Há um equívoco recorrente na maneira como imaginamos o início
das guerras. A memória coletiva foi moldada por imagens de tanques cruzando
fronteiras, bombardeios espetaculares ou declarações formais de hostilidade.
Como se a guerra começasse apenas quando o primeiro disparo rompesse o
silêncio. A História Militar, contudo, ensina outra coisa: as grandes guerras
começam muito antes do primeiro tiro.
O recente relatório do Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos (IISS), segundo o qual a Rússia teria conduzido uma campanha
sistemática de incursões com drones sobre instalações estratégicas da Europa,
deve ser lido sob essa perspectiva. O aspecto mais interessante da notícia não
está nos drones em si, mas na natureza de sua missão. Não se tratava, ao que
tudo indica, de destruir alvos. Tratava-se de conhecê-los.
Há uma diferença decisiva entre atacar um inimigo e
estudá-lo. O ataque busca produzir dano; o reconhecimento busca produzir
conhecimento. E, desde a Antiguidade, conhecimento é uma das mais
importantes formas de poder militar.
Nos exércitos de Alexandre, de Aníbal ou de César, a
cavalaria, frequentemente, precedia o grosso das tropas. Sua função não era
vencer batalhas, mas descobrir o terreno, medir distâncias, localizar
obstáculos, avaliar a disposição do adversário e identificar seus pontos
vulneráveis. O combate começava pela observação. Antes da força, vinha a
inteligência.
Os drones
desempenham hoje uma função análoga, mas com uma vantagem extraordinária: podem
penetrar profundamente no território adversário sem expor soldados, sem
provocar grandes repercussões diplomáticas e, muitas vezes, sem sequer oferecer
um pretexto claro para uma resposta militar. São olhos voadores, persistentes e
baratos.
Se o relatório estiver correto, a Rússia não estava apenas
enviando pequenos aparelhos sobre bases aéreas, portos militares ou instalações
nucleares. Estava realizando algo muito mais sofisticado: um mapeamento da reação
ocidental. Quanto tempo leva para um radar detectar uma incursão? Quem toma a
decisão de responder? A informação circula com rapidez entre as diferentes
estruturas nacionais? Há coordenação entre governos e comandos militares? Em
que circunstâncias um drone é simplesmente observado e em quais ele passa a ser
considerado uma ameaça?
Cada voo torna-se um experimento. Cada incursão produz dados.
Cada resposta, ou ausência dela, converte-se em informação estratégica. Esse
talvez seja o aspecto mais inquietante da guerra contemporânea: ela já não
depende exclusivamente da destruição. Muitas vezes, basta medir. A informação
obtida hoje poderá definir a eficácia das operações de amanhã.
A guerra, nesse sentido, tornou-se cumulativa. Ela se
constrói lentamente, por camadas sucessivas de conhecimento. Quando os mísseis
finalmente são disparados, grande parte da batalha já foi travada no plano
invisível da coleta de informações.
Essa transformação revela também uma mudança mais profunda na
própria natureza do conflito. Durante séculos, reconhecimento e combate eram
atividades distintas, separadas no tempo e no espaço. Hoje, essa fronteira
praticamente desapareceu. Um simples drone que sobrevoa uma instalação militar
já está produzindo efeitos estratégicos, ainda que não transporte qualquer
explosivo.
Talvez estejamos presos a uma linguagem herdada do século XX,
incapaz de descrever adequadamente as guerras do século XXI. Continuamos
perguntando quando um conflito começa, como se houvesse um instante inaugural
claramente identificável. Mas as novas formas de enfrentamento dissolvem essa
certeza. Entre a paz e a guerra instala-se uma vasta zona cinzenta, onde
espionagem, sabotagem, pressão econômica, ataques cibernéticos, campanhas de
desinformação e operações de reconhecimento convivem sem que o mundo saiba
exatamente como nomeá-las.
É possível, portanto, que estejamos formulando a pergunta
errada. Talvez não devamos perguntar quando a próxima guerra começará. Talvez
ela já tenha começado.
A História oferece um alerta constante: as batalhas decisivas
raramente surpreendem aqueles que as prepararam durante anos. O verdadeiro
espanto costuma atingir apenas quem confundiu ausência de tiros com ausência de
guerra. Enquanto uns aguardam o estrondo dos canhões para reconhecer o
início do conflito, outros já percorrem silenciosamente o campo de batalha,
observando, medindo e aprendendo. E, na guerra, quem aprende primeiro costuma
lutar em vantagem.
*Nota: aos que desejam aprofundar o tema: KEEGAN, John. “Inteligência
na Guerra”. São Paulo: Cia das Letras, 2006.