A política externa contemporânea voltou a flertar com uma velha hipótese: a de que a imprevisibilidade pode ser um ativo estratégico. Ao elevar o tom contra o Irã e simultaneamente acenar com negociação, Donald Trump parece cultivar deliberadamente a imagem de líder capaz de qualquer decisão. A ambiguidade não é ruído é método.
Essa lógica remete diretamente à chamada “teoria do louco”, associada a Richard Nixon durante a Guerra do Vietnã. Nixon e seu assessor Henry Kissinger acreditavam que, se adversários como Hanói e Moscou estivessem convencidos de que o presidente americano era imprevisível e potencialmente irracional, tenderiam a fazer concessões para evitar uma escalada catastrófica. A encenação da incerteza funcionaria como forma extrema de coerção psicológica.
O contexto vietnamita era decisivo. Em 1969, os Estados Unidos estavam atolados em um conflito prolongado, politicamente desgastante e militarmente custoso. Nixon precisava simultaneamente reduzir o envolvimento direto, a chamada “vietnamização, e pressionar o Vietnã do Norte a aceitar termos favoráveis. A demonstração de força aérea maciça, os bombardeios no Camboja e até exercícios nucleares discretamente comunicados à União Soviética integravam essa dramaturgia estratégica: convencer o adversário de que o presidente poderia ultrapassar limites.
A teoria tinha uma lógica clara: se a dissuasão tradicional repousa na racionalidade previsível, a dissuasão do “louco” aposta no medo do imprevisível. O problema é que ela depende de um equilíbrio delicado. É preciso parecer capaz de tudo, mas não perder credibilidade junto a aliados; é necessário transmitir risco ao adversário, mas sem provocar reação automática.
Trump opera em terreno semelhante, mas sob condições estruturais distintas. Ao combinar ultimatos públicos, reforços militares e retórica maximalista, ele cria um ambiente de incerteza calculada. A mensagem implícita é simples: negociar agora pode ser menos custoso do que testar os limites de Washington. A diferença crucial é que o tabuleiro contemporâneo é mais fragmentado e nuclearmente mais sensível do que no auge da Guerra Fria.
No caso do Oriente Médio, a variável adicional é Israel, ator regional com capacidade militar robusta e interesses diretos na contenção iraniana. A imprevisibilidade americana não é percebida apenas por Teerã, mas também por aliados que precisam calibrar suas próprias ações. Se a ambiguidade é excessiva, ela pode gerar erros de cálculo em múltiplas direções.
Há ainda um contraste político relevante entre Nixon e Trump. Nixon utilizou a teoria do louco como instrumento tático dentro de uma estratégia geopolítica coerente: abertura à China, détente com Moscou, reconfiguração do equilíbrio global. A imprevisibilidade era meio, não fim. No caso atual, críticos argumentam que a ambiguidade tende a se tornar parte da identidade presidencial, o que pode dificultar distinguir sinal estratégico de impulso retórico.
Em ambiente nuclear, os limites da teoria tornam-se mais estreitos. A dissuasão clássica funciona porque os atores acreditam na racionalidade mínima do adversário. Se a imagem projetada ultrapassa certo limiar, o risco deixa de ser apenas instrumento de pressão e passa a ser fator de instabilidade sistêmica. A lógica do ultimato público, prazos, ameaças explícitas, declarações performáticas, reduz margens de recuo e aumenta o custo político de moderação.
Nixon conseguiu, ao final, negociar a saída americana do Vietnã, mas não obteve vitória estratégica duradoura. A guerra prolongou-se no Sudeste Asiático e o desgaste interno corroeu sua presidência. A teoria do louco produziu efeitos limitados e ambíguos. A lição histórica é que a imprevisibilidade pode acelerar acordos, mas raramente constrói estabilidade de longo prazo.
Trump parece apostar que a reputação de líder disposto a agir sem amarras institucionais ampliará sua capacidade de barganha. Pode funcionar em crises específicas, especialmente quando o adversário enfrenta vulnerabilidades internas. Contudo, o custo cumulativo pode ser alto: aliados inseguros, mercados voláteis, adversários propensos a antecipar confrontos antes que a janela de ambiguidade se feche.
A estratégia do imprevisível é, em última instância, um jogo de nervos. Ela transforma psicologia em instrumento de poder. Mas, como ensinou o século XX, quando todos acreditam que o outro pode apertar o botão, a margem para erro diminui drasticamente. A teoria do louco só é eficaz enquanto todos supõem que há, por trás da máscara, um cálculo frio. Se essa suposição se rompe, resta apenas o risco, e o risco, na era nuclear, não é metáfora.
Nota: ao leitor interessado em aprofundar o tema meramente esboçado remeto ao historiador militar britânico: Hastings, Max. Vietnan, uma tragédia épica. São Paulo: Intrínseca, 2021. É fundamental também a leitura das Memórias de Henry Kissinger. Obra publicada no Brasil pela Top Books editora. Uma outra referência é o brilhante e premiado documentário de Ken Burns sobre guerra do Vietnan.