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César Oliveira

A catarse como escape das aflições modernas

18 de Fevereiro de 2026 | 09h 47
A catarse como escape das aflições modernas

A catarse, compreendida como a libertação emocional por ação exaustiva, ascende atualmente à categoria de condição essencial para a sobrevivência psicológica e social. No atual momento  — marcado pelo excesso de estímulos, sobreposição de demandas e polarizações agudas —, a voracidade das hiperconexões tende a entorpecer as emoções, deslocando-a para reações  de baixo padrão qualitativo. O sentir isolado é insuficiente; é imperativo que os sentimentos encontrem uma via de escoamento e reorganização.

Longe de ser uma fuga, a catarse opera como o motor de expiação das pressões cotidianas e dos limites que nos aprisionam. Ela serve como um espaço de atravessamento entre a dor, o desejo e conforto espiritual. Ao permitir que a tensão contida seja drenada, ela alivia temores e descomprime a raiva, produzindo um êxtase renovador. Para Aristóteles a catarse é um processo de purificação da alma por meio da vivência de intensas emoções diante de uma manifestação artística.

A catarse é a resposta a energias acumuladas,  excesso de exposição,  medidas extemporâneas de sucesso e realização. Ela destrava o corpo, clarifica conflitos e produz alívio — ainda que efêmero. O ato catártico agrupa indivíduos que compartilham vulnerabilidades e vivem sob o  peso da existência. A pressão por desempenho no  trabalho, a autoexploração,  e a fragilidade das relações amorosas, sociais e familiares exige ciclos de descompressão para transformar a frustração em mudança consciente e menos reativa. Quando ela não ocorre, frequentemente se expressa em atos violentos ou dependências.

Na estética contemporânea, essa necessidade é evidente. Estádios foram convertidos em “arenas”; biografias, em narrativas de luta. A música permutou a raiva por cadência. Aliás, a própria estrutura da música foi alterada: os grandes sucessos exigem coreografias rituais, introduções rápidas da melodia e harmonias em tons menores, com letras propositalmente simplificadas para facilitar o estado de descarga e “cura” coletiva. Já novelas e filmes passaram a ser construídos com cenas curtas e fugazes.

Os caminhos para alívio são múltiplos: do esporte com rigor e da dança à excessos terapêuticos; das conversões religiosas ao sexo serial, que se tornou um falso exemplo de autonomia e liberdade. Em casos limítrofes, até o uso de substâncias ilícitas. Contudo, a catarse não é uma panaceia. Ela exige repetição, pois não soluciona as raízes do sofrimento, ainda que amplie o fôlego necessário para suportá-las.

Em última análise, a catarse converteu-se em necessidade biológica e mental. Sua onipresença atesta a fragilidade de uma sociedade aprisionada em modelos existenciais sobre os quais não tem domínio. Ela é, simultaneamente, um mecanismo de defesa e o diagnóstico de que perdemos a capacidade de contemplação, permitindo que o externo dite o ritmo de nossa própria vida interior — um processo pelo qual estamos pagando um preço caro.



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