Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, sexta, 26 de junho de 2026

Wellington Freire

A guerra dentro da guerra

Wellington Freire - 26 de Junho de 2026 | 11h 23

O maior inimigo nem sempre veste o uniforme do adversário.

A guerra dentro da guerra
Créditos: Serviço de Segurança da Ucrânia

A história militar costuma celebrar batalhas. Monumentos lembram generais, mapas registram avanços de tropas, livros narram cercos, desembarques e grandes ofensivas. Mas existe outra guerra, quase sempre silenciosa, travada muito antes do primeiro tiro. É a guerra da informação. A guerra da infiltração. A guerra da inteligência e da contrainteligência.

Os jornais americanos e ingleses mencionam uma notícia que parece ter passado despercebida: a condenação à prisão perpétua do coronel ucraniano Dmytro Kozyura por espionagem em favor do serviço secreto russo. Esse acontecimento recorda uma verdade antiga: um exército pode sobreviver a derrotas em campo, mas dificilmente resiste quando o inimigo passa a conhecer seus planos, seus pontos fracos e o funcionamento de sua própria estrutura. O maior perigo nem sempre vem da trincheira à frente. Às vezes, ocupa uma sala ao lado.

Essa não é uma novidade do século XXI. É uma constante da história militar. Há mais de dois mil anos, Sun Tzu afirmava que "conhecer o inimigo e conhecer a si mesmo" era a essência da vitória. Não por acaso, dedicou um capítulo inteiro de A Arte da Guerra aos espiões. Para ele, nenhum comandante prudente deveria economizar recursos na obtenção de informações. O investimento mais valioso de uma campanha não era necessariamente um novo exército, mas uma boa rede de inteligência.

Os romanos compreenderam isso com igual clareza. Muito antes da criação dos modernos serviços secretos, o Império mantinha uma complexa estrutura de mensageiros, exploradores e informantes espalhados pelas províncias. As legiões marchavam acompanhadas por reconhecimento permanente do terreno e das intenções do adversário. O sucesso militar romano não decorria apenas da disciplina de suas formações, mas também da superioridade de suas informações.

Na era contemporânea, o princípio permaneceu inalterado, apenas ganhou novas ferramentas. Durante a Segunda Guerra Mundial, talvez o maior triunfo aliado não tenha sido o desembarque na Normandia, mas a gigantesca operação de contraespionagem que o antecedeu. A Operation Fortitude convenceu o alto comando alemão de que a invasão ocorreria em Pas-de-Calais. Tanques infláveis, transmissões falsas de rádio, agentes duplos e documentos cuidadosamente plantados produziram um efeito estratégico extraordinário: Hitler manteve divisões inteiras afastadas da verdadeira área do desembarque justamente quando mais precisava delas. A batalha decisiva havia sido vencida antes de os soldados colocarem os pés na praia.

O caso ucraniano revela que essa lógica permanece intacta. O oficial condenado não comandava blindados nem pilotava aviões. Seu poder estava no acesso privilegiado à informação. Conhecia estruturas de comando, procedimentos internos, movimentações militares e avaliações estratégicas. Em guerras altamente tecnológicas, esse tipo de conhecimento vale mais do que muitos sistemas de armas.

Há, porém, um aspecto ainda mais interessante nessa história. Segundo o próprio Serviço de Segurança da Ucrânia, antes da prisão o agente foi monitorado durante meses e utilizado para alimentar Moscou com informações cuidadosamente manipuladas. O espião transformou-se, sem saber, em instrumento da contraespionagem. A informação deixou de ser apenas roubada; passou a ser fabricada como arma.

Essa talvez seja a principal característica dos conflitos contemporâneos. A guerra não acontece apenas nas linhas de frente. Ela ocorre dentro dos servidores de informática, dos serviços de inteligência, das redes de comunicação e, sobretudo, das instituições. O objetivo não é apenas destruir o inimigo, mas penetrar sua capacidade de decidir corretamente.

Costuma-se afirmar que a guerra moderna é dominada por drones, satélites e inteligência artificial. É apenas meia verdade. Todas essas tecnologias dependem de algo muito mais antigo: informação confiável. Sem ela, o drone ataca o alvo errado, o míssil acerta um vazio e o satélite apenas fotografa a própria ignorância.

As armas mudaram. O fator decisivo, não. Desde Sun Tzu até os atuais conflitos na Ucrânia, permanece válida a mesma lição: antes de conquistar o território do adversário, é preciso conquistar seus segredos. Porque, em toda guerra, existe uma batalha invisível. E, muitas vezes, é ela que decide todas as outras.

Nota: o presente artigo mobilizou temas fundamentais para a compreensão de operações militares em qualquer tempo. A bibliografia disponível é extensa. Recomendo duas obras introdutórias ao tema da espionagem militar: o clássico Arte da Guerra, de Sun Tzu; e O Jogo das Raposas, de Ladislas Farago.



Wellington Freire LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

charge

As mais lidas hoje