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Cultura

Debaixo do barro do chão: Juraci Dórea expõe seus sertões na 34ª Bienal de São Paulo

Ísis Moraes - 30 de Outubro de 2021 | 13h 35
Debaixo do barro do chão: Juraci Dórea expõe seus sertões na 34ª Bienal de São Paulo
Foto: Selma Oliveira

São muitos os sertões que brotam das mãos de Juraci Dórea. Lugar de inscrição e rasura, esse plural que se insurge e emerge da terra seca, desdobrando-se entre ossadas de vidas vencidas pelo sol, espinhos e "gravetos estalados em lanças" (como descreve, em um poema, a vegetação de seu chão de nascimento), é a matéria pulsante da obra do artista plástico feirense, que, uma vez mais, expõe os signos do seu universo particular à estranheza dos olhares de fora.

Aberta, na manhã deste sábado (30), no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), na capital paulista, a mostra individual Debaixo do barro do chão integra a 34ª Bienal de São Paulo. Com curadoria de Galciani Neves, Juraci Dórea exibe um corpo de trabalho diverso, que abrange obras que vão desde a década de 1960 até os dias atuais.

O artista apresenta os indícios de suas experimentações em desenho; fotografias das primeiras esculturas de estacas e couros plantadas nos recantos mais longínquos do sertão, no âmbito do Projeto Terra; anotações; documentos; estandartes; cancelas; e outras obras escultóricas realizadas na última década.

Nesta exposição, vibra toda a magia e misticismo, aridez e sofrimento, beleza e força da luta emblemática do homem para sobreviver em meio à sequidão quase sem fim de uma terra pouco agraciada pela chuva. É, pois, um passeio pelo imaginário do artista, pela essência e poesia de sua reelaboração plástica do universo sertanejo.

Conforme Galciani Neves, rusticidade, efemeridade e uma negação aos componentes industriais, características primordiais da obra de Juraci, se entrelaçam, em um exercício de "permanência no lugar, como insistência política e perseverança poética. Por isso, não se apaziguam em relações harmoniosas com a terra, mas se implicam com processos de compreensão, circulação e percepção da arte". A curadora destaca que "não é apenas o que está ao alcance, mas o que integra o cotidiano". Trata-se, portanto, de uma obra que "tem vocação de mudança, absorvendo a terra, enquanto se deixa também corroer por ela".

O artista evoca sua vivência de homem sertanejo, empregando em seus trabalhos, como lembra o crítico Frederico Morais (1985), materiais "pobres", por meio dos quais "busca uma identificação cultural e paisagística com a região" e alcança a universalização de seu lugar no mundo.

Assim, experimentação, suficiência e interação com a terra se fundem, marcando uma relação de reciprocidade com as condições ambientais de seu território. "Dórea, ao longo de seu percurso, construiu obras com a gente do semiárido, para a gente do semiárido ver. Expôs pinturas, colagens, gravuras embaixo de árvores e nas paredes externas de casas. Brincou com os jogos que inventou. Revisitou o artesanato das malas de couro. Investigou e refletiu sobre os nomes da arte, sobre a história da arte. Olhando para o histórico ciclo do couro que fundou tantas cidades na Bahia e ouvindo ‘a mágoa do aboio’ (como descreveu Dival Pitombo, em texto de 1965), Juraci recriou o imaginário do boiadeiro e narrou um tanto do sertão baiano. Redesenhou o balão típico das festas juninas e daí partiu para uma empreitada escultórica", relembra Galciani Neves.

A curadora também enfatiza outro desígnio essencial da obra de Juraci: a problematização do lugar e do público. "Em 1975, com os Estandartes de Jacuípe, o couro de boi tratado e costurado é o meio pelo qual se vale para se aproximar ainda mais dos vaqueiros, de suas selas e vestimentas. No datiloscrito do Projeto Terra (1982), arquivou e estruturou as urgências de uma produção escultórica, problematizando o lugar e o público que a inspirou, assim como reflexões sobre suas assimilações acerca dos saberes populares e sobre os materiais que estavam disponíveis na paisagem do sertão. Até os dias de hoje, as esculturas do projeto são produzidas. Juraci viu seus trabalhos se transformarem com a terra em mais história. Nos seus trabalhos mais recentes, objetos como chocalhos de boi, cordas, facões se mesclam em traquejos e citações à história da arte e o couro surge pigmentado", observa.

Mas não é só isso. Com seus trabalhos, o artista também subverte a própria concepção de arte e o local de fala de quem a denomina. "Juraci faz perpassar um caráter não discriminatório do que seja arte, do lugar em que se produz e se faz circular a arte e do que seja experiência estética. Dessa maneira, o artista coloca em prática e tensiona, desde o âmago dos seus trabalhos, os limites de circulação e produção cultural, discutindo e incorporando na artesania coletiva de seus trabalhos a potência política e social da arte. Em outras palavras, seu trabalho acontece, se enraíza e se constitui junto às questões do próprio lugar que o origina, poroso ao lugar. A arte, para Juraci, é um exercício que não se desenlaça do viver no sertão", diz Neves.

O próprio Juraci Dórea, vislumbrando o sertão como um grande museu a céu aberto, sentencia: "eu escolhi ficar aqui, longe dos centros onde as decisões da arte acontecem. E não me ressinto". Feira de Santana, este celeiro de artistas imensos, mas, quase sempre, tão indiferente à arte, abre as portas de seus sertões para o mundo e resiste à aridez institucional por meio de mãos como as suas, capazes de fazer brotar, de debaixo do barro do chão seco, um universo inteiro.

O MuBE está situado na Rua Alemanha, 221, Jardim Europa, São Paulo. As visitas são gratuitas e podem ser agendadas através da página do museu na internet. A mostra fica em cartaz até o dia 16 de janeiro de 2022.



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