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César Oliveira

Somos todos cabisbaixos

César Oliveira - 21 de Fevereiro de 2026 | 20h 16
Somos todos cabisbaixos
Congresso Nacional

Na filosofia moral de Tomás de Aquino, a assídia é descrita como uma "tristeza da alma" que nos arrasta para a indiferença e a inércia. É o vício de quem, exausto, desiste de buscar o bem por considerá-lo impossível. Olhando para o Brasil de hoje, percebe-se que essa não é mais apenas uma categoria teológica, mas a descrição precisa de nosso estado cívico. Tornamo-nos, coletivamente, um povo cabisbaixo.

Não há como negar que o meio influencia nosso o espírito. Vivemos sob um estado de desordem violenta que exige uma adaptação cerebral constante. O medo deixou de ser um susto episódico para se tornar uma variável permanente em cada ato cotidiano, obrigando-nos a uma vigilância sem tréguas que esvazia a nossa vontade. É uma fadiga existencial: o peso de carregar uma impotência que não escolhemos, mas que nos foi imposta.

Essa asfixia da esperança encontra combustível no ambiente generalizado de corrupção. O brio e o sentimento de pertencimento à nação estão sendo apagados. Ninguém se orgulha do que é feio, do que é abjeto. A omissão abissal do Congresso Nacional, que flutua em um vácuo de interesses próprios totalmente distantes da realidade da população, gera apenas frustração.

Pior ainda é observar o Judiciário — que deveria ser a elite funcional e o último reduto da justiça — transformar-se em uma fábrica de desilusão. Onde deveria haver confiança, há dor. Atos de censura franca, escândalos financeiros cinematográficos (como contratos milionários e resorts de ministros em parceria com bancos corruptos) e a repressão às críticas — táticas dignas de regimes totalitários — causam absoluta vergonha. O Direito, que deveria proteger, passou a ser utilizado como elemento de ameaça.

Quando o cenário político é esteticamente repulsivo, ocorre um divórcio emocional entre o indivíduo e a nação. A corrupção não rouba apenas dinheiro; ela rouba o amor cívico e o desejo de construir algo comum. O resultado é visível em qualquer roda de conversa onde não se sentam os cúmplices da pirataria: descrédito total. Há uma indignação sufocada, um silêncio que nasce da percepção de que fomos desarmados de qualquer meio eficaz para mudar aquilo com que não concordamos.

O cidadão cabisbaixo não é um covarde; é um sobrevivente exausto de um sistema que o ignora, o oprime e o engana em sua representação institucional. Resta saber até quando o olhar fixo no chão será capaz de suportar o peso de uma pátria que parece ter desistido de seu futuro. 



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