Em 1950, logo após a Segunda Guerra,
o mundo tinha 2,51 bilhões de pessoas e 47 anos de expectativa de vida. Em 2000,
éramos 6,14 bilhões e 69,9 anos. Em 2025, somos 8,2 bilhões e 76 anos na média
de vida. Não podemos mais julgar o mundo com a mesma régua e condições do
pós-guerra. Há uma clara pressão demográfica sobre governos especialmente
depois que a comunicação universal tornou consumo, desejos, hábitos sociais,
uma informação partilhada até pelo mais remoto dos indivíduos. Estima-se que a
taxa de pobreza absoluta tenha caído de 30% nos anos 2000 para 18% nos dias
atuais, mas isso significa que ainda há 1,5 bilhão de pessoas nas piores
condições de vida.
Evidente que recursos econômicos
e naturais para manter o mundo alimentado e gerar bem estar social estão cada
vez mais escassos e caros. Em um mundo
multipolar, com o surgimento de novos atores globais competitivos, outros arranjos
geopolíticos precisam ser feitos, mudando a situação do pós-guerra. Não custa
lembrar que em 1948 os EUA detinham 48% de toda produção industrial do mundo.
Hoje a Ásia detém 50,6%, a Europa 24,6%, os EUA têm 22% e a África apenas 2%.
Trump, presidente dos EUA, é um sujeito
egocêntrico, desprovido de empatia e escrúpulos pelo poder, mas está colocando
o império americano a nu, mostrando o bolor administrativo, apontado que a política
americana é, em primeiro lugar, a da própria sobrevivência. A mensagem para
aliados, em especial a Europa, é que continuará sendo parceiro, mas os termos
das relações terão de ser mudados. A era da proteção americana ampla, total e
irrestrita ao velho continente- e, consequentemente, os demais- acabou. A
Europa, mal administrada, com baixa produtividade, pouco armada, que não
investe em autoproteção para seus 500 milhões de habitantes, não tem mais
lugar. A conta da realidade chegou.
A ação ignóbil de Trump, na TV, ameaçando
a Ucrânia, publicamente, é uma vergonha ocidental nunca imaginada, mas é
simbólico dessa era. Trump imagina um mundo dividido entre EUA, Rússia, China,
e, os adversários, servem para legitimar suas ações. Com a Ucrânia repartida com
a Rússia ele está autorizado a expandir suas garras. Ele é gentil com Putin por identificar nas
ambições russas as mesmas dos EUA. Por isso já atacou o Canadá, México, Groelândia,
Panamá e os minerais da Ucrânia, ainda que o modus operandi, por enquanto,
seja diferente. É preciso lembrar que nenhuma nação do planeta chega, ainda,
aos pés da máquina de guerra americana. Em 2023, os gastos militares dos Estados
Unidos chegaram a US$ 916 bilhões. A China investiu US$ 296 bilhões e a Rússia:
US$ 109 bilhões.
Um ditado que Roosevelt aprendeu
em uma visita à África transformou-se em política de seu governo: “quando fores
visitar teu adversário fala em voz baixa, mas leva um porrete na mão”. Trump aboliu a fase da voz baixa.
Os EUA já foram capazes de lutar
contra tudo e contra todos em todos os lugares do mundo, todo tempo, mas agora
está dizendo que o preço para manter isso está muito caro e os padrões
administrativos, as relações bilaterais, precisam ser ajustadas. Aonde esse
choque de realidade levará a Europa, exposta geograficamente, desgastada
demograficamente com o envelhecimento populacional, não sabemos, mas a ordem
mundial não voltará ao modelo da era pré-Trump. Não sabemos como o mundo
reagirá, como se dará essa reordenação, nem como os inimigos dos EUA
aproveitarão a chance. Trump não surgiu
ao acaso, ele é apenas um sinal de que o mundo que vivemos nos últimos 75 anos,
acabou.