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Wellington Freire

Quando o rabo balança o cachorro

06 de Junho de 2026 | 09h 57
Quando o rabo balança o cachorro
Créditos: AFP

Há uma ilusão recorrente na análise das relações internacionais: a de que os países pequenos são meros peões movidos pelas mãos das grandes potências. Nos mapas, parecem insignificantes. Nos gráficos econômicos, quase desaparecem. Nos balanços militares, raramente impressionam. Contudo, a história demonstra que, em determinadas circunstâncias, Estados relativamente fracos podem influenciar, constranger e até manipular atores muito mais poderosos do que eles próprios.

É um fenômeno antigo. Tão antigo quanto a própria política. A recente aproximação entre China e Coreia do Norte oferece um exemplo contemporâneo dessa realidade. Durante décadas, analistas ocidentais repetiram que Pyongyang dependia de Pequim para sobreviver. A afirmação continha uma verdade econômica, mas escondia uma simplificação política. Dependência não é sinônimo de submissão.

Kim Il-sung compreendeu isso ainda durante a Guerra Fria. Quando a ruptura sino-soviética dividiu o bloco comunista, o líder norte-coreano transformou sua posição geográfica em instrumento diplomático. Situada entre duas potências rivais, a Coreia do Norte passou a extrair recursos, armas e apoio de ambos os lados sem se converter em satélite integral de nenhum deles. Moscou e Pequim disputavam influência; Pyongyang recolhia os dividendos.

Seu neto, Kim Jong-un, parece ter herdado essa tradição. Hoje, a Coreia do Norte explora simultaneamente as necessidades estratégicas da China, da Rússia e dos Estados Unidos. Pequim deseja evitar o colapso do regime e uma eventual reunificação da península sob influência americana. Moscou necessita de munições, mísseis e soldados para sustentar sua campanha na Ucrânia. Washington busca impedir a proliferação nuclear e conter crises regionais. Cada uma dessas preocupações amplia o espaço de manobra norte-coreano.

O fenômeno possui inúmeros precedentes históricos. Durante a Guerra Fria, a Iugoslávia de Josip Broz Tito transformou-se em mestre dessa arte. Rompido com Joseph Stalin em 1948, Tito recusou-se a ingressar na órbita ocidental, mas também não retornou à submissão soviética. Ao ocupar uma posição intermediária, recebeu ajuda econômica do Ocidente enquanto preservava sua autonomia política. Sua fraqueza relativa converteu-se em vantagem estratégica.


Algo semelhante ocorreu com o Egito de Gamal Abdel Nasser. Durante os anos 1950 e 1960, Nasser alternou aproximações com Washington e Moscou, utilizando a rivalidade entre as superpotências para financiar projetos nacionais e fortalecer as forças armadas egípcias. A crise de Suez, em 1956, mostrou que um Estado regional podia transformar as tensões globais em instrumento de sobrevivência.

Mesmo Israel, frequentemente visto apenas como aliado dos Estados Unidos, soube explorar habilmente as disputas da Guerra Fria. Em diferentes momentos, sua importância estratégica elevou seu valor geopolítico muito além do que sua dimensão territorial ou demográfica sugeriria.

Mais recentemente, o Catar demonstrou como riqueza, diplomacia e posicionamento geográfico podem ampliar desproporcionalmente a influência de um pequeno Estado. Hospeda bases americanas, mantém canais com adversários dos Estados Unidos e atua como mediador em conflitos que envolvem atores muito maiores do que ele.

A história militar oferece uma explicação para esse padrão. Em guerras e alianças, a importância de um ator raramente depende apenas de seu tamanho. Depende de sua posição. Um estreito marítimo, uma passagem montanhosa, uma fronteira estratégica ou uma localização crítica podem conferir a um Estado pequeno um valor que nenhuma estatística consegue captar plenamente.

Foi assim com Bizâncio controlando os estreitos entre Europa e Ásia. Foi assim com a Bélgica nas guerras europeias. Foi assim com a Finlândia diante da União Soviética. E continua sendo assim com a Coreia do Norte.

Talvez a grande lição seja que o poder não reside apenas na força. Reside também na capacidade de tornar-se indispensável. Quando grandes potências passam a necessitar de um pequeno Estado para atingir seus objetivos, a relação de dependência deixa de ser unilateral.

É nesse momento que ocorre uma das mais curiosas inversões da política internacional: o cachorro continua maior, mais forte e mais rico. Mas é o rabo que começa a determinar a direção do movimento.




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