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Banda Flashback, 25 anos: Vivinho e seus amigos mantêm viva a alegria dos anos 70

VALDOMIRO SILVA - 16 de Maio de 2026 | 17h 20
Banda Flashback, 25 anos: Vivinho e seus amigos mantêm viva a alegria dos anos 70
Fotos: Divulgação

O clássico da era disco, "Shake, shake, shake", é tocado, magistralmente, em sua versão instrumental, com direito aos acordes muito semelhantes aos originais de dois afinadíssimos saxofonistas. A trilha de abertura anuncia o que está por vir naquela noite fria e chuvosa de abril, um sábado. Ficar parado diante daquele ritmo, diria Moraes Moreira, só quem já morreu. Estão lotadas as dependências do Aragas, um dos mais charmosos espaços da avenida Fraga Maia, novo point do lazer noturno em Feira de Santana. Homens e mulheres, acima dos 50 em sua maioria  - mesclados com uma boa turma jovem  -  começam a dançar sob o lendário hit do KC and the Sunshine Band, de 1976.


Foi esta a "pegada",  contagiante, do comemorativo show da Flashback, realizado recentemente, marcando os 25 anos da banda feirense. Todos aguardavam ansiosos pela presença, no palco, de Elionai Cruz Lima Santos. Quem? Pois é, quase ninguém na cidade conhece pelo nome de batismo o vocalista do longevo grupo, que acaba de completar um quarto de século animando festas pela Bahia e, porque não dizer, pelo Brasil. Ele é Vivinho, figura bastante popular nesta cidade.


Sua entrada em cena é triunfal, vestindo o já tradicional figurino: a indefectível calça branca boca de sino; camisa vermelha, manga comprida, impecavelmente engomada e reluzente;  sapato bico fino, igualmente brilhante.  Traje símbolo de um tempo de muita elegância. "Meu amigo Samuel, da Rua Nova, profissional de mão-cheia, é o responsável", diz o artista, elogiando o costureiro responsável pela indumentária, que já faz parte do cotidiano de Vivinho, nas apresentações. "Quando, por alguma razão, modifico a roupa, o pessoal logo pergunta e sente falta. Faz parte do show", diz, entre risos.

 

MÃOS TREMEM ANTES DE CADA APRESENTAÇÃO: "É COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ"



Porte atlético. ele esbanja energia, durante mais de duas horas em que faz o público relembrar o som dos anos 60, 70 e 80. Humilde, alegre e totalmente dedicado  à música - vive exclusivamente dela - Vivinho confessa, mesmo com tanto tempo de palco, tremer as mãos, sempre que deixa o camarim e vai ao encontro do público, sensação que desaparece logo que  começa a cantar. "Quando o artista não mais sentir aquele nervoso, como se fosse a primeira vez, este é um sinal de que está na hora de parar". Calmo e pleno, parte para cumprir a missão: animar a entusiasmada plateia, o que ele tira de letra.  Mesmo aqueles que não encaram diretamente a pista, balançam a cintura, movimentam as mãos, batem o pé no chão, entram no ritmo.


Afiado pela originalidade e qualidade instrumental dos seus companheiros, vocal leve e suave,  além de bom inglês, Vivinho parece incorporar George McCrae ("Rock your baby") ou James JT Taylor (Koll and the Gang). O clima fica quentíssimo quando ele faz um pout porri dos Bee Gees e seus embalos de sábado à noite.  "Night fever", "You should be dancing"  e "Stayng alive" obrigam a todos movimentar-se, cada um do seu jeito. 


Muita coisa boa ainda está por acontecer. Logo a turma vai ouvir  a imortal "Nice and slow", de Jesse Green,  "Loves is in the air", de Jonh Paul Young, "Sultans of Swing", do Dire Straits, "Another brick in the wall", do Pink Floyd. Não escapa quase nada dos grandes hits dançantes, principalmente dos 70's. Também  especial é o momento em que o vocalista convida os casais a dançar coladinhos as músicas lentas que alimentaram romances no Brasil daquele tempo, como "I would give everything i own", do Bread,  "Me and you"  (Dave Maclean) e "Please don't go", do KC. O público dança e canta junto.


