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André Pomponet

Um encontro com Waldick Soriano

André Pomponet - 14 de Junho de 2022 | 18h 10
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Um encontro com Waldick Soriano

Dezembro de 1997. Nossa chapa perdera a eleição para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Uefs por míseros 17 votos de diferença. Isso num universo de quase dois mil votantes. Eu próprio figurara na comissão eleitoral, contribuíra na apuração. O resultado nos abateu. Que fazer para espantar a desolação, recobrar algum ânimo? Decidimos beber uma cerveja numa churrascaria que ficava na BR 116 Norte, bem defronte à própria Uefs.

O final da manh㠖 a apuração ocorrera pela manhã - era ensolarado no campus. O verão se aproximava e, nas copas da árvores, pássaros trinavam. Era sexta-feira, a universidade estava meio vazia, o final do semestre se aproximava. Descontando o canto dos pássaros, havia um silêncio renitente.

Naquela caminhada pelo campus havia, em mim, além da tristeza pela derrota eleitoral, uma vaga sensação de liberdade que se misturava a incertezas em relação ao futuro: no mês anterior o Jornal Feira Hoje fechara, eu fora demitido e o futuro profissional me inquietava. A bebida, portanto, desceria bem para apaziguar o espírito.

Enquanto enxugávamos algumas cervejas, em volta retinia o som de talheres, clientes dedicavam-se festivamente ao almoço da sexta-feira. Garçons iam e vinham, os espetos abrigando a variedade de carnes. Foi quando Waldick Soriano entrou – ele, o consagrado cantor dos amores frustrados, das paixões humilhadas – com seus inconfundíveis chapéu de abas largas e espelhados óculos escuros.

Sentou a uma mesa – estava acompanhado, mas não lembro por quem – e começou a almoçar. Às vezes, algum cliente aparecia, solicitava um autógrafo, dois dedos de prosa com a lenda da música popular. Não se faziam selfies, os celulares, naquele tempo, serviam apenas para ligações telefônicas. Deduzo que a agenda de shows trouxera o astro à cidade.

Um dos colegas que estava comigo se animou, foi lá pedir autógrafo, rabiscado num guardanapo de papel. Voltou, sentou por alguns instantes. Meia-dúzia de cervejas se acumulavam sobre a mesa, não poderíamos ir muito além daquilo. Ele, então, teve uma ideia:

-Vou lá pedir para Waldick Soriano pagar nossa conta!

Levantou e foi, convicto:

-Somos estudantes e estramos sem dinheiro. O senhor podia pagar a conta para a gente?

A cena que se seguiu, então, foi inesquecível. Com expressão calculadamente teatral – nas feições do cantor havia de tudo: espanto, indignação, dor, pesar, surpresa, irritação, até uma cômica exaltação – Waldick buscou a voz sumida no fundo da garganta e balbuciou, num sussurro, sacudindo a cabeça numa negativa:

-Meu filho, eu não tenho dinheiro não...

Voltamos para o campus da Uefs depois de racharmos a conta que Waldick Soriano refugou. Ríamos, mas o colega que foi abordá-lo estava pesaroso, lastimava a maré de azar que se arrastava naquela manhã. Tempos depois ainda nos divertíamos com o episódio, que nunca esqueci. Sobretudo das feições indignadas de Waldick Soriano com aquele pedido insolente de jovens estudantes.

Era, verdadeiramente, um artista!



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