Morreu, na madrugada desta quarta-feira (24), em Salvador, o ex-deputado federal e dirigente do PCdoB da Bahia, Haroldo Lima. Internado em unidade de saúde da capital baiana, ele não resistiu às complicações ocasionadas pela Covid-19.
Segundo o G1, por meio de nota, o presidente estadual do PCdoB, Davidson Magalhães, afirmou que o ex-parlamentar “lutou bravamente por longos dias contra a doença, mas não resistiu às complicações”. Ele lamentou a morte do político e companheiro de partido. “Lamentamos profundamente a irreparável perda de um dos mais destacados quadros nacionais do PCdoB nas últimas décadas e prestamos irrestrita solidariedade aos familiares, aos amigos e militantes neste momento de dor”, diz, no documento.
REPERCUSSÃO – Diversas autoridades políticas e pessoas públicas se pronunciaram sobre a morte do ex-deputado. Em entrevista ao Jornal da Manhã, da TV Bahia, o governador Rui Costa (PT) lastimou mais esta perda para a Covid-19 e se solidarizou com a família, os amigos e os correligionários do político. “Eu quero lamentar a morte do Haroldo Lima, ex-presidente do PCdoB, abraçar a família, prestar solidariedade, meus sentimentos a toda militância do PCdoB, meus sentimentos. E faremos uma homenagem a ele, hoje, ao longo do dia. Essa doença tem levado pessoas muito importantes, pessoas que, independentes de terem cargos políticos ou não, pessoas que compõem o ente querido de cada família. Então, além de político, o Haroldo era alguém que representava o sentimento de família, de amor ao próximo. Fica o nosso abraço aqui”, destacou.
No Instagram, o secretário de Saúde do Estado da Bahia, Fábio Vilas-Boas, disse que “a Bahia perdeu, hoje (24), para a #COVID19 mais um dos líderes que fizeram história na luta pela democracia, @haroldorlima. Meus sentimentos aos amigos do PCdoB e a toda sua família”.
Ainda segundo o G1, a deputada federal Alice Portugal também lamentou a morte do companheiro de partido. “Perdemos HAROLDO LIMA para a COVID-19, mas ele vive e viverá eternamente na nossa luta e em nossos corações!”, escreveu a parlamentar.
João Carlos Salles da Silva, reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), lembrou a trajetória e os valores humanitários do amigo e lamentou a dramática situação que a Covid-19 está impondo ao país. “É um momento muito triste para a Bahia e o Brasil. Estão de luto pessoas e instituições. Está de luto a Universidade Federal da Bahia, que ele sempre defendeu e amou; e estão de luto, em um largo espectro de posições, todos os que lutam contra a exploração, todos os que defendem a democracia e a liberdade, todos os que defendem a vida e o conhecimento. Faleceu Haroldo Lima, vítima da Covid, em um dia que, indicam os números, chegamos à marca aterradora de 300 mil óbitos. Haroldo Lima era um amigo único e raro, capaz de conciliar história e humanidade. Afinal, sua presença sempre se revestia de um brilho extraordinário, como se uma figura lendária, uma personagem de livro, fosse também um parente próximo. Assim, grande liderança comunista, sua palavra sempre provocava respeito e reverência, mas o escutávamos também como se um companheiro de viagem, a um só tempo tímido e eloquente, estivesse ali a nosso lado, sendo corajoso e firme, próximo e solidário. Haroldo era, enfim, como nos lembrou, hoje, o poeta José Carlos Capinan, alguém com quem podíamos falar de política e poesia”, louvou.
LUTA PELA REDEMOCRATIZAÇÃO – Preso, em 15 de dezembro 1976, pela Ditadura Militar, durante uma reunião do Comitê Central do PC do B, em São Paulo, Haroldo Lima viu diversos companheiros serem assassinados, no episódio conhecido como a “chacina da Lapa”. À detenção, seguiram-se torturas, denunciadas por ele nos tribunais militares. Após quase três anos entre o Presídio do Barro Branco, em São Paulo, e a Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, foi anistiado em 1979.
Entretanto, acusado de ter articulado um grande “quebra-quebra” de ônibus urbanos, em protesto contra aumento do preço das passagens de ônibus em Salvador, voltou a ser preso em 1981. Nessa época, juntou-se a Rômulo Almeida, Waldir Pires, Francisco Pinto, Élquisson Soares para fundar o PMDB na Bahia.
Com Francisco Pinto – ex-prefeito de Feira de Santana deposto e também preso pelo Regime Militar – e outros correligionários, organiza a “Tendência Popular” do PMDB. É assim, de forma velada, que o PCdoB passa a atuar politicamente, por força das leis discricionárias ainda em vigor. As ações com o apoio do presidente do PMDB, Ulisses Guimarães.
Pela ampla frente política que era o PMDB, Haroldo Lima foi eleito deputado federal em 1982, sendo um dos mais votados de Salvador, com, aproximadamente, 30 mil votos. A legalização dos partidos de esquerda, em 1985, permitiu a Haroldo Lima filiar-se oficialmente ao PCdoB.
Em 1988, foi deputado federal constituinte. Clamava por uma assembleia “democrática e progressista”. Sob o slogan “Botando pra quebrar na Constituinte”, foi eleito, neste mandato, com uma votação expressiva, que nunca mais se repetiu: 40 mil eleitores baianos confiaram a ele a luta pela redemocratização do país. Nesta época, apresentou cerca de 1.200 emendas ao projeto de Constituição, conseguindo aprovar várias delas. Recebeu do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) nota 10 e o jornal Folha de S.Paulo o colocou entre os 40 mais destacados constituintes.
Haroldo Lima dedicou toda a vida à luta democrática. Sua trajetória na vida pública foi marcada pela criticidade às políticas neoliberais, que incluíam o desmonte das estruturas do Estado, a ideia de Estado Mínimo, as privatização de empresas estatais estratégicas e a quebra dos monopólios constitucionais. Criticou também a abertura comercial sem critérios e alertou para os riscos da inserção do Brasil na economia globalizada em condições desfavoráveis ao país.