Em meio a tanta música que marcou época,  os corações pulsam forte com "Can't take my eyes of you" (Frankie Valli, 1967) em sua versão mais moderna, de Boys Town Gang. O embalo mexe com a turma, fazendo levantar da cadeira quem resistia até aquele momento. A energia segue elevadíssima quando Vivinho traz de volta a sensacional  "Give it up", outra do KC.  Adiante, mais uma pausa para dança a dois:  "I want to know what love is", do Foreigner, "i have should've know better", de Jim Diamond, e muito mais.


Justa homenagem ao pop rock brasileiro, Flashback inseriu em seus shows dois blocos de música nacional. Tem espaço para todos. De "Dancin days", das Frenéticas, tema da inesquecível novela global que embalou as nossas discotecas  no final dos anos 70, a RPM, Lulu Santos, Legião Urbana, Kid Abelha. Encerra este momento com "Soniferailha", dos Titãs. "É um reconhecimento a este movimento musical, especialmente nos anos 80, que tanto animou a nossa juventude", ele registra.


MAIS DE 500 MÚSICAS NO REPERTÓRIO E AS TRÊS MAIS SOLICITADAS



Vivinho e seu pessoal tem um farto e bem ensaiado repertório, de cerca de 500 canções. Destas centenas, três não podem faltar, por absoluta exigência do cativo público, estejam eles em Feira de Santana, Paulo Afonso, Jaguaquara ou Nossa Senhora do Livramento, nesta imensa Bahia, ou em apresentações em estados como Sergipe, Maranhão, Brasília, entre outros, onde já levaram o seu show. "Não são músicas, simplesmente. Se tornaram verdadeiros hinos de toda uma geração", explica. É uma tríade de canções internacionais que fascinou os que viveram a juventude forjada nos bailes da vida.  "Hotel California", do Eagles; "Dancing queen", do grupo sueco Abba, e "I love to love", da Tina Charles. São as campeãs de pedidos e estão no repertório permanente da banda. A emoção só faz aumentar, quando Vivinho  canta "Hey jude", dos Beatles. Ao performar no palco seu grande ídolo, Elvis Presley, com "You've lost that loving feeling", indiscutivelmente, acontece um dos melhores momentos do show.


APELIDO VEM DE SEMELHANÇA COM FAMOSO JOGADOR



Natural de Alagoinhas, o vocalista da Flashback  chegou a Feira de Santana em 1986, aos 14 anos de idade. O apelido vem da adolescência, quando jogava no Vasco do bairro Sobradinho. Seus amigos dizem que ele também é talentoso com a bola nos pés. Roberto, falecido dirigente do time amador, lhe deu esse nome pela semelhança do seu atleta com Vivinho. O falecido atacante  brilhou no final dos anos 80 vestindo a camisa de um outro Vasco, o do Rio de Janeiro - ele faleceu em 2015. Atualmente com 54 anos e em um "relacionamento sério", como se diz dos namoros firmes, o nosso Vivinho  esbanja vigor físico, graças a uma absoluta regularidade na academia que frequenta e onde é visto sempre curtindo música ao fone de ouvidos enquanto malha ou, durante uma pausa, batendo  papo sobre futebol. Ele não tem medo do avanço da idade: "Quem não quiser envelhecer deve morrer cedo. Dou graças a Deus pela saúde que tenho".


COMO SURGIU A BANDA FLASHBACK



A banda Flashback foi fundada no ano 2000, em uma conversa nos arredores do antigo Feira Tênis Clube, entre Vivinho e seus parceiros músicos  professor Régis Costa (violão)  e Osvaldo Smera (guitarra). Os outros integrantes da formação original foram o tecladista Diego Miranda, o baterista Chiquinho Pato, o saxofonista Professor Ibernon Dantas e o saudoso baixista Edinho (Edson dos Santos), egresso do famoso Leopardos. O primeiro show aconteceu em outubro daquele ano no Bavária, badalado endereço noturno da época, na avenida Getúlio vargas.


