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Valdomiro Silva

Fanatismo político de eleitores, doença contemporânea que ameaça os jornalistas

VALDOMIRO SILVA - 18 de Março de 2026 | 15h 59
Fanatismo político de eleitores, doença contemporânea que ameaça os jornalistas
Foto: Joédson Alves/EFE; Sérgio Dutti/PSB

Jornalistas nunca tiveram paz para exercer a sua atividade, no Brasil. No período da Ditadura Militar, obviamente, era tudo bem pior. Mas nesta nossa democracia também enfrentamos problemas diversos. Foquemos em exemplos mais contemporâneos, para não ter que reconstituir o problema político em seus primórdios.

Na Bahia, nos anos 70, surgiu um líder importante, durante a Ditadura. Antonio Carlos Magalhães governou o Estado por nomeação dos militares, de 1971 a 1975 e de 1979 a 1983. Eram tempos em que "bicuda" na canela de repórter ou xingamento ao pé do ouvido eram coisas menores, diante de outras reações menos visíveis protagonizadas pelo também ex-senador e ministro.

Nas últimas décadas, o coronelismo ganhou um aliado, a cultura do fanatismo. 0  que no passado ocorria no sigilo dos bastidores, a partir dos poderosos sob a proteção de mandatos, hoje se registra  no meio da rua, em restaurantes e até na porta dos hospitais, por iniciativa não mais dos comandantes políticos, mas de eleitores comuns, seus súditos. E eles são impressionantemente numerosos.

O fenômeno da federalização de hostilidades contra jornalistas começou com a santificação de Lula, que preside o país pela terceira vez. Agora, nem tanto mas no alvorecer do petismo, seus radicais não suportavam sequer uma crítica ao penteado da barba do ex-sindicalista.

Quando se imaginava que nada igual poderia  superar aquele  movimento, eis que surge algo maior: o bolsonarismo. Jornalistas, então, passam a ser monitorados em duas frentes, ao estilo "se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come". Prepare-se para enfrentar o extremismo, o profissional que noticia ou critica algo que possa desagradar esquerda ou  direita. 

Recentemente, uma eleitora  agrediu verbalmente a uma dezena de repórteres que se encontravam conversando do lado de fora do hospital onde o ex-presidente Jair Bolsonaro encontra-se internado, em Brasília.

Assisti ao vídeo gravado pela mulher e por ela divulgado.  "Caras vocês estão discutindo aí, se o Bolsonaro morrer?",  diz, na abertura do vídeo, dirigindo-se ao grupo. "Criem vergonha na cara de vocês", vociferou. Os profissionais tiveram muita paciência. 

Ao  lançar as imagens na Internet, expôs os jornalistas, identificados perigosamente, no ambiente político que estamos vivendo no país. Dois deles, aliás, tiveram que registrar ocorrência em uma delegacia, pois foram ameaçados.

Jornalistas fora de suas casas e das redações, cumprindo plantão em hospital,  enfrentando desaforos de uma fanática, aos berros e ainda tendo seus rostos levados  perigosamente às redes sociais. Triste quadro.

A  delicada e aparentemente equilibrada ex-primeira-dama, senhora Michele Bolsonaro, compartilhou o absurdo. Ela tem alguma culpa. Menor, porém, que o de sua assessoria, que permitiu um equívoco dessa magnitude.

Quanto à mulher que criou toda a confusão, hostilizando profissionais de comunicação em pleno exercício do trabalho, causando-lhes  transtornos, inclusive à segurança dessas pessoas e seus familiares, precisa ser punida por isto. Faltou, inclusive, naquele momento, alguém chamar a polícia.

Afinal, se tratou de crime difamatório em flagrante delito, como observa um advogado a quem consultei. Com o registro de ameaças contra jornalistas que ela filmou e exibiu nas redes, o problema se torna ainda mais grave, por envolver dano, conforme este profissional do direito.

Tempos difíceis!



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