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Feira de Santana

Entre rotas e altares: a presença anglicana em Feira

Wellington Freire - 24 de Fevereiro de 2026 | 06h 18
Entre rotas e altares: a presença anglicana em Feira

Feira de Santana, entroncamento histórico de estradas e caminhos do Nordeste, consolidou-se como cidade de interligação de rotas, ponto de passagem e de encontros. Porta de entrada para o sertão baiano e elo entre o litoral e o interior, a cidade cresceu marcada pela circulação de pessoas, culturas, ideias e crenças. Essa vocação para o trânsito e para o diálogo faz de Feira um território naturalmente plural, um espaço onde diferentes expressões religiosas encontram terreno fértil para florescer.

É nesse contexto que se insere a presença da Igreja Anglicana em Feira de Santana. À frente da Comunidade Anglicana Ressurreição do Senhor está o reverendo Adriano Portela, ex-padre da Igreja Católica, Doutor em Literatura e professor da rede estadual de ensino. Intelectual comprometido com a educação pública, homem negro atento às questões sociais e às lutas por dignidade e inclusão, Adriano reúne em sua trajetória a experiência pastoral, a formação acadêmica e o engajamento cidadão. Sua liderança imprime à comunidade um perfil que articula fé, pensamento crítico e responsabilidade social.

A tradição anglicana remonta ao século XVI, no contexto da Reforma Inglesa, mas desenvolveu ao longo dos séculos uma identidade própria, frequentemente descrita como “via média”, um caminho de equilíbrio entre o catolicismo romano e as tradições protestantes históricas. Essa identidade se expressa em seis fundamentos teológicos amplamente reconhecidos.

O primeiro fundamento é a centralidade das Escrituras Sagradas, entendidas como referência primordial para a fé e a vida cristã. O segundo é a valorização da tradição da Igreja, reconhecendo a continuidade histórica do cristianismo. O terceiro é o uso da razão como instrumento legítimo de interpretação e discernimento, elemento que distingue o pensamento anglicano ao integrar fé e reflexão crítica.

O quarto fundamento está nos sacramentos, especialmente o Batismo e a Eucaristia, considerados sinais eficazes da graça divina. O quinto é a dimensão litúrgica: o culto anglicano preserva a beleza simbólica e a profundidade espiritual herdadas da tradição histórica da Igreja. E o sexto fundamento é o compromisso pastoral e social, que une espiritualidade e responsabilidade ética.

Entre essas marcas, destaca-se de modo particular a tradição de tolerância religiosa. A Igreja Anglicana construiu, ao longo de sua história, uma cultura de diálogo com diferentes correntes cristãs e com outras expressões religiosas. Essa postura não significa relativismo, mas a convicção de que a verdade pode ser buscada com humildade, respeito e abertura. Em uma cidade marcada pelo encontro de caminhos, essa vocação ao diálogo encontra especial ressonância.

Em Feira de Santana, essa tradição se concretiza no ambiente de acolhimento cultivado pela Comunidade Anglicana Ressurreição do Senhor. A igreja se apresenta como espaço de escuta, partilha e respeito às trajetórias individuais. Pessoas de diferentes histórias, formações e experiências encontram ali não apenas um templo, mas uma comunidade que valoriza a dignidade humana, a liberdade de consciência e o cuidado com os mais vulneráveis.

Um marco importante dessa caminhada será a inauguração oficial de sua nova sede, no dia 14 de março de 2026. A conquista de um templo próprio representa mais do que a consolidação institucional: simboliza raízes que se aprofundam no solo feirense. É sinal de maturidade comunitária e de compromisso com a cidade que, sendo entroncamento de rotas, também se torna lugar de permanência, construção e esperança.

A Igreja Anglicana de Feira de Santana está aberta a todos que desejem visitá-la. Em tempos de polarizações e intolerâncias, sua presença reafirma que a fé pode ser caminho de reconciliação, diálogo e justiça, valores que dialogam profundamente com a própria vocação histórica da cidade.



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