
Flávio neste imbróglio, uma missão absolutamente inglória. Acerta, porém, no
cerne: de fato, o senador não é o único "ingênuo demais" para ser
presidente, em Brasília, um lugar cheio de gente direita, de esquerda e de
centro a fazer inveja a Keyzer Söse.
A Tribuna tem história de valorização da pluralidade
opinativa e assim deveria ser exercido o jornalismo em todo lugar. Parece ser a
maneira mais ética e justa de oferecer ao leitor a diversidade de ideias e de
análises, para ajudá-lo a melhor formar o seu entendimento sobre os fatos, partindo
do pressuposto de que todos temos o direito de interpretar e de divergir.
Ninguém é senhor da verdade.
O "efeito Master", guardadas as devidas proporções,
o caso "Lehman Brothers" brasileiro, parece mesmo ter seus tentáculos por toda parte. Por enquanto,
não há sossego, na direita, esquerda ou centro da política brasileira, nem em
qualquer dos poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário. Evidentemente,
alguns estão sendo atingidos com maior força e o senador Flávio Bolsonaro é
quem mais corre perigo, neste momento.
As gravações que foram reveladas, expondo conversas nada
insuspeitas entre o filho do ex-presidente e o banqueiro, são mesmo uma bomba
de alto teor explosivo, em torno da captação de receita para bancar ou
patrocinar o tal filme bibliográfico de Bolsonaro pai. Está tudo muito confuso,
pro lado do senador.
Começou errado ao pedir, ou aceitar, oferta do sujeito,
possivelmente ignorando – ou deixando de obter – as necessárias referências no
mercado. Depois foi pilhado em outro "ato falho", negando, quando um
jornalista lhe perguntou, que houvesse recebido dinheiro do Master.
Patrocínio secreto, sigiloso, para filme, principalmente para
biografar uma personalidade política, é algo simplesmente terrível. Orçar os
custos em um valor duas vezes maior que o comum, no mercado cinematográfico
nacional, é mais uma pérola. A empresa responsável pela produção afirmar que
não recebeu um centavo sequer dos primeiros R$ 60 milhões liberados... minha
nossa, que péssimo! A grana estar sendo
administrada por um fundo no Texas, Estados Unidos, "controlado por
aliados de Bolsonaro", outra piada de mau gosto.
E, para alimentar ainda mais as chamas deste incêndio, pro
seu lado, o senador visitou o Daniel Vorcaro depois de preso, sob liberdade
condicional e com tornozeleira eletrônica. Ora, alguém nestas condições a gente
visita quando se trata de familiar, ou olhe lá, amigo de longas datas. Fora
disso, é submeter-se a riscos de imagem que filme algum pode justificar.
O envolvimento mais ruidoso com o banqueiro, até aqui, é
"privilégio" de Flávio e de seu colega senador, e aliado, Ciro
Nogueira (PP-PI), o "destinatário central" de vantagens indevidas.
Estes dois tentam escapar das magmas do Vesúvio brasileiro, mas "não está
sendo fácil", como na canção romântica escrita por Roberto Carlos e
lindamente interpretada por Kátia, em meados da década de 80.
Isto não significa que a esquerda esteja completamente à
margem da encrenca, seja em Brasília ou na Bahia. O caso parece longe de
terminar e uma delação premiada, que se cogita, pode acrescentar ingredientes
inesperados, contra e a favor de figurões. Neste estado, aliás, há três
personagens muito conhecidos e frequentemente mencionados no noticiário sob ligações
suspeitas, diretamente ou não, com Vorcaro.
Na esquerda, o ex-governador e atual ministro de Lula, Rui
Costa; e o ex-governador, atual senador e líder do governo petista na Casa,
Jaques Wagner. Na direita baiana, o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. Quem
está acompanhando o caso, sabe do que estou falando e, para não alongar o texto,
não vou entrar em detalhes.
A direita vem sendo alvejada, competentemente, pelo Intercept
Brasil, um órgão de comunicação progressista, de linha editorial aparentemente
contrária a pautas conservadoras. Foi este veículo que descobriu as ligações
perigosas de Flávio com o Master. Nenhuma queixa contra o veículo, é bom que se
diga.
"Não quer que seja divulgado, não deixe que o fato
aconteça", aconselhou, por décadas, Edval Souza, lendário radialista de
grande sucesso em Feira de Santana. Bom seria, para o melhor esclarecimento do
eleitor, que a esquerda também fosse "premiada" com o pente fino e o
poder investigativo de um Intercept Brasil politicamente às avessas.