Impérios raramente caem de um dia para o outro. Antes do colapso visível, há um momento mais sutil e decisivo: aquele em que a guerra deixa de ser instrumento de expansão e passa a funcionar como exame estrutural. Guerras curtas podem iludir; guerras longas revelam. Elas expõem não apenas a coragem dos soldados ou a perícia dos generais, mas a densidade industrial, a coesão política, a vitalidade demográfica e a capacidade administrativa de um Estado.
Em 1904, quando o Império Russo entrou em conflito com o Japão, poucos na Europa imaginavam que uma potência asiática derrotaria uma monarquia continental. A Guerra Russo-Japonesa foi mais do que uma derrota militar: foi uma radiografia. Ela expôs deficiências logísticas, fragilidade industrial, corrupção administrativa e incapacidade de adaptação tecnológica. O império czarista sobreviveria, mas já sob o signo da vulnerabilidade. Doze anos depois, desabaria sob o peso combinado da guerra e da crise interna.
Em 1979, a União Soviética interveio no Afeganistão convencida de que conduziria uma operação limitada. A campanha arrastou-se por uma década. O conflito não foi, isoladamente, a causa do colapso soviético; mas o desgaste humano, econômico e moral acelerou a decomposição de um sistema já tensionado. A guerra revelou os limites de uma superpotência cuja capacidade militar não se convertia em decisão política.
Esses precedentes ajudam a iluminar o presente. A campanha iniciada em 2014, com a anexação da Crimeia, e ampliada em 2022 com a invasão em larga escala da Ucrânia, deve ser compreendida como um único ciclo estratégico. Não são apenas quatro anos de guerra aberta, mas doze anos de confronto continuado. A pergunta central é inevitável: esse conflito está revelando limites estruturais da Rússia contemporânea?
Se examinarmos os objetivos estratégicos plausíveis de Moscou, neutralizar a Ucrânia, impedir sua integração plena ao Ocidente, impor um governo favorável, redesenhar a arquitetura de segurança europeia, o balanço é, no mínimo, inconclusivo. Kiev não caiu. O regime não foi substituído. O controle sobre os territórios anexados permanece militarmente contestado. A campanha transformou-se em guerra de posições e de desgaste.
É precisamente nesse ponto que a guerra se converte em teste estrutural. Grandes potências demonstram sua condição não apenas pela capacidade de iniciar conflitos, mas pela aptidão para encerrá-los com rapidez e vantagem política clara. Quando a guerra se prolonga indefinidamente, ela passa a consumir os próprios fundamentos do poder.
A Rússia preserva ativos formidáveis: vastidão territorial, recursos energéticos, arsenal nuclear, tradição militar. Contudo, poder estrutural não se mede apenas por estoque de ogivas ou extensão geográfica. Mede-se por densidade econômica, inovação tecnológica, dinamismo demográfico e rede de alianças sustentáveis.
Após doze anos de campanha, observa-se um custo acumulativo: sanções que reorientam a economia; dependência crescente de mercados e fornecedores específicos; perdas humanas que incidem sobre uma população já pressionada por tendências demográficas adversas; mobilização prolongada que tensiona o tecido social. A guerra, concebida para afirmar influência, converte-se em mecanismo de absorção de recursos.
Historicamente, impérios sucumbem menos por derrotas espetaculares e mais por exaustão prolongada. A erosão é silenciosa: orçamentos desviados, infraestrutura negligenciada, elites fechadas em lógica securitária, juventude reduzida ou expatriada. A guerra torna-se o eixo organizador da vida nacional e, ao fazê-lo, limita horizontes.
Não se trata de afirmar colapso iminente. A Rússia demonstrou capacidade de adaptação tática e resiliência notável. Mas resiliência não equivale automaticamente a projeção sistêmica. Superpotência é aquela que converte força militar em ordem política favorável. Se, após mais de uma década, os objetivos estratégicos máximos permanecem distantes, a guerra começa a operar como reveladora de limites.
A história ensina que conflitos prolongados impõem um veredicto lento, porém inexorável. Eles mostram até onde vai a capacidade real de um Estado sustentar mobilização contínua sem comprometer sua base produtiva e sua coesão interna. Em 1905, a Rússia descobriu que seu aparato imperial era menos robusto do que supunha. Em 1989, a União Soviética compreendeu que poder militar não compensava fragilidade econômica estrutural.
Hoje, o conflito ucraniano coloca uma questão semelhante. A guerra não projetou domínio inequívoco; prolongou a incerteza. Não consolidou hegemonia regional; aprofundou dependências. Se o poder é a capacidade de transformar força em decisão, então guerras intermináveis sugerem outra realidade: o poder pode ser gasto mais rapidamente do que o acumulado.
Talvez o traço mais revelador não seja a ausência de vitória decisiva, mas a transformação do conflito em condição permanente. Quando a guerra deixa de ser instrumento e passa a ser ambiente, ela redefine o Estado que a conduz. E, nesse processo, torna visíveis os contornos e os limites do império.