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  • Feira de Santana, domingo, 07 de junho de 2026

Wellington Freire

Dom Quixote e o escritor que deu errado

07 de Junho de 2026 | 09h 19
Dom Quixote e o escritor que deu errado
Foto: Reprodução

Há alguns dias, relendo Dom Quixote, detive-me numa passagem aparentemente simples. Depois de ser espancado em uma de suas primeiras aventuras, o cavaleiro da Mancha é encontrado por um lavrador vizinho. O homem tenta ajudá-lo, mas Dom Quixote já não fala como Alonso Quijano. Sua fala é composta por fragmentos de romances de cavalaria. Ele responde ao camponês utilizando as mesmas palavras de personagens que conhecera nos livros.

O vizinho tenta trazê-lo de volta à realidade:

Eu sou Pedro Alonso, seu vizinho. E Vossa Mercê não é Rodrigo de Narváez nem Valdovinos. É o senhor Quijana.

A resposta de Dom Quixote é uma das mais extraordinárias de toda a literatura:

— Quem eu sou, sei eu. E sei que posso ser não só os que já disse, senão todos os doze pares de França e até todos os nove da fama.

A frase parece loucura. Mas talvez contenha algo mais.

Ao lê-la, ocorreu-me uma pergunta incômoda: e se Dom Quixote estivesse realizando, de forma desastrosa, a mesma operação mental que caracteriza o escritor?

Afinal, o que faz um romancista? Ele lê histórias, absorve personagens, incorpora vozes alheias e, depois, transforma tudo isso em narrativa. Nenhum escritor cria do nada. Toda literatura nasce de outras literaturas. Todo autor é, em alguma medida, um herdeiro e um reorganizador de vozes. Dom Quixote faz exatamente isso.

Ele absorveu tantos romances de cavalaria que passou a enxergar o mundo através deles. Sua linguagem tornou-se uma colagem de discursos herdados. Sua identidade passou a ser composta por personagens literários. Ele já não fala apenas sobre cavaleiros; fala como eles.

O problema é que existe uma diferença fundamental entre o escritor e o cavaleiro da Mancha. O escritor transforma imaginação em texto. Dom Quixote transforma imaginação em realidade. O romancista cria gigantes no papel. Dom Quixote pega moinhos de vento e os converte em gigantes reais. O poeta sabe que está operando no campo do símbolo. O cavaleiro manchego tenta transportar o símbolo para o mundo concreto.

Talvez seja por isso que a fronteira entre genialidade criativa e delírio sempre tenha sido tão fascinante. Ambas as experiências partem da mesma faculdade humana: a imaginação. O que muda é a existência, ou ausência, de uma mediação estética.

Fernando Pessoa multiplicou-se em heterônimos. Criou personalidades inteiras, com biografias, estilos e visões de mundo próprias. Ninguém o chamou de louco por isso. Arthur Rimbaud escreveu que “eu é um outro”. Também não foi internado por tal afirmação. Ambos converteram a fragmentação do eu em literatura.

Dom Quixote faz o movimento contrário. Em vez de escrever a ficção, decide habitá-la. É por isso que a sua famosa loucura parece, em certos momentos, tão próxima da criação artística. Quando ele afirma “posso ser todos eles”, está reivindicando algo que pertence ao território da arte: a capacidade de assumir múltiplas identidades. O escritor pode ser simultaneamente rei e mendigo, herói e traidor, criança e ancião. Sua consciência torna-se uma morada para muitas vidas. Dom Quixote deseja exatamente isso. Mas não dentro de um livro, dentro do mundo.

Talvez Cervantes tenha percebido algo que continua atual quatro séculos depois. Nossa identidade não é uma estrutura rígida. Somos feitos de narrativas, memórias, leituras, exemplos e vozes que acumulamos ao longo da existência. Em alguma medida, todos carregamos personagens dentro de nós.

A diferença é que a maioria sabe que eles são personagens. Dom Quixote esquece essa distinção. Por isso sua figura continua tão poderosa. Ele não é apenas um louco ridicularizado por Cervantes. É também uma reflexão profunda sobre o poder das histórias. Afinal, os livros não apenas descrevem o mundo. Eles moldam a forma como o percebemos.

Talvez a tragédia de Alonso Quijano tenha sido esta: possuía a imaginação de um escritor, mas escolheu utilizá-la como protagonista. Em vez de escrever um romance de cavalaria, decidiu viver dentro dele.

E assim se tornou uma personagem muito maior do que qualquer cavaleiro que havia lido.




*Nota: a citação que fiz foi extraída de: Cervantes, Miguel de. ‘O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha’. Tradução de Conde Visconde de Castilho. São Paulo: Martin Claret, 2016. p. 91.



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