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André Pomponet

O recesso carnavalesco e a ânsia mercantil da Feira

André Pomponet - 01 de Março de 2019 | 21h 22
O recesso carnavalesco e a ânsia mercantil da Feira

O comércio feirense vai ficar três dias sem funcionar durante o Carnaval. A suspensão começa no domingo (03) e se estende até a terça-feira (05). Noutros tempos, arriscava-se a abertura das lojas às segundas-feiras, mas a prática vem caindo em desuso. É que muita gente viaja no período para aproveitar o fim da temporada de veraneio. E quem potencialmente viria de fora costuma se deparar com as dificuldades de deslocamento num período em que todo mundo se volta para os festejos momescos. O resultado costumava ser lojas vazias e comerciários entediados.

Mas quem vive na Feira de Santana – e costuma extrair seu sustento do comércio – preserva uma ânsia mercantil que é difícil de conter nesse período. Basta circular pelas ruas comerciais da cidade nos dias de feriado para perceber que sempre há gente por lá: um muda uma porta metálica, outro faz um reparo qualquer, alguns fazem faxina e, às vezes, aparece quem dê uma repaginada no seu comércio.

Parecem atletas no aquecimento, preparando-se para uma disputa. Ou artistas vivendo aquela tensão momentos antes de vir à ribalta. Mas talvez a imagem mais adequada seja a de um ritual religioso, uma espécie de devoção mercantil que se manifesta no cuidado sutil com cada detalhe. Há, também, uma ânsia, uma expectativa tensa pelo retorno à normalidade.

Ela só vem quando chega a Quarta-feira de Cinzas. Para além dos ritos católicos que marcam a data, nota-se uma espécie de alívio de quem descerra a porta metálica de uma loja, de quem pendura peças de roupa numa vitrine, de quem arruma, com método, seus produtos para expor pelos camelódromos da cidade. Retoma-se a compra e a venda, a contabilidade do lucro, a satisfação de uma necessidade material.

Crise

A longa crise econômica que abalroou a economia brasileira torna essas sensações mais agudas. Afinal, o intervalo para apurar aquele lucro se tornou mais elástico com a recessão. É necessário trabalhar mais, se empenhar dobrado para assegurar alguma margem. Isso vem acontecendo aqui e em todo o Brasil. Um longo feriado, portanto, parece um imenso desperdício.

Daí o olhar desolado de quem mercadeja e se depara com o centro da cidade deserto nos dias de feriado. Sobretudo para quem vive do comércio informal e da prestação de serviços. Esses, coitados, às vezes não tem condições de, sequer, fazer uma viagem curta até a vizinha Cabuçu para aproveitar o sol desses dias. Resta ficar em casa, acompanhando a programação carnavalesca.

A trégua do Carnaval expira na quarta-feira. Com ela, começa o ano de 2019, conforme afirma a sabedoria popular. Pelo jeito, esse vai ser mais um ano de intensas dificuldades econômicas. A geração de riquezas segue patinando: ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) avançou modesto 1,1%, apesar da reforma trabalhista – que prometia milhões de empregos – e das promessas ocas de Michel Temer (MDB) e sua trupe.

Para 2019, a expectativa de que o PIB cresça mais de 2% talvez seja exagerada. Sobretudo em função dos atores políticos que estão colocados aí no poder. Mas, no momento, é Carnaval. É melhor aproveitar esses dias e conter um pouco a ânsia mercantil típica do feirense.



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