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André Pomponet

A rica diversidade da rodovia Feira-Santo Amaro

André Pomponet - 30 de Janeiro de 2017 | 12h 24
A rica diversidade da rodovia Feira-Santo Amaro

Feira de Santana é um município que exibe a peculiaridade de seu território abrigar dois biomas: a Caatinga, que se irradia a partir daqui sertões afora, alcançando lonjuras no Piauí e no Ceará; e a Mata Atlântica, que caracteriza o Recôncavo próximo e se insinua em direção ao Sudeste, estreitando-se pelo litoral infindável. Biomas tão distintos produziram, ao longo do tempo, formas de organização da atividade agropecuária muito específicas. Essa realidade é visível até mesmo numa despreocupada viagem de passeio.

No sertão semiárido, a vocação econômica mais evidente é a pecuária bovina. Ela se distribui por largas extensões de terra, privilegiando espaços onde as fontes hídricas são mais abundantes. Eventuais roças de mandioca, feijão e milho se insinuam na paisagem, aonde predomina o som dos chocalhos dos animais que pastam em extensas planícies.

Aqueles que se deslocam em direção ao Recôncavo, ao sul, se deparam com cenário bem diverso. É o caso de quem se aventura em direção a Santo Amaro, trocando a pista dupla da BR 324 pela BA 084, ali na entrada para Conceição do Jacuípe. O trecho surpreende pela diversidade econômica, que destoa da monocultura da cana-de-açúcar às margens da BR 324.

O asfalto da rodovia é áspero e, em alguns trechos, exibe crateras que exigem atenção do motorista. Não existe acostamento e placas de sinalização alertam para os perigos, que são muito visíveis: curvas acentuadas e trechos íngremes que serpenteiam abismos de dezenas de metros. É provável que seja uma das antigas estradas carroçáveis ligando a Feira de Santana ao Recôncavo. Depois, ganhou pavimentação asfáltica e um código de rodovia.

Múltiplas atividades

Nos primeiros quilômetros o viajante se extasia com a variedade de árvores frutíferas: jaqueiras imponentes, imensas mangueiras, cajueiros vigorosos, bananeiras verdejantes e longilíneos coqueiros que balançam ao sabor dos ventos. As sombras densas das árvores tornam a temperatura amena no entorno.

À sequência de pomares se veem, também, inúmeras hortas irrigadas nas quais se cultivam hortaliças, como cebolinha, alface e coentro, que vão abastecer mercados consumidores de Feira de Santana e até de Salvador. Por ali se vê com facilidade agricultores atarefados, debruçados sobre seus cultivos.

A intensa atividade econômica empresta dinamismo à pequena Oliveira dos Campinhos, alguns quilômetros mais adiante. Restaurantes, mercadinhos e pequenas lojas, que oferecem produtos diversos, surpreendem o viajante. Mas ali também resiste o bucolismo da vida rural: existe a igreja, a praça tranquila e, distribuídas nas cercanias da comunidade, imponentes residências rurais, resquícios arquitetônicos do início do século XX.

Mais adiante começam as curvas: a estrada volteia vales, circunda morros e propicia ao viajante cenários impressionantes, paisagens fantásticas que se estendem até o horizonte longínquo. Os trechos menos inclinados são pontuados por pastagens nas quais circulam rebanhos de gado nelore, predominante na região.

Povoações

À medida que Santo Amaro se aproxima, prevalece uma planície monótona, típica das áreas de cultivo da cana-de-açúcar. Mas ali se sucedem pastagens, com raras árvores, sob cujas sombras bois e cavalos resguardam-se do sol implacável do meio-dia. Contrastando com a pecuária, veem-se pequenos cultivos de mandioca em propriedades de agricultores pobres. Adiante, ressurgem pomares.

Povoados surgem e, neles, a comunidade negra vende frutas ou aguarda clientes nas biroscas às margens da rodovia. Há sempre mesas e cadeiras plásticas, amarelas ou brancas, além de banners de cervejarias multicoloridos. Algumas placas substituem cardápios, anunciando caldo de sururu, maniçoba ou feijoada, sempre servida aos sábados.

Mais adiante, numa bifurcação após pontes sobre rios estreitos, dobra-se à direita, onde começa a BA 510 em direção às comunidades Pedras, Vitória e Quilômetro 25. São povoações minúsculas, com ruas estreitas, íngremes, calçadas com paralelepípedos recobertos pela poeira. As casas são hermeticamente fechadas, em sua maioria, por portões metálicos inteiriços ou com grades.

Nativos amontoam-se nos bares: bebem cerveja, conversam aos berros em torno de mesas de sinuca e, sobretudo, ouvem os clássicos do arrocha. Placas anunciam a venda de “geladinho” e “geladão”; jovens dedicam-se ao ofício de barbeiro no hall de casas modestas. Não se veem brancos nessas comunidades.

Rica Diversidade

Nas vertiginosas descidas que antecedem a chegada à BA 420, entre Cachoeira e Santo Amaro, sucedem-se bambuzais ressequidos. Vê-se também novas roças de mandioca e a miséria exposta em casas de varas e barro batido. Mulheres se mexem, com panelas, atarefadas no preparo do almoço. Garotos galopam, lépidos, sobre o lombo de jumentos e cavalos. Chega-se, enfim, à BA 420, que une duas das mais emblemáticas cidades da região.

É rica a diversidade econômica do Recôncavo. Isso também contribui para forjar as inúmeras dimensões da efervescente cultura local. Numa despretensiosa viagem, examinando a rodovia, veem-se cenários muito distintos numa extensão de escassos 22 quilômetros. A Feira de Santana – fervilhante meca comercial da região – também é parte dessa riqueza, fazendo circular a produção do entorno.

Vale a pena viajar pelo Recôncavo e conhecer as belezas de um dos mais especiais pedaços do Brasil.



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