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César Oliveira- Crônicas

Meu pai morreu, mas só amanhã

César Oliveira - 01 de Maio de 2019 | 16h 04
Meu pai morreu, mas só amanhã

Adeus é a palavra mais longa de nossa língua. Terminamos, sempre, antes que ela se complete. Por isso vamos acumulando faltas, receios da memória e desabrigos. Interessante que, na língua portuguesa, tudo de mais extenso sentido, é curto: Pai, Mãe, Deus, Morte. Início e fim. Por estranho, o que nos fragiliza e desprotege não é a ausência dos filhos- o permanecer para adiante-, mas sim, a dos pais- o fio de Ariadne. É deste mito, a caverna dos pais, que partimos, afinal, navegar é preciso, viver incerto, e o pastoreio que exercem é, por vezes, nossa única tábua de salvação.

Cortar um fio, inaugurar a orfandade da morte, migrar para o ermo do desamparo é um doloroso e irreversível tempo. Perdi meu pai há sete anos. Sete, eram as virtudes; sete, os mares; sete, eram as artes; sete, as ciências; sete, eram os sacramentos; sete, os pecados capitais; sete, as notas musicais; sete, os dias da semana; sete, o dia em que o Criador descansou; sete, os pedidos expressos no Pai Nosso. Sete, o apartamento em que moro e foi dele. Perdi meu pai e suas unhas de sal, roídas, todas, no tempo em que salgou couro no ofício de nos sustentar. O mais velho da longa família. Duro, exato, sem férias, inteligente, integro, brilhante, ao partir do nada, sem fios, e nos legar um nome. E saber tanto. De não nos dizer um dizer sem que ele se cumprisse.

Dizem as lendas que sete é a passagem do conhecido para o desconhecido. Hoje à noite, depois do trabalho – como o Senhor exigiria-, irei à missa que a família mandou celebrar em seu nome, no dia de sua morte. Nunca fui muito bom em rezas, como outras tantas coisas, mas rezarei os sete pedidos expressos diante dos seus ossos e pó- carne viva-, não por tu, temperado em desconhecidos, mas para que me responda e continue comigo quando for penúria.

Meu pai morreu. Mas, hoje não. Só amanhã.



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