A escolha do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira para o Comando do Exército teria sido a forma encontrada pelo presidente Jair Bolsonaro de demonstrar disposição em encerrar a crise que ele mesmo criou com os militares. A opinião é da articulista do Uol, Thaís Oyama.
Segundo ela, o presidente queria colocar outro general no posto, mas o nome de Marco Antônio Freire Gomes, atual comandante militar do Nordeste, não foi aceito. Conforme afirmação de uma fonte ligada ao Palácio do Planalto, Bolsonaro foi obrigado a desistir, porque “o Exército fez jogo duro”.
Isto porque a nomeação de Freire Gomes “derrubaria” quatro generais que estavam à frente dele pelo critério da antiguidade. O mesmo ocorreria com Décio Schons e César Augusto Nardi de Souza, generais que passaram, automaticamente, para a reserva, nesta quarta-feira (31). A instituição, então, deixou claro que não aceitaria a escolha.
Conforme Thaís Oyama, o militar sugerido pelo chefe do Executivo Nacional nem sequer foi incluído na lista enviada, pela instituição, ao novo ministro da Defesa, general Braga Netto. Esta, diz a colunista, foi a forma de o Exército dizer ao presidente que, se ele insistisse em despachar para casa seis generais quatro estrelas de uma vez, abriria uma nova frente na crise desencadeada pela demissão sumária do ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.
A investida arbitrária de Jair Bolsonaro contra o ex-gestor da pasta resultou em uma situação inédita no país: a tripla renúncia dos comandantes das Forças Armadas. Em função disso, Thaís Oyama enfatiza que, para evitar o aprofundamento de seu isolamento dos militares, o presidente foi obrigado a aceitar nomear Nogueira de Oliveira e a engolir a seco o fato de ele ter criticado o governo, publicamente. O general explicitou sua discordância quanto à condução do combate à pandemia pelo governo, em entrevista publicada, na segunda-feira (29), pelo jornal Correio Braziliense.
Os nomes de Nogueira de Oliveira e os escolhidos para comandar a Marinha e a Aeronáutica — o almirante de esquadra Almir Garnier e o brigadeiro Carlos Almeida Baptista Junior — constavam da lista tríplice definida a partir do critério de antiguidade, de onde as Forças Armadas esperam que saiam seus comandantes.
De acordo com a articulista, o fato de Bolsonaro ter cedido frente ao Exército não é o único sinal de que afrouxou na queda de braço com os militares. A ordem do dia expedida, ontem, por Braga Netto, apesar de estar longe de ser um atestado de apreço às instituições, foi, diante das circunstâncias, recebida como mais um aceno de paz, assim como a ausência do presidente em qualquer manifestação em homenagem ao golpe militar de dia 31 de março.
Na avaliação de Thaís Oyama, a presente crise tende a se encerrar, pelo menos até o presidente criar outra. “O certo que ela não se vai sem deixar sequelas. Azevedo e Silva, por exemplo, detestou ter sido demitido e sai do governo cheio de mágoas. Mas, diante do quadro geral, a situação pessoal do ex-ministro da Defesa e as eventuais consequências que ela possa trazer para o governo são o menor dos problemas”, avaliou.
Ela argumenta que a tripla e inédita renúncia dos comandantes “significou que, em um determinado momento do governo Bolsonaro, os mais influentes militares do país viraram as costas para o presidente da República e deixaram de reconhecê-lo como Supremo Comandante das Forças Armadas”. O efeito foi imediato: “Bolsonaro entendeu isso e agora acena para os militares com uma bandeira branca. É um recuo do presidente — e não é exatamente uma escolha”, observou a articulista.