Se hoje você é um pedestre que resolve percorrer a Rua Marechal Deodoro a pé, percebe que aquilo que foi outrora um eco-sistema econômico autônomo, centro de atividade comercial popular, hoje mais parece o braço semi-morto de um rio. Quem caminha hoje pela Rua Marechal Deodoro encontra fachadas gastas, lixo acumulado em horários irregulares e um comércio que resiste mais do que prospera. Mas reduzir o cenário à “decadência natural do tempo” é confortável e impreciso. O que se vê ali não é apenas desgaste: é resultado de decisões.
Essa constatação não decorre apenas de uma percepção subjetiva do transeunte atento, mas expressa um processo objetivo de desestruturação econômica e abandono urbano. A Rua Marechal Deodoro integrou, durante boa parte do século XX, um sistema comercial popular funcional, sustentado por alta densidade de circulação, diversidade de pequenos negócios e forte ancoragem territorial. Tratava-se de um espaço que produzia valor econômico e social não por grandes investimentos de capital, mas pela intensidade do uso, pela proximidade entre oferta e demanda e pela centralidade que exercia no cotidiano da cidade.
Sua localização era estratégica. A articulação direta com a Avenida Getúlio Vargas e com o antigo Mercado Municipal garantia fluxo contínuo de pessoas e mercadorias. Esse conjunto operava como um circuito urbano coerente, no qual a Marechal Deodoro cumpria papel essencial de mediação: absorvia o comércio de menor escala, distribuía consumidores e sustentava uma economia de base popular. Não era periferia; era parte constitutiva do centro.
O colapso desse ecossistema não se explica por uma única causa, mas por uma convergência de fatores estruturais. A mudança nos padrões de consumo, marcada pela expansão dos grandes supermercados e centros comerciais, deslocou o comércio para espaços privatizados, amplos e planejados para o consumo rápido. Paralelamente, o poder público mostrou-se incapaz, ou desinteressado, em atualizar a infraestrutura do centro tradicional, permitindo que áreas inteiras entrassem em processo de obsolescência funcional.
O resultado é visível. A rua não foi esvaziada; foi precarizada. As atividades econômicas que permanecem operam em condições degradadas, com baixo nível de investimento, informalização crescente e dependência quase exclusiva do consumo imediato. A limpeza pública irregular, o acúmulo de resíduos e o desgaste das edificações não são causas, mas sintomas de um espaço que deixou de ser prioridade na lógica urbana dominante.
A feira livre, elemento fundador da identidade local, sobrevive de forma residual. Os feirantes que ainda ocupam a rua não representam a continuidade de uma tradição econômica vigorosa, mas a permanência forçada de grupos sociais para os quais a mobilidade econômica é limitada. Trata-se de uma ocupação defensiva do espaço, não de uma dinâmica de crescimento. A rua, nesse sentido, converteu-se em território de sobrevivência, não de prosperidade.
As edificações antigas, muitas delas casas de andar, evidenciam outro aspecto do problema: a dissociação entre forma urbana e função econômica. Projetadas para um centro ativo e valorizado, hoje abrigam atividades que mal sustentam a manutenção mínima do espaço. Não há política consistente de preservação, tampouco de reconversão. O patrimônio edificado permanece, mas esvaziado de sentido econômico e simbólico.
A Rua Marechal Deodoro exemplifica, assim, um padrão recorrente nas cidades brasileiras: a produção de vazios internos. Não vazios físicos, mas vazios de projeto. Espaços que não foram demolidos nem requalificados; apenas deixados à própria sorte. A cidade avança em outras direções, cria novos polos de consumo e sociabilidade, enquanto antigas centralidades são abandonadas sem que se construa uma alternativa funcionalmente equivalente.
Percorrer hoje a Marechal Deodoro é observar uma economia urbana em estado de suspensão. Ela não pertence mais ao presente dominante da cidade, mas também não foi integrada a uma política consciente de memória, reuso ou reinvenção. O que permanece é um espaço residual, sustentado por quem não pode sair e ignorado por quem poderia transformá-lo.
Mais do que uma rua degradada, a Marechal Deodoro é um indicador preciso das escolhas urbanas feitas ao longo do tempo: escolhas que privilegiaram a expansão em detrimento da requalificação, o consumo concentrado em detrimento da economia popular e o esquecimento em detrimento da gestão responsável do passado urbano. A Marechal Deodoro não está condenada. Mas também não será salva pelo acaso. O que está em jogo não é apenas uma rua degradada. É a pergunta que toda cidade precisa enfrentar: queremos crescer para fora indefinidamente ou revalorizar o que já temos? O futuro da Marechal Deodoro depende menos do saudosismo e mais da coragem de transformar diagnóstico em política pública.