Relembramos ontem, nesta coluna, peculiaridades de eleições
para deputado estadual e federal realizadas há mais de três décadas em Feira de Santana. Contando
com a ajuda da excelente memória do jornalista Jair Onofre, um especialista em
política local e estadual, resgatamos pleitos eleitorais em uma época que até
poderia haver vários candidatos, mas prefeito e governador deixavam muito bem
claro quais seriam aqueles que teriam o seu apoio. Estes, entravam na disputa
com reais possibilidades.
Acontecia uma peleja de dois ou no máximo três vereadores em
busca do apoio do prefeito, para tentar chegar à Assembleia Legislativa.
Geralmente apenas um era escolhido e os demais se afastavam do processo,
aguardando, quem sabe, que aquele privilegiado fracassasse. Assim, em uma
próxima eleição, a outro seria dada a oportunidade.
Os que, avisados fossem, mas ainda assim insistissem, eram fatalmente rejeitados nas urnas e, ainda por cima, arranjavam
um problemão com as principais lideranças, perdendo prestígio e cargos.
Os "caciques" não reconheciam os que se insurgiam, resistência por
entenderem que atrapalhariam a votação dos nomes mais cotados, os "oficiais".
Desde o início dos anos 2000, mais ou menos, este cenário
sofre uma transformação radical no município. Políticos com ou sem mandato, de
grande ou menor expressão, se lançam candidatos a deputado, estadual e federal, sem se importar com a reação dos influentes chefes das duas instâncias do Poder
Executivo. Em Feira de Santana, este quadro é bastante forte.
Em outubro próximo, somente na Câmara Municipal, no grupo do
prefeito Zé Ronaldo, são quatro vereadores candidatos a deputado estadual.
Lulinha vai tentar pela terceira ou quarta vez. Jurandy Carvalho fará sua
estreia neste tipo de disputa. Na Casa da Cidadania, ele já disse reiteradas
vezes que não deseja ser mais vereador. Mas a Assembleia Legislativo, pelo visto
lhe atrai.
Pedro Américo, que perdeu o significativo apoio do
vice-prefeito Pablo Roberto, igualmente, vai buscar pela primeira vez um
mandato de deputado estadual. Rom do Povo é a mais recente pré-candidatura
lançada. Há ainda os que não tem mandato, como Tom e o ex-prefeito Colbert
Filho. Ambos já passaram pela Assembleia e, agora, pretendem retornar.
Também o deputado José de Arimatéia, em luta pela
reeleição. O radialista e pastor é do grupo, embora seu nicho principal de
eleitores não esteja diretamente sob influência de Ronaldo, mas da Igreja
Universal. A tendência é que dois, apenas, se elejam, sendo uma
dessas vagas praticamente assegurada por Arimatéia.
A dificuldade de eleição é semelhante entre os pré-candidatos a
deputado federal. No grupo governist, salabe-se, havendo mais de um nome, a
tendência é não eleger ninguém. Esta é uma das razões, talvez a principal, para
Ronaldo não conseguir ter representante em Brasília desde Fernando de Fabinho,
em 1998. Até semanas atrás, duas pré-candidaturas para a Câmara estavam postas,
na base governista: Zé Chico e Pablo.
Curiosamente, Pablo, que desde sua eleição para
vice-prefeito, em 2024, alimentava o sonho de alcançar a Câmara dos Deputados,
desistiu subitamente. Caminho aberto para o empresário e ex-presidente do
Fluminense de Feira, que deverá enfrentar dentro do mesmo grupo um nome menos
contundente. O radialista e ex-deputado estadual Carlos Geilson não tem o mesmo
poder de fogo junto ao eleitorado local, nem a mesma influência com Ronaldo.
Na oposição ao grupo ronaldista, o deputado federal Zé Neto
não tem dor de cabeça em sua reeleição. É "candidato solo" da esquerda, em Feira
de Santana. No entanto, para a Assembleia Legislativa, a briga é boa entre seus
aliados. Robinson Almeida, que busca a reeleição, não estará sozinho na
disputa. Além de ter que enfrentar os vereadores Sílvio Dias e Luiz da Feira,
ganhou recentemente outro concorrente peso-pesado, o deputado Ângelo Almeida,
ex-PSB e agora filiado ao PT. Dos quatro, eleição garantida, apenas um deles. No máximo dois.
Para a Câmara dos Deputados, como aqui descrito, o quadro
está unificado no PT. No time ronaldista, quase pacificado. Mas a guerra por
uma vaga na Assembleia Legislativa está bem confusa e complicada. Na direita,
todos sonham em ser o predileto de Ronaldo. Na esquerda, a esperança é garantir
o apoio de Zé Neto. Não dá pra acolher todo mundo, ao menos com chance de
vitória. Os líderes devem abrir o diálogo, sufocar vaidades e chegar a um
consenso, com os próprios candidatos, visando uma definição, fundamentada em
pesquisas, sobre quem realmente tem viabilidade.
Se não houver bom senso, a cidade, mais uma vez, se
decepcionará, como tem sido nas últimas eleições. Risco muito grande de eleger
somente um de cada grupo, o que seria irrisório para a importância de Feira de
Santana no Estado. O mais provável, nesse cenário, é que direita e esquerda, com seus candidatos,
"morram abraçados" nas urnas.