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  • Feira de Santana, domingo, 07 de junho de 2026

Saúde

Uso indiscriminado de corticoides pode causar glaucoma e cegueira

07 de Junho de 2026 | 14h 25
Uso indiscriminado de corticoides pode causar glaucoma e cegueira
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil (Arquivo)

Usar corticoides de forma abusiva e inadequada pode provocar cegueira. Isto porque esse tipo de medicamento, se utilizado de forma indiscriminada, sem recomendação e acompanhamento médicos, favorece o desenvolvimento e o aumento de casos de glaucoma. O alerta é do médico Roberto Murad Vessani, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG).

Doença que afeta o nervo óptico, o glaucoma é desencadeado pela elevação da pressão intraocular e não tem cura. Quando não tratada, pode deixar o paciente completamente cego.

No Brasil, estima-se que pelo menos 1,7 milhão de pessoas convivam com a doença. De acordo com Vessani, cerca de 2,5% a 3,5% dos indivíduos acima dos 40 anos já têm glaucoma. Ele enfatiza que tanto colírios usados para aliviar irritação ocular como outros medicamentos que contenham corticóides, a exemplo de pomadas ou comprimidos podem provocar glaucoma se usados sem acompanhamento médico.

Os corticoides são administrados para reduzir inflamações do organismo, como nos casos de irritações nos olhos, alergias, crises respiratórias, sinusites e dores inflamatórias. O alívio costuma ser rápido. E é isto que faz com que muitas pessoas utilizem essas medicações por conta própria, toda vez que os sintomas aparecem.

O problema é que o uso prolongado pode alterar o funcionamento natural dos olhos, dificultando a drenagem do líquido que circula dentro do globo ocular, o que acaba acumulando e aumentando a pressão intraocular. E pressão elevada por muito tempo pode gerar lesões irreversíveis no nervo óptico e levar ao glaucoma.

O uso indiscriminado desse tipo de remédio também pode provocar outros problemas no organismo, como é o caso do aumento da glicose no sangue e do descontrole do diabetes, além de ganho de peso, retenção de líquido, hipertensão, enfraquecimento dos ossos e maior risco de infecções e alterações hormonais.

Alerta – A SBG, em conjunto com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), encaminharam uma nota pública à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde (MS), ao Congresso Nacional e a entidades médicas de diversas especialidades, chamando a atenção para os perigos relacionados ao uso indiscriminado de fórmulas com corticóides, pela população. “É muito grave. Na verdade, é um problema de saúde pública”, advertiu Vessani.

Além da discussão junto aos órgãos reguladores, uma reunião foi realizada, a fim de sensibilizar a classe política, em busca de uma solução. A ideia é buscar o mesmo caminho de rigor que existe, atualmente, para o antibiótico, mencionou o médico.

Ele destacou, ainda, que diversas especialidades médicas, como ortopedia, reumatologia, pediatria e geriatria, prescrevem corticoides para tratar problemas de um paciente que, eventualmente, já pode ter glaucoma.

Sensibilidade – O gestor lembrou, também, que cerca de 90% dos pacientes que já têm glaucoma são sensíveis ao uso de corticóide. Isto, informou ele, faz com que a pressão do olho suba de maneira significativa, “comprometendo mais ainda a situação do glaucoma desse paciente”.

No caso de crianças alérgicas, com histórico de hipersensibilidade ocular, os pais, por falta de conhecimento, podem usar colírios com corticoides de forma crônica. Essa situação pode desencadear o aumento da pressão do olho ou o desenvolvimento de catarata, de forma precoce. 

Na área oftalmológica, Roberto Vessani esclareceu que o uso de colírio de antibiótico acaba sendo menos perigoso do que o de colírio de corticoide de forma indiscriminada. “Para nós, é muito importante que o uso de corticóides, nas diversas formas, tenha o mesmo rigor que ocorre em relação aos antibióticos”, disse Roberto Vessani.

Para os antibióticos, são exigidas duas vias da receita médica, uma que fica retida pela farmácia, para informar os órgãos reguladores que aquela medicação foi prescrito para aquele paciente. “Tem um controle dessa prescrição médica. Esse seria um caminho para que a gente tenha um pouco mais de segurança na hora que isso seja prescrito pelo médico e, também, bloqueando as pessoas que compram essas medicações, fazendo um autotratamento sem passar por um médico”, explicou.

Campanhas – Por meio de campanhas informativas, a SBG, o CBO e a SBOP busca conscientizar médicos de outras especialidades sobre o risco para os olhos do uso crônico de corticoides. “Isso ajuda a diminuir riscos e a evitar situações que possam causar problemas maiores para a visão das pessoas que estão sendo tratadas de condições crônicas de saúde das diferentes especialidades”, afirmou o gestor.

Ao fim de algumas semanas do uso crônico de corticoides, podem acontecer elevações na pressão dos olhos. “E essas pessoas, se continuarem usando essas medicações, podem acabar desenvolvendo o glaucoma e perder a visão”, disse Vessani.

Em muitos países desenvolvidos do ocidente, o uso de corticoides tem um controle maior, conforme o médico. E, também, uma melhor troca de informações entre as várias especialidades médicas, ao contrário do que ocorre no Brasil. “A grande preocupação é com a informação e a conscientização da população e dos profissionais da área da saúde que prescrevem essas medicações”, reforçou.

Grupos de risco – Segundo Roberto Vessani, a partir dos 40 anos, a cada década, a prevalência de glaucoma quase dobra. “As pessoas têm outras condições de saúde que, frequentemente, podem precisar do uso crônico de corticoides. Há muitos pacientes de 70, 80 anos que, muitas vezes, têm glaucoma e, devido a um problema de saúde que exige o uso crônico de corticoides, estes medicamentos podem trazer problemas para os olhos dessas pessoas. São situações que acabam levando ao aumento do risco e do perigo”, apontou.

As três entidades do setor oftalmológico recomendam o monitoramento da pressão intraocular em pacientes que utilizam essas medicações com corticoides por períodos prolongados, especialmente crianças e grupos de risco.

 

 



 

*Com informações da Agência Brasil.



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