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  • Feira de Santana, segunda, 02 de agosto de 2021

César Oliveira

Cães vadios

César Oliveira - 12 de Fevereiro de 2021 | 12h 40
Cães vadios
É uma manhã de segunda, pouco depois de meio dia, nesse verão de dias mais longos, sol intenso, e calor abafado, desconfortável. O portão do estacionamento abre e atravesso o calçamento do novo Centro, largo, generoso, que convida a andar devagar, como se fosse uma rua de interior, embora seja a Avenida Senhor dos Passos. A clínica fica quase no encontro com a Presidente Dutra. Da saída vejo um motorista praguejar – mais um – por cair no desnível da boca de lobo que há séculos está nesse cruzamento, sem ação da Prefeitura.
 
A segunda feira sempre tem uma urgência – em Feira, de forma especial – como uma retomada da vida. Muita gente de outros locais, com sacolas, e vendedores de frutas e verduras que resistem a mudança de local, e tentam manter a normalidade comercial depois do Shopping Popular e da pandemia que trouxe medo, contenção e prejuízo. Um carrinho de mão repleto de seriguelas – que adoro – com vários tons de amarelos, como uma aquarela, quase me faz parar. O comércio não se compara ao que era, mas eles não deixam de disputar esses compradores finais, enquanto as máquinas cavam e as obras avançam, afinal, a falta de dinheiro e emprego é real e desespera as famílias, desestruturando-as emocionalmente.
 
Viro à direita e acesso a avenida. O sinal está no amarelo, e então os vejo, juntos. Devem ser uns dez ou doze e aguardam como um exército de desamparados, na margem da faixa de segurança. O sinal fecha, e eles invadem a pista. Tem mulheres, homens, crianças, brancos e negros. Todos de máscaras. As mulheres vendem água mineral, usam sempre manga comprida, uma viseira, ou chapéu, para proteger do sol. As roupas são muito simples, e formam uma babel de combinações. Uma que já me conhece conta que tem três filhos, mas parou de namorar e agora está na Igreja. Deus na minha vida e na sua,diz ela. Compro duas águas, mas deixo para ela revender.
 
Há as que agem naturalmente; em outras, mais novas, é possível encontrar um nítido constrangimento nos olhos. E que é meu, também. Os homens vendem borracha de limpador, carregador de celular, flanela, bala. E há os adolescentes que lavam para-brisa, de forma meio impositiva, e que irrita alguns motoristas, mas há um, maior, só um, enfezado, que solta palavrões quando não recebe moedas. O vigia me conta que o enfezado pede para sobreviver; outro, porque a família não tem emprego; dois menores pedem para usar droga. Os vejo, todos os dias, na carência obscena das ruas. Já os conheço, mas hoje, todos os juntos, me assombraram pelo aumento que mostra o avanço da pobreza e da miséria social do país. 
 
Há um derradeiro, que come uma banana. Ele me pega olhando e vem lavar o pára-brisa. A idade deve contar nos dedos das mãos. Baixo o vidro. Ele queixa uma moeda para “ fazer a vida”, seja lá o que isso for.
 
Eu sigo. A rua é bem cuidada, sem mais abandonados. Não há outros cães vadios.
 


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