Vivinho faz questão de registrar um apoio muito especial prestado à Flashback, em seu início, pelo professor Ibernon. O saxofonista, que atuou no primeiro show da banda,foi importante personagem nos primórdios da banda. Ele conseguiu solucionar um difícil problema na época, a liberação de uma sala pelo CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte), para realização de ensaios. "Era um momento complicado, em que necessitávamos de muita coisa e a ajuda dele se tornou crucial para que a gente pudesse trabalhar", agradece o cantor.


"Não havia em Feira uma banda nesse estilo", relembra. De fato, grupos como o também bem sucedido "80 na Pista" ainda viriam a emergir. Daquele pessoal, permanecem firmes Vivinho e Osvaldo, feirense radicado em Vitória da Conquista, mas sempre presente nos shows da banda. Os outros integrantes da formação atual são o baterista Cid, Ânderson (baixista), Batista Dias, o "Batgol" (tecladista) e Romário Torres (guitarrista). Neste 2026 festivo, pelo aniversário de 25 anos, Flashback foi destaque, semanas atrás, em entrevista no TVE Revista, programa semanal exibido pela TVE-Bahia. E mais um DVD deverá ser gravado em show, em breve. O  vídeo do primeiro DVD  tem quase 1 milhão de visualizações no canal da banda no Youtube.


TODOS POR UM: NÃO HÁ COMANDO ÚNICO


Humilde, o cantor não se coloca na linha de frente: "Todos nós opinamos, ajudamos. Às vezes, por estar mais de frente pro público, sinto mais de perto sua vontade e mudo algo no repertório. Se houvesse um maestro entre nós, alguém para nos dirigir, creio que seria o "Batgol", mas ele é um cara muito simples e que dialoga com todos normalmente". Em conjuntos  musicais, o público, ele diz,  costuma valorizar muito o vocalista: "A banda que é boa", corrige, afirmando considerar-se apenas uma pequena parte do processo. "Nosso maravilhoso instrumental, sem dúvida, é o mais importante".

Engana-se quem imagina que o vocalista da Flashback,  tanto tempo de estrada, estaria cansado e próximo de uma aposentadoria, das viagens e dos palcos. "Temos gás pra mais 25 (anos). Enquanto a música estiver correndo em meu sangue, seguirei firme. Amo o que faço", diz, convicto, o fã do cantor brasileiro Wilson Simonal. O cara tem personalidade: "vim do samba. Pra encarar música internacional, público tão diferente, foi barra. Mas deu tudo certo".


FÃ NÚMERO UM JÁ FOI A MAIS DE 60 SHOWS



Dentre tantos admiradores da Flashback, um deles merece ser considerado o número um. O super-fã  Carlos Pinho já assistiu a mais de 60 shows, desde a primeira apresentação no Bavária. Com 73 anos, mas jovem de físico e, principalmente, de cabeça, tornou-se um amigo pessoal do cantor Vivinho e incentivador da banda. Ele e sua esposa, Angélica, se divertem a valer, em cada jornada musical que participam. Odontólogo, Pinho perde a timidez e sobe ao palco para fazer um dueto com o artista, para cantar, junto com ele, o clássico "Stand by me", de Bee E. King, mas na versão de voz gravíssima de Sharif Dean. "É uma emoção extraordinária", diz o odontólogo aposentado


