Há duas formas pelas quais o
cidadão cria identidade com sua cidade: a memória e a beleza. É através delas
que se estabelece a sensação de pertencimento e conexão com o espaço urbano.
Ninguém ama alguém apenas por sua utilidade; o amor surge do encantamento. Nas
cidades, dependemos do significado histórico — a memória — e da beleza urbana-
o encantamento.
Fiódor Dostoiévski, um dos grandes
nomes da literatura russa, afirmou que "a beleza salvará o mundo". A
beleza urbana é mais do que uma questão estética; desempenha papel fundamental na vida dos cidadãos. Especialistas
destacam que a estética de uma cidade reflete sua história e cultura,
contribuindo para a formação de uma identidade forte e coesa. Ambientes urbanos
agradáveis estão diretamente relacionados à saúde mental e ao bem-estar,
promovendo qualidade de vida por meio de espaços verdes e arquitetura
harmoniosa. Cidades bem cuidadas atraem investimentos e aumentam a valorização
dos imóveis, beneficiando a economia local.
Infelizmente, a memória de Feira
de Santana foi brutalmente comprometida pelo avanço imobiliário, que resultou
na falta de preservação de muitos imóveis históricos. Juraci Dórea, uma
referência cultural, registrou esse
horror em seu livro "Feira de
Santana: Memórias e Remanescentes da Arquitetura Eclética". Por outro
lado, das mais de 100 lagoas existentes, mais da metade foi aterrada sem que
sua beleza natural fosse devidamente explorada.
O urbanismo em Feira de Santana
apresenta falhas significativas que comprometem a beleza e, consequentemente, o
pertencimento dos cidadãos. Entre os principais problemas estão o descuido com
espaços públicos, o eterno e inconcluso projeto Centro, sinalização extremamente precária,
desordenação de passeios, entre outros. Não se pode apontar uma praça em Feira
que tenha um urbanismo impactante e atraente, ainda que sejam úteis. A desarmonia visual é um traço marcante da
cidade, tornando-a pouco atraente. Os parques são escassos e inconclusos, as avenidas mais antigas e importante carecem
de modernização e embelezamento. Georgina Erismann, no hino da cidade, já
sinalizava que Feira era "descuidosa
de sua beleza".
Diante desse cenário, é urgente
que gestores públicos e a sociedade civil se unam para revitalizar a
estética da cidade. A beleza urbana é
essencial para a criação de cidades vibrantes e acolhedoras. O descuido com a
estética em Feira de Santana prejudica não apenas a imagem da cidade, mas
também a qualidade de vida de seus cidadãos. Como disse Dostoiévski, a beleza
pode, de fato, salvar o mundo. É hora de Feira de Santana ouvir esse chamado e
transformar sua paisagem urbana em um espaço que além de útil celebre a beleza
e o pertencimento.