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Educação

1ª instituição de Ensino Superior de FSA, Uefs completa 45 anos; reitor destaca projetos e desafios enfrentados no contexto da pandemia

Da Redação - 31 de Maio de 2021 | 11h 30
1ª instituição de Ensino Superior de FSA, Uefs completa 45 anos; reitor destaca projetos e desafios enfrentados no contexto da pandemia
Foto: Arquivo Pessoal

Primeira instituição de nível superior instalada na cidade, a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) completa, nesta segunda-feira (31), 45 anos de existência. A escolha de sua localização, na porta de entrada do semiárido baiano, foi estratégica. O objetivo era descentralizar a educação de terceiro grau, até então restrita a Salvador, capital do estado.

A Uefs derivou de uma política governamental norteada pela Teoria do Capital Humano, que entende o processo educacional como investimento pessoal e social capaz de gerar desenvolvimento econômico. Sua implantação foi longa, tendo sido iniciada, ainda na década de 1960, quando, sob o influxo desse pensamento, o governo baiano deu forma a um plano integral de educação voltado à expansão do sistema de ensino em todos os níveis.

O projeto visava a formação de quadros para o processo de industrialização. E Feira de Santana, com indicadores econômicos e sociais que a tornavam o mais importante centro polarizador de desenvolvimento do interior do estado, foi contemplada, em 1968, com uma Faculdade de Educação. A ideia era a formação de professores, que seriam integrados, posteriormente, ao quadro docente do que, no futuro, viria a se tornar a Uefs.

Em 1970, nasce, então, a Fundação Universidade de Feira de Santana (Fufs). Seis anos mais tarde, estruturada sobre os pilares do Ensino, da Pesquisa e da Extensão, é autorizada a funcionar com três cursos de licenciatura e cinco cursos de bacharelado. Em dezembro de 1980, em função de um processo de Reforma Administrativa do Estado, a Fufs é sucedida pela Universidade Estadual de Feira de Santana, passando a funcionar como Autarquia Especial, regime que assegura a sua autonomia institucional.

O que se viu florescer, desde então, foi uma universidade pública, gratuita e comprometida com a responsabilidade social e com o desenvolvimento sustentável da região na qual está inserida, região esta, historicamente, assolada por problemas climáticos e econômicos. A Uefs se expandiu rapidamente, concentrando suas ações no centro-norte baiano. E, hoje, está presente em cerca de 150 municípios, em cumprimento do seu objetivo social, que é preparar cidadãos para exercer tanto liderança profissional e intelectual, quanto para desempenhar, propositivamente, seus papeis na definição dos destinos da sociedade.

Nesses 45 anos, a Uefs se consolidou como uma instituição de excelência acadêmica e de credibilidade científica, referenciada não apenas nacionalmente, mas também internacionalmente. Além de diversos cursos de pós-graduação, oferta, atualmente, 28 cursos de graduação permanente, distribuídos em quatro áreas de conhecimento, sendo 14 de bacharelado, 11 de licenciatura e 03 de dupla modalidade.

Por ano, abre 1.926 vagas regulares. Além disso, implementa turmas de oferta especial, através do Programa de Formação de Professores em Serviço; de dois cursos experimentais de Educação à Distância; e de um curso de Direito para beneficiários da Reforma Agrária.

Ao todo, a Uefs contabiliza 28.479 diplomados. E desenvolve projetos de Extensão de extrema relevância, proporcionando à comunidade externa diversos serviços de saúde e de atenção social. Além disso, muito contribui para o desenvolvimento cultural da população, principalmente, através de ações de resgate histórico das tradições locais, como ocorreu com o Bando Anunciador da Festa de Santana, e de eventos que se consolidaram no calendário da cidade como uma referência, a exemplo do Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (Flifs), verdadeira celebração da leitura, da arte e da cultura popular.

Mas a história da Uefs também é marcada por grandes desafios, como é o caso da implantação de políticas públicas afirmativas e de permanência, que primam pela inclusão de grupos socialmente discriminados e pelo atendimento de uma parcela da comunidade acadêmica mais carente de recursos; dos contingenciamentos orçamentários, que muito prejudicam seu pleno funcionamento; das decisões governamentais consideradas arbitrárias e que afetam, diretamente, a continuidade de projetos de pesquisa relevantes; e do impacto que a crise sanitária desencadeada pela pandemia do novo coronavírus vem impondo ao mundo, obrigando as instituições de ensino a se reinventar, para dar continuidade aos seus projetos educacionais.

Quem fala sobre a trajetória da Uefs, ao longo desses 45 anos, e sobre a complicada conjuntura vivenciada nesse contexto marcado por sucessivas dificuldades financeiras e, agora, de operacionalização de suas atividades, é o professor Evandro do Nascimento Silva, reitor da instituição.