ROMÁRIO TORRES, 49 ANOS, GUITARRISTA E GERENTE DA LOJA PINK MUSIC



Minha trajetória na Flashback já soma cerca de 20 anos e fazer parte dessa história é motivo de muito orgulho para mim. Sou guitarrista há mais de 30 anos e, ao longo da minha caminhada na música, tive a oportunidade de viver muitos momentos especiais. Sem dúvida, a Flashback ocupa um lugar muito importante no meu coração. Tenho a honra de ser hoje o integrante mais antigo da banda, depois do próprio Vivinho, acompanhando de perto boa parte dessa história. Durante esses anos, vivemos incontáveis shows, viagens, eventos e momentos marcantes. Convivi com diversos músicos e fiz muitos amigos. Mais do que uma banda, a Flashback se tornou uma família, unida pela paixão pela música e pelo compromisso de manter viva a emoção dos grandes clássicos que marcaram uma época. Vivemos hoje um momento muito especial, não só musicalmente, mas também na convivência como família. Fazer parte dessa comemoração de 25 anos é algo muito especial para mim. É olhar para trás e ver uma história construída com muito trabalho, amizade, parceria e amor. Sou grato por tudo o que vivi até aqui na Flashback.


OSVALDO SMERA, 53 ANOS, GUITARRISTA, ANALISTA DE SISTEMAS



 A influência musical das décadas de 70 e 80 é enorme pra gente. Não é só nostalgia. Especialmente as dançantes, anunciavam  liberdade, de expressão e também corporal. De "Assim como nossos pais",  do Belchior, aos sucessos dos Beatles, acompanhei  meus irmãos mais velhos, cresci ouvindo tudo aquilo. Quando formamos a Flashback, tínhamos  noção da importância daquela época.  Vivinho veio da música baiana. Eu, da MPB. Estudei em conservatório.

 A gente percebia uma lacuna. Algo que valorizasse as  músicas da nossa infância. Afinal, nos bares só se tocava MPB e axé. Foi do Professor Régis a idealização deste formato e nós  apostamos. Percebemos que iria dar certo logo na primeira música em nosso show de estreia, no Bavária: "She made me cry", do Pholhas. Todos pararam, olhando surpresos, pois não havia na cidade algo semelhante. A partir dali a gente se tornou a banda que mais teria agenda, casa sempre cheia. Nosso movimento abriu espaço para outros grupos do mesmo segmento. Entramos em um espinheiro e colhemos flores (risos).

Vivinho é o meu melhor amigo. Nossos músicos sempre tiveram muito talento e responsabilidade. Nos tratamos como irmãos. Nossa maior diversão são os nossos encontros, nossas viagens.  Sabemos da importância de cada um. Temos a consciência que, primeiro, é gostar do que está tocando e não apenas tocar o que gosta. Eu faço as duas coisas.  


BATISTA DIAS ("BATGOL"), TECLADISTA, 54 ANOS



Não somos simplesmente uma banda, mas uma família. Meus companheiros são pessoas excelentes de trabalhar. Vivinho é irmão. Um cara decente. Ajuda no que pode, super tranquilo. Ele, Cid, Anderson, Romário, temos uma grande parceria. É gratificante  contribuir para a valorização e memória desta época gloriosa da música internacional. Nos bastidores, às vezes perguntamos se o público que nos acompanha vai chegar junto, em um determinado show. Mas chega sim. Ele é muito fiel. Não é só a galera de idade mais avançada. Tem jovens também que curtem os "dances" dos nossos tempos. As músicas que tocamos marcaram a vida de muita gente.  "Dancing queen", do Abba, por exemplo, agrada a gregos e troianos. O clima muda quando a gente toca esta. Eu cheguei há uns 15 anos à banda, já em nossa segunda formação. Substituí a  Diego, excelente tecladista. Depois, saí, ele voltou. Saiu de novo. Eu retornei (risos). Todos temos a liberdade de expressar nossa opinião. Sinto que me respeitam muito e eu busco ajudar na direção do trabalho musical. Mas não me sinto responsável por isto, absolutamente. Todos compartilhamos, todos ajudamos. Sou de Euclides da Cunha, mas estou em Feira há 40 anos em Feira. Faço 55 anos em junho. Durante a semana eu trabalho em uma distribuidora. No fim de semana quando temos  evento, atuamos. Encaro mais como um hobby, uma diversão. Os encontros são sempre muito legais.



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