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  • Feira de Santana, domingo, 22 de fevereiro de 2026

Wellington Freire

A poética de Fabrício Oliveira: O herói que carrega os mortos

22 de Fevereiro de 2026 | 06h 50
A poética de Fabrício Oliveira: O herói que carrega os mortos

A obra do poeta baiano Fabrício Oliveira, ainda em processo de consolidação editorial, já se configura como um dos empreendimentos poéticos mais coerentes, orgânicos e ambiciosos da literatura baiana contemporânea. Desde Gramática das Pedras e Viração - os primeiros livros de um ciclo sertanejo - até Corações Arenosos, passando pela inflexão urbana de Noite Obscena e chegando ao romance poético ainda inédito A Mortalha das Águas, observa-se a persistência de uma instância enunciadora singular, cujas características a afastam das tipologias tradicionais do sujeito lírico regionalista ou urbano. 

 O que se vê no conjunto da obra do poeta em questão é a presença de um “eu” dotado de uma natureza anômala: uma presença que atravessa tempos, geografias e gêneros discursivos, deslocando-se com a liberdade errática de uma entidade não inteiramente humana. Uma entidade espectral que se desloca ao longo dos livros e que atua como uma espécie de testemunha silenciosa e inoperante. Esse sujeito não é apenas uma voz: é um fenômeno estético. Em sua trajetória textual, assume contornos espectrais, pairando sobre o vilarejo de Viração - cenário mítico em que se desenvolve grande parte da trilogia sertaneja - e sobre as cidades devastadas que surgem em Noite Obscena, até penetrar nas águas densas e fabulosas do romance poético A Mortalha das Águas. A despeito dessas mudanças espaciais e genéricas, permanece uma mesma consciência: silenciosa, vigilante, dotada de memória absoluta e incapaz de interferir nos acontecimentos que observa. 

O que se evidencia é uma estranha combinação de onisciência e impotência, como se esse eu fosse simultaneamente arauto, sobrevivente e fantasma. A postura do narrador lembra a frieza documental de veteranos de guerra: alguém incapaz de intervir, obrigado a relatar o horror. A linguagem é construída como se fosse um relatório militar dos infortúnios da aldeia de Viração.

A hipótese que orienta este artigo é que tal instância narrativa compõe uma figura de herói trágico moderno, ou um aedo/espectro, cujos atributos dialogam com o imaginário da epopeia clássica, em especial com a figura de Eneias, mas cuja condição é radicalmente destituída de finalidade heroica ou fundadora. Se o herói de Virgílio carrega os mortos de Troia para assegurar o nascimento de Roma, o eu  na obra de Fabrício Oliveira carrega os mortos da aldeia de Viração e das periferias urbanas sem qualquer promessa de redenção ou de futuro. Ele é condenado não à construção de uma cidade, mas à travessia infinita de uma memória coletiva dilacerada. Sua missão é a anti-missão; sua aventura, uma anti-epopeia que se espraia por toda uma obra. 

Assim, o que se revela ao longo dos livros é uma monumental narrativa de sobrevivência espectral, na qual o protagonista se define por sua capacidade de ver  e por sua incapacidade constitutiva de agir: ele apenas observa, rememora, evoca, narra mas se vê incapaz - ou destituído de meios - de interferir. Ao longo das obras, o eu espectral parece reunir traços de um ancestral mítico, de um psicopompo rural, de um relicário humano das tragédias alheias e de um narrador pós-moderno cuja identidade se estilhaça na experiência do trauma. Ele observa a morte de Lió Capado, o assassinato de Manuelzinho, a solidão de Seu Dimiro, osdramas da parteira que perde todos os bebês que tenta trazer ao mundo, os desastres naturais, os abortos, os suicídios urbanos, as violências anônimas das ruas, e jamais intervém. Sua frieza discursiva, que frequentemente lembra o relatório militar, a nota de campo etnográfica ou o laudo clínico, reforça sua condição de espectro: alguém que vê o horror demasiadamente de perto e que, por isso, teve suas afetividades amputadas.

Nesse sentido, este artigo propõe uma leitura que integra as diversas fases da obra de Fabrício Oliveira como partes de um único ciclo trágico-poético, sustentado pela presença constante desse eu deslocado. A trilogia sertaneja constrói o espaço mítico originário e a genealogia da dor; Cartas Manchadas desloca o espectro para a cidade, revelando que sua danação ultrapassa a geografia do sertão; A Mortalha das Águas leva esse processo ao limite ao inserir o mesmo narrador num romance poético que amplia sua interioridade e transforma sua voz em fluxo contínuo de espectralidade.

 O herói espectral  na obra de  Fabrício Oliveira é, em última instância, um sobrevivente condenado a guardar a memória de um povo, de um território e de uma história que lhe atravessa o corpo e o dissolve. Sua travessia, longe de fundar uma nova ordem, revela a impossibilidade da esperança,  o que o aproxima, paradoxalmente, tanto de Eneias quanto das figuras trágicas mais sombrias da antiguidade.  A  obra de Fabrício Oliveira compõe uma das mais potentes construções contemporâneas do herói trágico brasileiro,  um herói sem glória, fadado não ao triunfo, mas à memória.

 O espectro é a figura que guarda aquilo que a comunidade não pode elaborar: violência estrutural, lutos não resolvidos, perdas repetidas, traumas coletivos. Ele não fala em seu próprio nome, ele fala no lugar do que foi silenciado. Essa figura se reconhece por traços persistentes: impotência de agir, onisciência limitada pelo luto, frieza discursiva como mecanismo de sobrevivência,trânsito entre tempos, função de guardião do que resta. O eu espectral de Fabrício Oliveira se inscreve exatamente nessa linhagem: testemunha a tragédia dos outros, recolhe retalhos de vidas destruídas, e permanece condenado a narrá-los sem se manifestar emocionalmente.

É aqui que surge a categoria dos heróis falidos, isto é, dos personagens cuja missão é preservar ou reviver tradições irremediavelmente destruídas. Sua grandeza é inseparável de sua falência. Eles são jardineiros de desertos, cultivando símbolos que secaram antes mesmo de sua chegada. Sua dignidade está no gesto, não no resultado. Essa lógica ecoa de maneira surpreendente na obra de Fabrício Oliveira: o eu que percorre seus livros não luta pela restauração de um mundo sertanejo ideal; ao contrário, guarda a memória de um serrilhado de tragédias. Ele é guardião de uma tradição que não floresceu, de uma comunidade que se esfacela, de uma terra que produz mais cadáveres que colheitas



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