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César Oliveira

O mundo nosso que acabou e a nova era

04 de Março de 2025 | 10h 45
O mundo nosso que acabou e a nova era

Em 1950, logo após a Segunda Guerra, o mundo tinha 2,51 bilhões de pessoas e 47 anos de expectativa de vida. Em 2000, éramos 6,14 bilhões e 69,9 anos. Em 2025, somos 8,2 bilhões e 76 anos na média de vida. Não podemos mais julgar o mundo com a mesma régua e condições do pós-guerra. Há uma clara pressão demográfica sobre governos especialmente depois que a comunicação universal tornou consumo, desejos, hábitos sociais, uma informação partilhada até pelo mais remoto dos indivíduos. Estima-se que a taxa de pobreza absoluta tenha caído de 30% nos anos 2000 para 18% nos dias atuais, mas isso significa que ainda há 1,5 bilhão de pessoas nas piores condições de vida.

Evidente que recursos econômicos e naturais para manter o mundo alimentado e gerar bem estar social estão cada vez mais escassos e caros.  Em um mundo multipolar, com o surgimento de novos atores globais competitivos, outros arranjos geopolíticos precisam ser feitos, mudando a situação do pós-guerra. Não custa lembrar que em 1948 os EUA detinham 48% de toda produção industrial do mundo. Hoje a Ásia detém 50,6%, a Europa 24,6%, os EUA têm 22% e a África apenas 2%.

Trump, presidente dos EUA, é um sujeito egocêntrico, desprovido de empatia e escrúpulos pelo poder, mas está colocando o império americano a nu, mostrando o bolor administrativo, apontado que a política americana é, em primeiro lugar, a da própria sobrevivência. A mensagem para aliados, em especial a Europa, é que continuará sendo parceiro, mas os termos das relações terão de ser mudados. A era da proteção americana ampla, total e irrestrita ao velho continente- e, consequentemente, os demais- acabou. A Europa, mal administrada, com baixa produtividade, pouco armada, que não investe em autoproteção para seus 500 milhões de habitantes, não tem mais lugar. A conta da realidade chegou.

A ação ignóbil de Trump, na TV, ameaçando a Ucrânia, publicamente, é uma vergonha ocidental nunca imaginada, mas é simbólico dessa era. Trump imagina um mundo dividido entre EUA, Rússia, China, e, os adversários, servem para legitimar suas ações. Com a Ucrânia repartida com a Rússia ele está autorizado a expandir suas garras.  Ele é gentil com Putin por identificar nas ambições russas as mesmas dos EUA. Por isso já atacou o Canadá, México, Groelândia, Panamá e os minerais da Ucrânia, ainda que o modus operandi, por enquanto, seja diferente. É preciso lembrar que nenhuma nação do planeta chega, ainda, aos pés da máquina de guerra americana. Em 2023, os gastos militares dos Estados Unidos chegaram a US$ 916 bilhões. A China investiu US$ 296 bilhões e a Rússia: US$ 109 bilhões.

Um ditado que Roosevelt aprendeu em uma visita à África transformou-se em política de seu governo: “quando fores visitar teu adversário fala em voz baixa, mas leva um porrete na mão”.  Trump aboliu a fase da voz baixa.

Os EUA já foram capazes de lutar contra tudo e contra todos em todos os lugares do mundo, todo tempo, mas agora está dizendo que o preço para manter isso está muito caro e os padrões administrativos, as relações bilaterais, precisam ser ajustadas. Aonde esse choque de realidade levará a Europa, exposta geograficamente, desgastada demograficamente com o envelhecimento populacional, não sabemos, mas a ordem mundial não voltará ao modelo da era pré-Trump. Não sabemos como o mundo reagirá, como se dará essa reordenação, nem como os inimigos dos EUA aproveitarão a chance.  Trump não surgiu ao acaso, ele é apenas um sinal de que o mundo que vivemos nos últimos 75 anos, acabou.

 

 



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