Há datas que pertencem não apenas aos calendários, mas à consciência das nações. Para a Rússia, 22 de junho é uma delas. Na madrugada daquele dia, em 1941, teve início a Operação Barbarossa, a maior invasão terrestre da história.
Três milhões de soldados alemães atravessaram as fronteiras
da União Soviética. Em poucas semanas, cidades caíram, exércitos foram cercados
e centenas de milhares de homens desapareceram nos vastos espaços do Leste
Europeu. Era o começo daquilo que os russos ainda chamam de Grande Guerra
Patriótica.
O trauma foi tão profundo que moldou a identidade nacional
russa durante gerações. A memória da invasão tornou-se um elemento fundador da
consciência coletiva do país. O invasor estrangeiro, o sacrifício heroico, a
defesa da pátria e a vitória final passaram a ocupar lugar central na narrativa
histórica construída por Moscou.
Mas a história possui um gosto particular pela ironia.
Oitenta e poucos anos depois, a Rússia se encontra do outro lado da fronteira.
Em 1941, as colunas blindadas alemãs avançavam sobre a Ucrânia. Em 2022,
colunas blindadas russas avançaram sobre a Ucrânia.
Em 1941, Kiev se preparava para resistir a um exército
invasor. Em 2022, Kiev voltou a se preparar para resistir a um exército
invasor. Em 1941, a população civil fugia dos bombardeios alemães. Hoje, foge
dos mísseis e drones russos. A
geografia permanece a mesma. Mudaram apenas os uniformes.
É precisamente aí que reside um dos grandes paradoxos do
nosso tempo. O Kremlin continua recorrendo à memória da Segunda Guerra Mundial
para justificar suas ações. O vocabulário da luta contra o fascismo, da defesa
histórica da pátria e da libertação dos povos ocupa posição central na retórica
oficial russa. A guerra atual é, frequentemente, apresentada como uma continuação
moral da luta travada contra Hitler.
Entretanto, existe uma diferença fundamental, que nenhum
discurso consegue apagar. Em 1941, a União Soviética lutava para sobreviver a
uma invasão estrangeira. Em 2022, foi a Federação Russa que atravessou uma fronteira
internacionalmente reconhecida. A memória da vítima e a realidade do agressor
passaram a coexistir dentro da mesma narrativa política.
Talvez, esse seja um fenômeno mais comum do que gostaríamos
de admitir. Povos costumam lembrar com extraordinária precisão as violências
que sofreram. Já as violências que praticam tendem a ser envolvidas por
justificativas, eufemismos e racionalizações.
A memória é seletiva. A história, nem sempre. Ao observar o
aniversário da Operação Barbarossa, não consigo evitar a sensação de que
estamos diante de uma das mais notáveis inversões históricas do último século.
O país que construiu parte de sua identidade nacional sobre a lembrança de uma
invasão devastadora tornou-se protagonista de uma guerra que muitos, fora de suas
fronteiras, enxergam precisamente como uma invasão.
Isso não diminui o sofrimento russo de 1941. Tampouco
relativiza o horror da agressão nazista. Pelo contrário. Apenas nos recorda que
a experiência de ter sido vítima não imuniza nenhuma sociedade contra a
tentação do poder.
A história militar está repleta desses espelhos
desconfortáveis. Impérios derrotados tornam-se conquistadores. Povos ocupados
transformam-se em ocupantes. Revolucionários convertem-se em burocratas.
Libertadores assumem o papel de dominadores.
Talvez, a maior lição de 22 de junho não esteja nos
movimentos das divisões blindadas ou nos mapas das campanhas militares. Talvez
ela resida numa verdade mais simples e mais amarga. A história não garante
virtude a ninguém. Ela apenas oferece, de tempos em tempos, a oportunidade de
escolher entre recordar uma tragédia ou repeti-la. E nem sempre as nações fazem
a escolha correta.