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Valdomiro Silva

Além de revelar que PT lhe ofereceu a vice, Ronaldo praticamente confessa apoio a ACM Neto, em entrevista a Dilton Coutinho

VALDOMIRO SILVA - 12 de Março de 2026 | 18h 51
Além de revelar que PT lhe ofereceu a vice, Ronaldo praticamente confessa apoio a ACM Neto, em entrevista a Dilton Coutinho
Foto: Jorge Magalhães / Secom PMFS

"Para um bom entendedor, meia palavra basta", diz o ditado popular. Segundo definição encontrada nos dicionários e googles da vida, significa que pessoas perspicazes ou com afinidade prévia (ao assunto) compreendem rapidamente uma mensagem, sendo desnecessárias explicações. Indicam essas fontes que "a frase valoriza a síntese e a interpretação de entrelinhas, agindo como um 'subentendido' em conversas, especialmente quando o interlocutor tem experiência no tema". Mas há também uma advertência. Levar a expressão ao pé da letra pode ser arriscado, abrindo margem para falhas de comunicação, em situações que exijam "clareza absoluta".

O experiente apresentador do "Acorda Cidade" (Sociedade News), radialista e jornalista Dilton Coutinho, fez uma excelente entrevista com José Ronaldo, na quarta-feira, em que conseguiu arrancar do prefeito uma informação inédita, a de que recebera convite para ser o candidato a vice-governador nas duas principais chapas majoritárias em formação para o combate de outubro próximo, uma encabeçada por seu aliado do União Brasil, ACM Neto, e a outra pelo petista Jerônimo Rodrigues, que busca a reeleição.

A negativa aos dois convites, pela permanência à frente do Poder Executivo Municipal, o prefeito confidenciou em outra entrevista um pouco antes, no domingo, ao radialista Nivaldo Lancaster, do programa "Boca de Forno", da mesma emissora. Esta segunda informação não chegou a surpreender, diferentemente da que Ronaldo deu com exclusividade a Dilton. Ao responder "sim, sim!", com bastante ênfase, à pergunta "o senhor foi convidado pelo grupo do governador Jerônimo Rodrigues?", o prefeito desvendou um certo mistério que havia em torno do tema. 

Todos suspeitávamos que o PT desejava Ronaldo, mas não havia certeza de que lhe haviam oferecido um importante cargo. Aliás, acolher a quem adere ao seu projeto com funções de peso não é um ponto forte dos petistas. Algumas lideranças feirenses, a propósito, foram atraídas, nos governos Rui Costa e Jaques Wagner, mas nenhuma delas aproveitada no primeiro escalão governamental. Eram ex-deputados, federal e estadual, evidentemente, peso menor que o de um prefeito em quinto mandato.

Ele apenas não disse de quem partiu o convite. O âncora insistiu de várias formas. 

- Foram Jerônimo, Rui (o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa) e Wagner (o senador Jaques Wagner)?.  

- Aí, você já está querendo saber demais.

- Qual foi o argumento, para lhe convidar?

- Quem conversa comigo pode ter a certeza de que, o que não puder ser comentado, levo para o túmulo.

- Qual das propostas mais impactou o senhor?

- O convite me honra, tanto de uma casa quanto da outra.

Isto posto, vamos ao que de fato interessa - e, aqui, vale a menção ao ditado popular, no início destas conjecturas. Coutinho, no calor de uma entrevista que durou mais de 40 minutos, provavelmente não percebeu. Mas no silêncio do meu escritório de trabalho, podendo ouvir a resposta três vezes e refletir nela, me permito chegar a uma conclusão: a de que Ronaldo, inadvertidamente, encerrou a dúvida que muitos ainda têm, sobre se ele apoiará Jerônimo Rodrigues ou se mantém afastado da campanha, nestas eleições - o que não deixaria de ser um auxílio velado à reeleição do governador.  

Pergunta Dilton: Pessoal fala que o senhor ainda não esqueceu aquele escanteamento que o senhor levou na chapa na época para entrar a menina da TV Aratu. E que o senhor ainda tá magoado e vai cruzar os braços.

O entendimento aqui é que o apresentador se refere a cruzar os braços nesta campanha que se avizinha, deixando de apoiar a ACM Neto declaradamente. 

Responde Ronaldo: Vou lhe falar como se do meu lado aqui agora estivessem sentados meus três filhos, que amo profundamente. Não há nada disso!

"Não há nada disso!" é uma resposta que decifra a outra parte do enigma. Não somente encerra a possibilidade dele cruzar os braços como também de um apoio a Jerônimo, na medida em que nega, peremptoriamente, guardar ressentimentos de ACM Neto. Sua "raiva" foi "na hora, naqueles  dias" e, garante, "tudo acabou" no evento da CDL, lançamento estadual da chapa do União Brasil: "Ali aquele assunto deixou de existir. Pureza d'alma, firmeza de coração".

Vale à pena registrar o restante da resposta do prefeito, que demonstra o quanto ficou abalado em não ter sido o candidato a vice-governador na época. "Fiquei irritado, me aborreci muito, não fui para a convenção partidária". Admite, "quinta, sexta, sábado domingo e segunda-feira foram extremamente tensos na minha vida". 

"Mas nem tudo é como parece e a vida pública tem curvas", disse o prefeito, começando a explicar porque passou a compreender a atitude de ACM Neto. Naquele momento, lembra, o Republicanos "queria porque queria que o vice fosse alguém filiado ao partido".  Ele não se filiou ao Republicanos (antes) porque o deputado Marcio Marinho (cacique da legenda), "legitimamente", queria ser senador. 

Em janeiro de 2020, sem mandato, Ronaldo  também intencionava concorrer a senador. Mas a chegada ao grupo, de João Leão (vice-governador de Rui Costa), que decidiu apoiar Neto, fez com que ele viesse a buscar a vice. O Republicanos, também descartado para o Senado, passou a cobiçar a mesma vaga, "não abriu mão de jeito nenhum" e terminou emplacando a diretora da TV Aratu, Ana Coelho.

Não foi uma derrota nas urnas, mas o fato causou um estrago emocional violento em José Ronaldo. Conversou "muito com Deus", enquanto esposa e filhos "ficaram bem pertinho de mim". Deputados, prefeitos, vereadores, amigos o visitaram, no período em que ficou recluso em Salvador. Mas a maior influência para acalmar-lhe os nervos partiu do seu maior amigo na política, o ex-governador Paulo Souto: "É amizade pessoal, fraternal, a gente se respeita, se gosta e conversa".

Considera que houve erro do partido (deve referir-se ao União) e do próprio Neto, "mas ninguém é infalível num momento de tanta coisa na cabeça, reuniões até 4h da manhã, uma ou duas horas por dia de sono no deslocamento de um carro ou helicóptero". Compreensivo, ele diz que "o cansaço, o excesso de compromissos, o atende e recebe gente, discurso, programa eleitoral, tudo isto atrapalha". 

Por fim, confirmou as muitas especulações de ter sido procurado à época por João Roma, o candidato bolsonarista a governador em primeiro turno, e também pelo então governador Rui Costa, para conversar. Mas se manteve onde está e onde deve atuar, nesta campanha de  2026.




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