É do Município e não do Estado, diferentemente do que muitos
costumam pregar, a responsabilidade primária pelo saneamento básico (esgotamento
sanitário, abastecimento de água, coleta de lixo e drenagem). A titularidade
dos serviços é municipal, conforme a Constituição Federal de 1988, por se tratar
de um "interesse local". Desta forma, compete à Prefeitura planejar,
regular, fiscalizar e prestar o serviço, diretamente ou por concessão.
Na Bahia, quase todas as cidades mantém contrato com a
Embasa, uma companhia estadual de saneamento que conta com recursos públicos,
mas também tem participação da iniciativa privada, para manter e ampliar os
serviços de abastecimento de água e coleta de esgoto. Ou seja, o Estado acaba
sendo o grande operador deste trabalho.
Torna-se importante fazer este esclarecimento, pois estamos
acostumados a ouvir dos prefeitos, sobre os baixos índices de cobertura da rede
de esgoto, que os municípios nada têm a ver com isto. O Estado é o maior
responsável pelo problema, de fato, mas as prefeituras, historicamente, firmam
contratos draconianos e permitem que a empresa concessionária negligencie nas obras de ampliação dos
sistemas de esgotamento sanitário e também do abastecimento de água. Afinal,
trata-se de negócio de valores elevados e que envolve interesses lucrativos por
parte dos investidores.
Na Bahia, uma cidade, apenas uma, se diferencia das demais
quanto a este tema. A bela, desenvolvida e encantadora Vitória da Conquista, no
sudoeste, tem a maior cobertura de rede de esgoto não apenas neste Estado, mas
em todo o Norte e Nordeste, segundo o Instituto Trata Brasil em seu badalado
Ranking Saneamento 2026 envolvendo os 100 municípios mais populosos do país.
O estudo, que diz respeito aos dados coletados em 2024,
analisa três dimensões: “Nível de Atendimento”, “Melhoria do Atendimento” e
“Nível de Eficiência”, levando em consideração os indicadores do Sistema
Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), publicado pelo
Ministério das Cidades. Com a excelente classificação, 16º lugar, Conquista
deixa bem para trás Feira de Santana, em 65º, e Salvador, 50º lugar, e
Camaçari, 70º.
Estes municípios, mais a capital, para citar apenas os que
fazem parte da análise estatística recentemente divulgada, deveriam fazer um
estudo sobre o que aconteceu em Conquista, resultando em tamanho crescimento de
sua cobertura em saneamento básico, para que possam traçar um diagnóstico e
promover estratégias capazes de impactar positivamente estas cidades.
Certamente, chegariam à conclusão de que a prefeitura
conquistense, ao longo das últimas décadas, soube valorizar o município no
momento de fechar contrato com a Embasa, exigindo da empresa investimentos compatíveis
com o seu porte e as necessidades da população, em saneamento, e fiscalizando
rigorosamente a execução de todos os compromissos.
Evidentemente, o trabalho político de articulação pela
captação de recursos, através dos seus representantes na Câmara, Assembleia e
Congresso Nacional, junto ao Governo do Estado e União, muito contribuiu para
que a cidade atingisse o atual patamar.
De acordo com o ranking do Trata Brasil em 2026, o
abastecimento de água operado pela Embasa na conhecida "Cidade Sol",
de inverno charmoso, chega a 97,17% dos imóveis, frente a média nacional de
84,1%. Já o esgotamento sanitário alcança 83,76 %, acima da média nacional de
56,7%. Para que se tenha uma ideia, em Feira de Santana, segundo dados do
Governo do Estado, o atendimento no Município em coleta de esgoto atinge apenas
64%.
Há uma década, em 2016, a classificação de Feira de Santana
era melhor, número 54 no ranking dos
100 municípios mais populosos. Ocupava o "meio da tabela", uma
posição razoável, naquela época. Vitória da Conquista já era um destaque, no 21º
lugar. De lá pra cá Feira desceu a ribanceira, chegando a 72ª posição, em 2025.
Este ano, mostrando uma razoável evolução, ultrapassou sete municípios.
No ano passado, a Prefeitura de Feira de Santana assinou um
aditivo ao contrato com a Embasa, para que a estatal continue a ser responsável
por água e esgoto sanitário no Município. A prorrogação vale até 2050, com
previsão de investimento, nesse período, de R$ 1,3 bilhão. A promessa, até lá,
é de "universalizar os serviços na cidade". A primeira intervenção
anunciada é a implantação do Sistema de Esgotamento Sanitário na região da
Artêmia Pires, no SIM.
A obra prevê 13,7 quilômetros de rede coletora, beneficiando
mais de 21 mil moradores, com investimento de R$ 20 milhões. É uma iniciativa
em conjunto com o projeto da Prefeitura de duplicação e urbanização da avenida.
Também foi autorizado naquele 25 de junho de 2025 uma licitação para elaboração
dos projetos de esgotamento sanitário dos distritos de Bonfim de Feira e Maria
Quitéria.
O investimento total de R$ 1,3 bilhão em 25 anos corresponde
à aplicação anual de algo em torno de R$ 52 milhões na ampliação e manutenção
dos serviços de água e esgoto, ou R$ 4,3 milhões por mês. Só consultando os
especialistas, para saber se este volume de recursos é suficiente.
Parece ser pouco dinheiro para o projeto de universalização
das duas importantes redes, na sede e em extensa zona rural. Que a Agência
Municipal Reguladora de Serviços Públicos esteja atenta. O Marco Legal do
Saneamento (Lei Federal 14.026/2020) estabelece que os municípios devem
garantir a universalização dos serviços até 2033. Sabe-se que, por aqui, tal
meta não se atingirá em tão curto prazo. Mas a sociedade deve cobrar.