Eu fico impressionado com o brasileiro. Enquanto o mundo
reverencia Pelé, o Brasil e sua imprensa acordam todos os dias anunciando:
'Messi supera recorde de Pelé', 'Fulano acertou mais passe que Pelé', 'Pelé não
jogaria hoje'. Muda-se o concorrente, mas mantém-se a mesma necessidade de
demolir nosso maior mito. É uma caça incessante por um número, uma estatÃstica
isolada, um erro de chute ou de passe — qualquer coisa que sirva para apequenar
o Rei. Essa tentativa de desconstrução já dura décadas. Em vez do elogio,
escolhe-se o silêncio; em vez de exaltar o ápice, busca-se um dado menor como
forma de realçar uma eventual inferioridade de um atleta de eficácia implacável
e inatingÃvel. Em vez do orgulho,
demonstramos uma incompreensÃvel vontade
de sermos superados.
Essa necessidade de destronar o nosso maior Ãdolo a qualquer preço revela o
ápice do que Nelson Rodrigues chamou de 'sÃndrome do vira-lata': uma profunda
miséria moral que nos faz agir como subalternos, incapazes de conviver com a
nossa própria herança de realeza. Há também um interesse comercial óbvio:
enquanto Pelé for o topo absoluto, a indústria financeira que rodeia a mÃdia e
o esporte não consegue vender um novo 'maior de todos'.
Pelé tinha uma propriedade única de domÃnio sobre o objeto de seu jogo; sobre seu próprio corpo; e, de forma gigantesca, de sua própria mente. Ele fez do futebol a sua
própria estética.
Talvez, no dia em que outro jogador vencer mais que três
Copas do Mundo, marcar 1283 gols, parar uma guerra, redefinir o futebol global a
outro patamar como ele fez, ser mais conhecido
que o Papa e Jesus Cristo, criar o inimaginável
de arte e beleza- e aquele drible de corpo no goleiro uruguaio, na Copa de 70, para não fazer o gol no mais monumental lance
da história do futebol-, o brasileiro finalmente se permita usufruir do orgulho
e da glória de saber que o maior de todos os tempos nasceu aqui. E Pelé possa
reinar em paz!