A coruja veio
atravessando a noite de domingo em seu voo e, após um breve ruflar de asas,
soltou um prolongado pio, que foi se perder mais à frente, sobre o casario da
Queimadinha imerso na escuridão. Quase não havia testemunhas: a meia-lua
inteira bem no alto do céu da Feira, umas estrelas pálidas que a iluminação
urbana ofusca, um grilo que cantava insistente numa moita qualquer.
O domingo à noite – em
todo lugar – é sempre melancólico. As ruas estão vazias e a gente aguarda a
manhã da segunda-feira para o eterno recomeçar. Passam poucos carros. Os
pedestres costumam andar apressados, silenciosos. Até os bêbados que teimam em
perpetuar o fim de semana ostentam alguma fadiga no olhar.
Aqui na Feira de
Santana as manhãs de segunda-feira assumem aspecto bem diverso. Há ânimo na
cidade comercial: o comprar, o vender, o mercadejar, o garimpar oportunidades
empresta vida à multidão que se movimenta pelas vias que abrigam o comércio, os
escritórios, as clínicas, as repartições públicas.
Mais do que o dinamismo
econômico, o movimento reflete a herança cultural das feiras-livres que, por
aqui, viviam seu apogeu na manhã de segunda-feira. Noutros lugares, esse
mercadejar festivo ocorre às quartas-feiras, aos sábados, quase sempre no mesmo
dia da feira-livre. Na Feira de Santana, as manhãs de segunda ocupam espaço
especial na agenda.
Vá lá que o Centro de
Abastecimento – irradiador desse dinamismo – já não é o mesmo, muita gente
evita sua insegurança, sua sujeira, seu abandono. Mas, mesmo assim, a
segunda-feira – o sábado também, é bom lembrar – segue, como legado cultural,
especial para os feirenses.
Nas próximas semanas,
esse movimento tende a se intensificar, com a proximidade das festas de final
de ano. Há o Natal e o Ano-Novo e as expectativas em relação à economia
melhoraram, depois de uma longa década de recessão, estagnação e crescimento
pífio.
Ironicamente, essa
ebulição tende a tornar as noites de domingo mais monótonas, melancólicas, até
mesmo em função do contraste com as agitadas manhãs de segunda-feira...