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Bahia

Por dívida trabalhista, Ilê Ayiê pode ter sede penhorada

07 de Janeiro de 2021 | 12h 37
Por dívida trabalhista, Ilê Ayiê pode ter sede penhorada
Foto: Reprodução

O bloco afro Ilê Aiyê pode perder sua sede, localizada no bairro da Liberdade, em Salvador, por conta de uma dívida trabalhista, que, em cifras corrigidas, pode chegar a R$ 470 mil. Em fase de execução, o processo foi movido por Adelson Evangelista Santos, que cantou no grupo entre 1988 e 2010. Agora, a agremiação corre contra o tempo, para sanar o débito.

De acordo com o portal de notícias Uol, a penhora do imóvel foi determinada, em abril de 2019, pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT-5). O caso, no entanto, ficou parado durante todo o ano passado, porque a Justiça aderiu às atividades remotas, em função da pandemia de Covid-19. Mas, com a possível retomada dos trabalhos presenciais, nos próximos meses, o bloco teme ver o espaço leiloado.

Segundo o site, ainda não há uma data definida para o leilão. O problema, entretanto, é que a presidência do Ilê não conseguiu juntar dinheiro suficiente para pagar a indenização, inicialmente fixada em R$ 400 mil, valor que, para a defesa do cantor, está defasado. Segundo os advogados, a correção leva a um acréscimo de R$ 70 mil.

Construída em 2003, em uma área de 5 mil metros quadrados, a Senzala do Barro Preto, como a sede é conhecida, fica na emblemática Ladeira do Curuzu, no bairro que concentra a maior população negra da capital baiana. Nela, o bloco realiza diversos ensaios, projetos socioculturais e eventos, como a Noite da Beleza Negra, ocasião em que é eleita a Deusa do Ébano.

Dentre as ações voltadas ao público carente, o Ilê mantém, também na sede do bloco, a Escola Mãe Hilda e a Escola de Percussão, Canto e Dança Band'erê. Juntos, esses projetos atendem mais de 200 crianças e adolescentes que vivem no entorno.

Conforme o Uol, o advogado Lucas Andrade Krejci, que representa Adelson Evangelista, alega que o “Ilê pagava R$ 30 por show”. A reportagem do site diz que tentou ouvir o músico, mas que ele preferiu não se pronunciar. Os autos processuais, por sua vez, dão conta de que o cantor afirmou que não possuía vínculo trabalhista com a agremiação e que recebia pequenos cachês por shows.

No processo, Evangelista também afirma que, além de cantar no grupo, acumulou a função de instrutor musical da banda Band'erê, entre 2000 e 2003, com jornada de trabalho que ia das 8h às 12h e das 14h às 17h, de segunda a sexta-feira.

Ao Uol, Lucas Krejci disse ainda que, além de o valor repassado a Evangelista ser baixo, o pagamento era irregular. E que foi por esse motivo que o músico ajuizou a ação trabalhista, em 2011. “Tanto ele quanto outros cantores recebiam R$ 30, R$ 40 por show. Quando eles iam para o exterior, o governo que os convidava, por exemplo, pagava 2 mil euros, a cada cantor. O presidente do Ilê [Antonio Carlos dos Santos, mais conhecido como Vovô] pegava esse dinheiro na mão deles e dava R$ 50. Também não ganhavam nada para dar aulas na escola. A vida inteira eram promessas de que eles teriam cachês melhores, mas nunca tiveram. Quando se rebelaram e disseram que, dessa forma, não tinha mais condições, Vovô colocou todo mundo para fora”, relatou o advogado.

O QUE DIZ O ILÊ – Procurado pelo site, Vovô rebateu a acusação, chamando a versão da defesa do músico de “mentirosa”. O Ilê Ayiê, no entanto, diz reconhecer a decisão judicial, mas alega não contar com qualquer tipo de receita, fato que, conforme o presidente, impediria a agremiação de arcar com a indenização que ele chama de “exorbitante e fora da realidade”.

Ainda segundo o Uol, o advogado do Ilê, Hudson Araújo Resedá, salientou que a sentença já transitou em julgado, não restando outra alternativa senão buscar, junto à Justiça, um último acordo com a defesa de Evangelista. A finalidade seria conseguir, pelo menos, que a dívida seja parcelada.

O Ilê Ayiê, diz o site, já conseguiu pagar R$ 200 mil, ao músico. Desse valor, R$ 100 mil foram decorrentes do bloqueio judicial das contas bancárias da agremiação. “Precisamos, agora, de pouco mais de R$ 150 mil. Vamos conseguir, a gente vai sair dessa, se Deus quiser”, disse Vovô, que fundou o bloco em 1974.

O presidente afirmou ainda que está “buscando contatos”, junto aos setores público e privado, a fim de levantar o restante do valor da dívida. Sem perspectiva de Carnaval, uma vez que a prefeitura de Salvador optou por não realizar a festa, em razão da pandemia, o bloco não contará com o dinheiro da venda de fantasias, sua principal fonte de renda.

De acordo com o Uol, em uma audiência de conciliação, o Ilê chegou a propor o repasse de parte da Senzala do Barro Preto ao ex-funcionário, como pagamento da dívida, mas a oferta não foi aceita. O imóvel, segundo Vovô, está avaliado em R$ 5 milhões.

VAQUINHA E LIVE – O Ilê Ayiê já tentou superar a dificuldade financeira promovendo campanhas, a fim de arrecadar doações. Conforme o site, em julho de 2020, o bloco iniciou uma vaquinha virtual e realizou uma live no YouTube. Na ocasião, Daniela Mercury, Margareth Menezes e Regina Casé endossaram o pedido de ajuda. As artistas chegaram a gravar depoimentos, falando sobre a importância das ações sociais, culturais e educacionais desenvolvidas pela instituição. As iniciativas, no entanto, não lograram êxito.

O advogado Hudson Resedá disse que, atualmente, a receita do Ilê é, praticamente, nula e que os gastos com as partes técnicas e artísticas do evento virtual, realizado Também para tentar manter as despesas mensais, superaram a arrecadação. “Custou quase R$ 40 mil e a arrecadação ficou abaixo de R$ 35 mil. Acabou causando um prejuízo, não houve o engajamento que imaginávamos”, lamentou.

PARCELAMENTO – O defensor do Ilê Ayiê disse, ao Uol, que a sede ainda não foi leiloada por causa da pandemia, já que os prazos foram suspensos. “Quando o atendimento presencial vier a acontecer, lá para março ou abril, o juiz vai designar audiência. O processo já está em fase terminal”, lembrou.

O advogado de Evangelista, por sua vez, salientou que todas as propostas feitas, até o momento, pelo Ilê, foram rechaçadas por seu cliente. “O bloco propôs um valor muito irrisório, R$ 100 e poucos mil, salvo engano. Agora, fizeram outra proposta de pagamento, no valor de R$ 100 mil, e parcelando o resto em 20 vezes. O reclamante não aceitou, porque estão enrolando há muito tempo para pagar”, afirmou.



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