O gestor, que assumiu a administração superior da universidade no dia 15 de maio de 2015, concedeu uma entrevista ao Jornal Tribuna Feirense, onde destaca a dimensão e importância da instituição; fala sobre os principais projetos desenvolvidos nos âmbitos do Ensino, da Pesquisa e da Extensão; sobre a relação de proximidade que a universidade mantém com a comunidade; sobre as perdas e danos gerados por decisões governamentais e pelo estrangulamento orçamentário; e sobre a capacidade de superação da Uefs frente à ameaça viral que, somente no Brasil, já ceifou mais de 460 mil vidas.

Evandro do Nascimento Silva afirma, ainda, que a Uefs iniciou pesquisas para gerar conhecimento sobre a Covid-19. E arremata destacando o que espera para o futuro da instituição, que considera um "sustentáculo da liberdade de pensamento, da defesa de direitos do povo e da democracia". Confira!

 

Como primeira instituição de Ensino Superior da cidade, qual a dimensão da Uefs para a região na qual ela está inserida?

A Uefs é uma grande universidade, bem conceituada, bem avaliada, que forma profissionais e cidadãos capazes de fazer a diferença na sociedade. Essa é a dimensão da Uefs para a região.

 

Nesses 45 anos de existência, o que considera marcante na trajetória da instituição?

Primeiro, a interiorização do Ensino Superior, como maior legado. Segundo, ter feito grandes entregas à população. Os profissionais que formou, os serviços que prestou, ao longo desse tempo. O conhecimento que gerou sobre Bahia, principalmente o semiárido. Terceiro, ter conseguido ser uma universidade de pesquisa e inserida até no meio científico internacional. Quarto, ser uma universidade diversa e inclusiva.

 

Quais os principais projetos desenvolvidos pela instituição, nos últimos anos?

Uma marca do período recente foi a ampliação da pós-graduação, pois novos cursos de mestrado e doutorado foram criados. Destaco ainda a movimentação da cena cultural de Feira, com o Bando Anunciador, o Festival de Sanfoneiros, a Feira do Livro, a criação do curso de Música, e ter o embrião de uma Orquestra Sinfônica. Um programa de intercâmbio que permite a 50 alunos estudar em universidades estrangeiras, a cada ano. E, na graduação, foi realizado um trabalho de atualização das diretrizes curriculares e dos projetos pedagógicos dos cursos, conjugado com um programa de formação continuada de professores. Com isso, nossos alunos podem ter uma formação atualizada e de qualidade.

 

A Uefs tem uma relação muito sólida com a comunidade feirense, principalmente por causa dos projetos de Extensão que oferece. Quais os mais relevantes, na sua concepção?

Todos são relevantes e esses projetos alcançam um número grande de pessoas. A Universidade Aberta da Terceira Idade (Uati) atende 900 idosos, aproximadamente. As oficinas de arte do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca) chegam a ter 2.200 alunos matriculados. As clínicas odontológicas fazem em torno de 3.550 procedimentos, por semestre. Nosso curso de Enfermagem atua em 20 unidades de saúde. A Feira do Livro alcança um público de 60 mil pessoas. Ao todo, as atividades de extensão da Uefs alcançam 200 mil pessoas por ano. Essa ligação com a comunidade é muito forte.

 

O senhor assumiu a Uefs em meio a uma grave crise orçamentária. Como geriu o problema? Como a instituição tem lidado com essas dificuldades?

Tivemos um momento difícil com o contingenciamento orçamentário, desde 2016. Mas ajustamos as despesas e estamos sempre mostrando ao Governo do Estado a necessidade de financiamento da universidade, para não perdermos a qualidade do Ensino, não fragilizarmos a Pesquisa e fortalecermos a Extensão. Tivemos que reduzir certas despesas. Isso equilibra as contas? Pode ser. Mas, muitas vezes, sacrifica algumas açõe; precariza, de alguma forma, a universidade. Neste último período, temos conseguido dialogar e avançar, em um cenário que vem melhorando, sobretudo, no aumento dos recursos de investimento (para realização de obras, compra de equipamentos, aquisição de livros e mobiliário). Queremos ampliar os investimentos e qualificar mais ainda a Uefs. Para isso, apostamos no diálogo.

 

Muitas mudanças ocorreram no universo acadêmico, especialmente, na última década. Políticas de permanência foram ampliadas e implantadas; a forma de ingresso nas instituições de nível superior mudou. Como a Uefs lidou com esses câmbios? O que a instituição construiu de positivo em relação a esses fatores?

