A exaltação de uma violenta ditadura, que torturou, matou e fez desaparecer (sem deixar rastros) centenas de intelectuais, políticos, estudantes e até crianças, cabe em uma democracia? No Brasil de Jair Bolsonaro, sim! A lista de louvores é extensa. E, nesta quarta-feira (31), mais uma ação da mesma natureza foi acrescida ao equívoco. Em seu primeiro ato público como ministro da Defesa, o general Braga Netto, que assumiu a pasta após a desastrosa demissão do general Fernando Azevedo e Silva,publicou uma ordem do dia alusiva aos 57 anos do golpe militar de 1964, que ele preferiu chamar de movimento de 31 de março de 1964.
De acordo com o G1, Braga Netto descreveu, no texto, a conjuntura da época. Disse que o século 20 foi marcado por guerras mundiais e pela expansão de ideologias totalitárias e que a Guerra Fria envolveu a América Latina, “trazendo ao Brasil um cenário de inseguranças, com instabilidade política, social e econômica”. E, em função do que relatou, afirmou que havia ameaça real à paz e à democracia, afinal a História está repleta de lacunas, que a oficialidade sempre preencheu conforme a própria conveniência.
Em seu desenho de um Brasil a ser salvo pelo “movimento” ritmado dos quartéis, Braga Netto disse, ainda, que os brasileiros se articulavam nas ruas, com amplo apoio da imprensa, de lideranças políticas, das igrejas e de empresários. E que coube às Forças Armadas a responsabilidade de “pacificar” o país, enfrentando desgastes para reorganizá-lo e para “garantir” as liberdades democráticas de hoje.
O general esqueceu-se de mencionar os 21 anos em que os militares se mantiveram no poder, após o golpe. Tampouco citou os atos mais arbitrários do regime, a exemplo do AI-5. Não deu espaço, em seu texto, às memórias da censura e da perseguição à imprensa, aos artistas, aos secundaristas, aos universitários e aos políticos que discordavam do que ditava aquele “movimento” que, sem modéstia, destoava totalmente de um Estado Democrático de Direito (só conquistado, mesmo, após a Constituição de 1988). Como Braga Netto pôde deslembrar tantos fantasmas, se a imagem toscamente enforcada do jornalista Vladmir Herzog não deixa o Brasil esquecer o que de fato foi aquele ponto abstruso de sua História?
Após saltar tantos incidentes sombrios, o novo ministro dedicou-se a destacar que as Forças Armadas “acompanham as mudanças dos últimos anos, conscientes de sua missão constitucional de defender a pátria, garantir os poderes constitucionais, e seguros de que a harmonia e o equilíbrio entre esses poderes preservarão a paz e a estabilidade em nosso país”.
Segundo o G1, o general concluiu afirmando que o movimento de 1964 é “parte da trajetória histórica do Brasil” e que “assim devem ser compreendidos e celebrados os acontecimentos daquele 31 de março”.
Pelo terceiro ano consecutivo, há ordem do dia alusiva ao golpe militar de 64. E os textos todos se assemelham. Em 2020, lembrou o site, coube ao então ministro Fernando Azevedo e Silva afirmar que o movimento de 64 é um “marco para a democracia brasileira”.
Não fossem os fatos, as frases e tentativas do presidente da República (ontem, os três chefes das Forças Armadas entregaram os cargos em retaliação a elas) e de seus representantes e filhos, muitos mais poderiam acreditar que o poder jamais sufocou a democracia e que não a ameaça, novamente, de forma constante, desde 2018.