Jornalistas nunca tiveram paz para exercer a sua atividade,
no Brasil. No período da Ditadura Militar, obviamente, era tudo bem pior. Mas
nesta nossa democracia também enfrentamos problemas diversos. Foquemos em exemplos
mais contemporâneos, para não ter que reconstituir o problema político em seus
primórdios.
Na Bahia, nos anos 70, surgiu um líder importante, durante a
Ditadura. Antonio Carlos Magalhães governou o Estado por nomeação dos
militares, de 1971 a 1975 e de 1979 a 1983. Eram tempos em que
"bicuda" na canela de repórter ou xingamento ao pé do ouvido eram
coisas menores, diante de outras reações menos visíveis protagonizadas pelo
também ex-senador e ministro.
Nas últimas décadas, o coronelismo ganhou um aliado, a cultura do fanatismo. 0 que no passado ocorria no sigilo dos bastidores, a partir dos poderosos sob a proteção de mandatos, hoje se registra no meio da rua, em restaurantes e até na porta dos hospitais, por iniciativa não mais dos comandantes políticos, mas de eleitores comuns, seus súditos. E eles são impressionantemente numerosos.
O fenômeno da federalização de hostilidades contra
jornalistas começou com a santificação de Lula, que preside o país pela
terceira vez. Agora, nem tanto mas no alvorecer do petismo, seus radicais não
suportavam sequer uma crítica ao penteado da barba do ex-sindicalista.
Quando se imaginava que nada igual poderia superar
aquele movimento, eis que surge algo maior: o bolsonarismo. Jornalistas,
então, passam a ser monitorados em duas frentes, ao estilo "se correr, o
bicho pega; se ficar, o bicho come". Prepare-se para enfrentar o
extremismo, o profissional que noticia ou critica algo que possa desagradar
esquerda ou direita.
Recentemente, uma eleitora agrediu verbalmente a
uma dezena de repórteres que se encontravam conversando do lado de fora do
hospital onde o ex-presidente Jair Bolsonaro encontra-se internado, em
Brasília.
Assisti ao vídeo gravado pela mulher e por ela
divulgado. "Caras vocês estão discutindo aí, se o Bolsonaro
morrer?", diz, na abertura do vídeo, dirigindo-se ao grupo.
"Criem vergonha na cara de vocês", vociferou. Os profissionais tiveram
muita paciência.
Ao lançar as imagens na Internet, expôs os jornalistas,
identificados perigosamente, no ambiente político que estamos
vivendo no país. Dois deles, aliás, tiveram que registrar ocorrência em uma
delegacia, pois foram ameaçados.
Jornalistas fora de suas casas e das redações, cumprindo
plantão em hospital, enfrentando desaforos de uma fanática, aos berros e
ainda tendo seus rostos levados perigosamente às redes sociais. Triste
quadro.
A delicada e aparentemente equilibrada
ex-primeira-dama, senhora Michele Bolsonaro, compartilhou o absurdo. Ela tem alguma
culpa. Menor, porém, que o de sua assessoria, que permitiu um equívoco dessa
magnitude.
Quanto à mulher que criou toda a confusão, hostilizando
profissionais de comunicação em pleno exercício do trabalho,
causando-lhes transtornos, inclusive à segurança dessas pessoas e seus familiares, precisa ser
punida por isto. Faltou, inclusive, naquele momento, alguém chamar a polícia.
Afinal, se tratou de crime difamatório em flagrante delito,
como observa um advogado a quem consultei. Com o registro de ameaças contra
jornalistas que ela filmou e exibiu nas redes, o problema se torna ainda mais
grave, por envolver dano, conforme este profissional do direito.
Tempos difíceis!