A universidade pública, no Brasil, se autoprofessa um meio de transformação social. A adoção da política de cotas no acesso a parte das vagas, por origem em escola pública e também por critérios étnico-raciais, trouxe, de fato, essa transformação social na própria universidade. Hoje, o corpo discente da Uefs é mais diverso, etnicamente, socialmente, culturalmente. O que foi construído positivamente foi a universidade se pintar de povo, como dizem os movimentos sociais. Quando, numa aula, se falar da história de massacre dos nossos índios, pode ter lá um estudante indígena para falar do seu lugar. Ou o quilombola falando de racismo; ou o deficiente falando de educação inclusiva; ou quem é LGBTQI+ falando do respeito à diferença e à diversidade. São outros olhares, outros corpos, outras vivências enriquecendo a problematização epistemológica da realidade brasileira nos diversos campos do saber.

 

Recentemente, a imprensa denunciou a subtração de uma área importante para a Uefs, em termos de pesquisa. Qual a situação do Horto Florestal, atualmente, e qual o impacto dessa ação governamental para a comunidade acadêmica?

Foi uma situação inaceitável, com a qual não concordamos. Não conseguimos reverter, por mais que tenhamos tentado. Foi uma decisão impositiva. A perda de 8 mil metros quadrados de terreno afetou as pesquisas agronômicas no Horto Florestal. Nesse momento, algumas medidas compensatórias estão em curso. Mas o melhor era nada disso ter acontecido.

 

O mundo vive um momento difícil, por conta da pandemia de Covid-19, e um dos setores mais afetados foi a Educação. Quais desafios a Uefs vêm enfrentando, desde o começo da crise sanitária. Como avalia o desempenho da universidade, nesse contexto?

Avalio que a Uefs teve um desempenho ousado e assertivo, nas respostas ao contexto da pandemia. Em 2020, realizamos um Período Letivo Extraordinário, com atividades de ensino exclusivamente virtuais, que foi um importante aprendizado com novos recursos tecnológicos. Agora, estamos em um semestre regular, também por ensino remoto, com oferta de 1.200 disciplinas e isso é semelhante à oferta antecedente presencial. Na extensão universitária, mantivemos eventos importantes também em formato remoto, a exemplo da Feira do Livro, e, em breve, teremos o Festival de Sanfoneiros. A extensão floresceu com eventos virtuais e, com isso, entregamos muito conhecimento à sociedade. Está tudo disponível para a população, em dezenas de canais da Uefs no Youtube. Na pesquisa, gostaria de destacar que a Uefs iniciou dezenas de projetos de pesquisa sobre a Covid-19, que trarão mais conhecimento sobre esta doença. A eficiência da rotina administrativa da instituição tem sido mantida, graças ao nosso valioso corpo de servidores técnico-administrativos. A Uefs não parou, ela ousou e está em ação, cumprindo seu papel social.

 

Pós-pandemia, imagina-se que não será possível voltarmos, exatamente, ao que éramos antes da crise sanitária. A Uefs está se preparando para esse retorno? É possível fazer uma projeção?

Teremos que conviver, ainda por um tempo, com o novo coronavírus, mesmo com ampla vacinação. Portanto, a volta das atividades presenciais vai exigir um ambiente com cuidados sanitários e comportamento de distanciamento físico. Por isso, a Uefs aprovou um Plano de Retomada de Atividades Presenciais que norteará o momento desse retorno, com medidas que tragam segurança sanitária à comunidade. Os dados da Covid-19 ainda são preocupantes, e devem permanecer assim por um tempo. A manutenção das atividades remotas, então, é a opção mais acertada, com a necessidade de inserir, gradualmente, atividades presenciais. Isto deve ser considerado como um caminho possível, em algum momento do segundo semestre.

 

O que a Uefs é, para o senhor? Qual o maior legado dela, até aqui? Como gostaria de vê-la, futuramente?

Para mim, a Uefs é um instrumento de desenvolvimento e uma riqueza sem tamanho para o povo feirense. Ela potencializa setores como saúde, educação, economia, cultura, a partir da interação das atividades dos cursos e das pesquisas com esses temas da vida da região. Eu estimo que a Uefs tem o potencial de fazer movimentar entre 60 e 80 milhões de reais por ano, em Feira de Santana, já que seu orçamento executado anualmente é de 260 milhões. Sem a Uefs, como ficaria essa economia local? Para o futuro da Uefs, eu sonho que a população de Feira de Santana continue amando, valorizando, tendo orgulho dessa universidade. Que a comunidade universitária lute contra a ameaça à sua existência, pois a conjuntura do país traz claros sinais de ataque à universidade pública. Porque ela é um sustentáculo da liberdade de pensamento, da defesa de direitos do povo, da democracia. E muitos não querem que o povo pense criticamente, tenha direitos. Destruir a democracia é, atualmente, um desejo de setores retrógrados da política brasileira. Eu sonho com uma universidade viva, que seja um farol na luta do nosso povo por liberdade, direitos fundamentais, igualdade e soberania, para pôr fim ao tempo sombrio que vivemos, hoje.



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