O médico Tarcísio Pedreira, destacado político do vizinho município de São Gonçalo dos Campos, onde comanda a Prefeitura pela segunda vez, é figura muito conhecida em Feira de Santana, por várias razões. Ele é filho do ex-prefeito daquela cidade e ex-deputado estadual, o também médico Targino Machado, que faz política aqui, onde já foi excepcionalmente bem votado. Hoje, encontra-se sem mandato, aparentemente sem apetite para voltar a concorrer. Mas, não se engane, continua atuando forte nos bastidores.
O jovem prefeito sãogonçalense muito se parece com o pai. Seu discurso é sempre vigoroso. Não costuma ser complacente no enfrentamento a adversários políticos - não alivia nem mesmo o próprio pai, como já demonstrou em algumas ocasiões em que não defenderam a mesma causa - ou a quem tenta promover desordem em sua cidade. A resposta é sempre agressiva e o tom, de ultimato: ou vai, ou racha. Nas redes sociais, onde marca uma presença de grande frequência, seus vídeos, fazem sucesso. Os temas tratados são os mais diversos. Recentemente, bradou contra a Coelba, que estaria "lesando" o Município na cobrança da conta de energia das áreas públicas locais em aproximadamente R$ 100 mil, conforme uma auditoria feita pela Prefeitura em sua rede. Um caso muito sério, realmente. Ele ingressou na Justiça, pois a empresa continuaria a cobrar mais do que o consumo real.
Também bradou contra falhas no sistema judiciário brasileiro. "Justiça de verdade não protege amigos, não persegue inimigos; pratica a lei, apenas", filosofou. Fez um apelo ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a quem considera "luz que resta no túnel, suspiro de esperança", por investigação rigorosa sobre a corrupção praticada no país, envolvendo os Três Poderes, por meio do Banco Master.
Mas o protesto mais palpitante manifestado em seus últimos vídeos diz respeito ao Sistema Estadual de Regulação nos hospitais do Governo da Bahia. Alertou para o caso da idosa Maria Miguelina Borges Rios, de 73 anos, internada no hospital municipal de São Gonçalo, devido a um mal súbito. Estava no aguardo de uma transferência para hospital especializado, até dias atrás. Não tenho o quadro atualizado da paciente. Ele questionou, bem ao seu estilo, se o governador Jerônimo Rodrigues iria "deixar ela morrer".
Tarcísio fala da Regulação com uma dose de política, é verdade. Afinal, se revela um inimigo visceral do PT, que administra a Bahia há duas décadas. Mas há, também, uma certa propriedade no que ele diz. Afinal, atuou por 10 anos em unidades públicas, inclusive o Clériston Andrade e Hospital da Criança, que são estaduais, ambos localizados em Feira de Santana. O prefeito e experiente profissional de saúde cobra transparência do Estado, na Regulação: "É uma farsa. Não existe fila alguma, muito menos ordem de chamada. Há uma lista de doentes em que o Governo e os seus escolhem quem vai morrer e quem vai viver".
Observa que, diferentemente de outros serviços, na Regulação ninguém sabe quem está na frente. "Já se entrou alguma vez em uma fila sem saber qual a ordem?". Para efeito comparativo, cita o exemplo do atendimento em uma agência bancária. "Sabemos a nossa posição. Pegamos uma senha. Há um painel eletrônico pra todo mundo ver". O povo pobre, diz, tem que procurar político, "devidamente instrumentalizado", para mendigar uma transferência do parente internado em uma UPA, policlínica ou pequeno hospital municipal.
"Fui eu que vi. Há lista de doentes em que o governador e os seus escolhem quem vai morrer e quem vai viver. Quem rasteja (aos políticos), vive. Isto é fazer política com a morte", afirma o médico. Tarcízio Pedreira apresentou uma sugestão, para a imprensa e prefeitos das cidades baianas. Os veículos de comunicação deveriam fazer um consórcio, como na pandemia enquanto as prefeituras enviariam todos os dias a lista de pacientes que aguardam a regulação com respectivas datas de entrada na fila: "Todo mundo vai saber quem entrou primeiro, quem entrou na frente".
Evidentemente, existem aspectos específicos desta triagem a se considerar. A fila da Regulação Estadual não deve ser algo simples como acontece em instituições financeiras, casa lotérica ou o atendimento em empresas de abastecimento de água e energia. Em saúde pública, há pacientes mais graves que outros e isto implica em alguém que entrou primeiro na espera, sim, ter que aguardar mais que um outro recentemente inscrito na relação, diante da gravidade do quadro médico. Mas, mesmo assim, há que se dar maior transparência, de fato, a este sistema, pois a sensação do cidadão é que, realmente, a influência política é que manda.
Este é um sentimento cruel de quem se encontra na expectativa de vagar um leito em hospital de alta complexidade. Além de seguir a boa política que executa, de construção de unidades regionalizadas, ampliando a capacidade de atendimento, o Estado precisa criar mecanismos para transmitir transparência e credibilidade a esta operação, de tão desacreditada, apropriada e terrivelmente apelidada de "fila da morte". Estamos às vésperas de mais uma eleição para governador. Vamos, caros eleitores, prestar bem atenção em quais são as propostas para este tema crucial.