Enquanto multidões desafiam o regime iraniano nas ruas de
Teerã e de cidades periféricas do país, os Estados Unidos capturam o presidente
da Venezuela e declaram o direito de “governar” um Estado soberano até uma
transição considerada segura. À primeira vista, tratam-se de crises distintas,
separadas por geografia, cultura e história. Observadas em conjunto, porém,
elas expõem algo mais profundo: o retorno de uma ordem internacional marcada
pela instabilidade, pela força e pela suspensão seletiva das normas, uma
dinâmica que lembra a chamada “paz armada” que precedeu a eclosão da Primeira
Guerra Mundial.
As grandes rupturas da ordem internacional raramente começam
no centro do sistema. Antes de 1914, não foi Berlim, Londres ou Paris que
detonaram a crise geral, mas episódios periféricos, as crises do Marrocos, nos
confins do império colonial, e as guerras balcânicas, em regiões consideradas
instáveis e secundárias. Ainda assim, esses choques “laterais” foram
suficientes para expor a fragilidade das regras, das alianças e da capacidade
de contenção das grandes potências. Algo semelhante parece ocorrer hoje. À
primeira vista, os protestos que desafiam o regime iraniano e a captura do
presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos pertencem a
universos distintos. Observados em conjunto, porém, revelam um mesmo padrão:
Irã e Venezuela funcionam como elos fracos do sistema internacional, zonas onde
se testam os limites da tolerância global ao uso da força, à exceção jurídica e
à erosão das normas que estruturaram o pós-Guerra Fria.
No Irã, o que se desenrola já não pode ser compreendido como
mais um ciclo de protestos reprimidos pelo aparato estatal. A escala inédita
das manifestações, seu caráter nacional e transversal, atingindo grandes centros
e cidades periféricas, classes médias e regiões historicamente marginalizadas,
e, sobretudo, a ruptura simbólica com a figura do líder supremo indicam algo
mais profundo: uma crise de legitimidade. Essa crise interna se articula a um
contexto externo adverso. O Irã enfrenta isolamento regional, a perda ou
enfraquecimento de aliados estratégicos e pressões militares recentes que
abalaram o prestígio da Guarda Revolucionária, um dos pilares simbólicos do
regime. Estados pressionados simultaneamente por dentro e por fora tendem a
reagir de forma errática, o que amplia a instabilidade sistêmica.
Se o Irã expõe o colapso interno de um regime, a Venezuela
revela o enfraquecimento das regras externas. A captura de um chefe de Estado
em exercício por uma potência estrangeira constitui um evento sem precedentes
recentes. Não se trata apenas de uma operação contra Nicolás Maduro, mas de um
ataque direto ao princípio da soberania regulada por normas. A invocação
explícita da Doutrina Monroe, um artefato do século XIX, sinaliza um retorno a
uma lógica de esferas de influência e tutela direta, incompatível com a
retórica multilateral que marcou a ordem pós-1945. Ao declarar que os Estados
Unidos “governarão” a Venezuela até uma transição considerada segura,
Washington substitui o direito internacional por uma decisão soberana
unilateral. O perigo desse gesto não reside apenas no caso venezuelano, mas no
precedente que ele estabelece. Quando a exceção se torna aceitável, ela deixa
de ser exceção.
Irã e Venezuela também revelam outro fenômeno inquietante: o
esvaziamento prático dos sistemas de alianças. Rússia e China condenam as ações
americanas, mas evitam confrontos diretos. Moscou protesta, mas não protege;
Pequim critica, mas calcula. O padrão se repete: a queda do regime sírio aliado
da Rússia, a vulnerabilidade venezuelana, os ataques sofridos pelo Irã. As
alianças permanecem no discurso, mas falham na dissuasão. Antes de 1914, muitos
tratados tinham exatamente esse caráter: promessas cuja efetividade só seria
testada no momento crítico. Alianças que não dissuadem produzem insegurança, e
a insegurança, por sua vez, estimula apostas mais arriscadas.
Esse cenário é agravado por um traço comum às lideranças
envolvidas: a concentração extrema de poder decisório. Trump, Putin, Khamenei e
Maduro governam sistemas nos quais instituições funcionam como extensões da
vontade pessoal. A política externa assume contornos performáticos, marcada por
retórica maximalista, humilhação simbólica do adversário e decisões rápidas,
pouco filtradas por mecanismos de contenção. A analogia com a diplomacia de
corte do início do século XX é instrutiva. Quando a política internacional se
torna extensão do ego dos governantes, o risco de erros de cálculo cresce
exponencialmente. Talvez o aspecto mais perigoso do momento atual seja a
sensação de que tudo ainda pode ser administrado. Cada crise é absorvida,
relativizada, tratada como excepcional. Nenhuma, até agora, produziu uma guerra
geral. Foi exatamente essa confiança que marcou a Europa da chamada paz armada.
Sistemas internacionais raramente colapsam quando tudo falha de uma vez. Eles
colapsam quando todos acreditam que, apesar dos sinais, o risco ainda é
controlável.
Irã e Venezuela não explicam sozinhos o mundo atual, mas iluminam um padrão inquietante: a volta da força como linguagem legítima da política internacional e da exceção como método recorrente de ação. Como na Europa anterior a 1914, ninguém parece desejar conscientemente uma guerra de grandes proporções. Ainda assim, o acúmulo de crises, precedentes e ambiguidades sugere que o sistema voltou a conviver perigosamente com a instabilidade como norma. A história ensina que essa confiança, quase sempre, cobra um preço alto.