Eleger candidatos locais a deputado estadual e federal, em
Feira de Santana, tornou-se um grande desafio, desde o início dos anos 2000. A
imprensa e a sociedade cobram do eleitorado o voto em nomes da terra, mas não é
o que acontece na urna. São várias as mudanças no cenário político feirense,
nesses últimos 30 anos, que determinam a "perda de identidade", podemos assim dizer. Uma dessas transformações, talvez a principal delas, é a
postura que passou a ser adotada pelos dois maiores líderes, prefeito e
governador, em relação às candidaturas para o Legislativo.
Nos anos 70, 80 e 90, havia proeminência, em nível regional,
de políticos como João Durval, Chico Pinto, José Falcão e Colbert Martins. No
Estado, mandava Antonio Carlos Magalhães, na direita. Waldir Pires, Roberto
Santos e outros, na esquerda. Naqueles tempos, as regras para definição de
candidaturas à Assembleia e à Câmara Federal eram bem diferentes do que se vê
nos dias de hoje.
Muitos se lançavam pré-candidatos, mas poucos eram os
escolhidos. Aqueles que não recebessem as bênçãos desses comandantes,
simplesmente saíam de cena e aguardavam por uma próxima oportunidade. Quem
ousasse enfrentá-los e mantivesse a candidatura estaria fadado ao fracasso,
perdendo lideranças, eleitores, cargos. Em alguns casos, condenado ao fim de
carreira.
Com o auxílio da excelente memória do meu colega jornalista
Jair Onofre, um especialista em política local e diretor do bom portal
"Bahia na Política", relembramos algumas dessas eleições em uma época
em que era questão de honra, para o prefeito, eleger deputado e estar
representado em nível estadual e nacional.
Um caso clássico da forte influência do prefeito municipal,
no passado, na definição de candidaturas – e na eleição – de deputados, em
Feira, ocorreu em 1990, quando o prefeito Colbert Martins lançou o filho,
Colberzinho, para a Assembleia Legislativa. O então vereador Celso Pereira
decidiu também disputar aquele pleito, pelo mesmo grupo. Seria um concorrente
interno, o que o prefeito não admitiu.
Mesmo com a resistência do chefe do Executivo, Celso não
abriu mão de sua candidatura. Esconjurado pelo alcaide, no entanto, fracassou,
obtendo menos de 4 mil votos, o que lhe valeu uma longínqua suplência. Colbert
Filho se elegeu. Pela direita, os candidatos Sérgio Carneiro e José Ronaldo
foram os eleitos para a Assembleia.
Outro exemplo de como o prefeito influenciava nas
candidaturas a deputado estadual, principalmente, ocorreu com José Falcão,
eleito para o seu terceiro mandato em 1996. Relembra Jair que ele recomendou a
desistência a um pretendente à Assembleia, em 98, pelo grupo que comandava,
pois o seu candidato seria o filho dele, Roberto Tourinho. Falcão morreu em
agosto de 1997. Tourinho, que certamente se elegeria com o pai vivo, concorreu,
mas não levou. A fatalidade lhe tirou a grande chance da vida de ir além dos
vários mandatos de vereador.
No pleito de 1978, recorda-se o companheiro jornalista, o
prefeito Colbert Martins lançava pelo PMDB, para a Assembleia, o
"pecezão" – assim era chamado o novo emedebista de origem comunista –
Luciano Ribeiro, além do evangélico Gerson Gomes. O segundo era um nome mais
alinhado ao titular do Paço Municipal e, de quebra, preferido do então deputado
federal Chico Pinto. Ambos foram eleitos. Enquanto isso, José Falcão,
fora do poder, conseguia eleger Oscar Marques, o Oscar Tabaréu, no PDS.
Quatro anos depois, em 1982, o prefeito Colbert Martins era "candidato
dele mesmo" a deputado estadual. O seu vice, José Raimundo de Azevedo
assumiu a Prefeitura. Evidentemente, Colbert se elegeu. Gerson Gomes, desta vez
no PMDB, foi o outro eleito do grupo. Do lado do então PDS, com apoio do
candidato vitorioso ao Governo do Estado, João Durval, elegeram-se Hugo Navarro
e Augusto Matias. Apoiado por Colbert, Chico Pinto reelegeu-se deputado federal
pelo PMDB e Wilson Falcão, também reeleito pelo PDS, candidato do grupo de João
Durval – Noide Cerqueira ficou suplente.
A era José Ronaldo começa em 1986, quando chegou à Assembleia
Legislativa, para o primeiro de seus três mandatos de deputado estadual, com o
apoio do governador João Durval e também de Faustino Lima, um ex-presidente da
Casa que, alçado ao vitalício cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do
Estado, já não disputava mais nada. Ronaldo deixa a Assembleia em 1998, três
mandatos depois, quando elege-se deputado federal.
Sob sua liderança e guarda-chuva, alcançou a AL o ex-prefeito
de Santa Bárbara, Fernando de Fabinho. Antes mesmo de completar o mandato em
Brasília, Ronaldo vence a disputa para prefeito, em 2000. Dois anos mais tarde,
elege o pupilo Fabinho para seu lugar na Câmara Federal, onde permaneceu por
três legislaturas.
Diferentemente daqueles tempos, em outubro deste ano vários
candidatos vão disputar principalmente cadeiras na Assembleia Legislativa,
pelos seus respectivos grupos políticos, sem conseguir prioridade junto a
prefeito ou governador. Uma fórmula que não tem dado certo e sobre a qual vamos
tratar ainda esta semana.