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André Pomponet

Prefeito Graciliano Ramos é referência para os dias atuais (II)

André Pomponet - 24 de Janeiro de 2017 | 08h 44
Prefeito Graciliano Ramos é referência para os dias atuais (II)

O primeiro relatório encaminhado por Graciliano Ramos, prestando contas de sua atuação à frente da prefeitura de Palmeira dos Índios, repercutiu junto à imprensa alagoana e, até mesmo, no Rio de Janeiro. Mais que o desempenho satisfatório das atividades, foi o estilo pessoal e o conteúdo altamente literário que despertaram as atenções da imprensa. Em 1929 o futuro autor de “São Bernardo” repetiu o feito, encaminhando novo relatório com o mesmo estilo.

Naquela época o literato desabrochava: desde 1925 ele se dedicava à elaboração de um romance que só foi concluído oito anos depois: “Caetés”. Anos antes, em 1921, quando era um pacato comerciante à frente da loja “Sincera”, Graciliano Ramos aventurara-se publicando, sob pseudônimo, uma série de artigos num semanário de Palmeira dos Índios, o “Índio”.

Na prefeitura, durante 1928, Graciliano Ramos manteve a luta para extinguir benefícios injustificáveis, o que resultou em expressiva elevação da arrecadação, conforme ele mesmo apontou no segundo relatório encaminhado a Álvaro Paes, o governador alagoano, no início de 1930. Conforme indicado, à época, sua atuação à frente da prefeitura já despertava atenção da imprensa. Algumas intervenções, iniciadas em 1928, rendiam resultados que causavam perplexidade.

Sobre a arrecadação, o prefeito registrou que inicialmente o montante foi estimado em 68 contos de réis, mas pulou para 96 contos: “E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados”.

Mais adiante, Graciliano Ramos ressalta que, já no primeiro ano de governo, buscou adotar medidas que minimizassem as iniquidades tributárias. Extinguiu tributos – e ainda assim a arrecadação subiu –, organizou a vida financeira da prefeitura e conseguiu destinar recursos para intervenções urbanas importantes. Entre elas, o prefeito ressaltava a limpeza do município, com o recolhimento de animais vadios pelas ruas, o recolhimento do lixo e a instalação de matadouros, o que evitou o abate de animais em vias públicas.

O principal foco do gestor Graciliano Ramos, porém, foram as obras de infraestrutura. Aqui o prefeito se permite certa ironia: “Os gastos com viação e obras públicas foram excessivos. Lamento, entretanto, não me haver sido possível gastar mais. Infelizmente a nossa pobreza é grande”.

As intervenções iniciadas em 1928 começaram a dar resultados. É o que se observa sobre a terraplanagem da Lagoa: “Este absurdo, este sonho de louco, na opinião de três ou quatro sujeitos que sabem tudo, foi concluído há meses. Aquilo que era uma furna lôbrega, tem agora, terminado o aterro, um declive suave. Fiz uma galeria para o escoamento das águas. O pântano que ali havia, cheio de lixo, excelente para a cultura de mosquitos, desapareceu. Deitei sobre as muralhas duas balaustradas de cimento armado”.

Os esforços para moderar os poderosos locais consumiram grande parte da energia do prefeito. Isso implicou em mobilização para livrar a população pobre da exploração habitual. É o que relata no trecho seguinte: “Favoreci a agricultura livrando-a dos bichos criados à toa; ataquei as patifarias dos pequeninos senhores feudais, exploradores da canalha; suprimi, nas questões rurais, a presença de certos intermediários, que estragavam tudo; facilitei o transporte; estimulei as relações entre o produtor e o consumidor”.

Mexer com os interesses das elites locais costuma ser politicamente arriscado até hoje. Não foi diferente com Graciliano Ramos à época: “Esforcei-me para não cometer injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim como arma política. (...) Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me”.

O relatório foi concluído com as moderadas expectativas do prefeito. Dois planos, aparentemente vagos, povoavam-lhe a mente: calçar ruas onde as enxurradas decorrentes da chuva arrastavam pessoas e construir um açude na zona rural do município. Confirmando o estilo que o consagrou na literatura, Graciliano Ramos cultivava otimismo discreto, preocupando-se mais em mencionar os riscos envolvidos na empreitada e a crônica escassez de recursos.

Depois de dois anos de esforços intensos à frente da prefeitura, Graciliano Ramos renunciou. Logo em seguida foi aproveitado em dois prestigiosos cargos da administração pública alagoana: diretor da Imprensa Oficial e, posteriormente, da Instrução Pública. No início de 1936 foi preso e passou onze meses encarcerado, acusado de atividades subversivas pela ditadura de Getúlio Vargas.

À época, os dois relatórios encaminhados ao governador Álvaro Paes começavam a virar notícia, em função do estilo de redação. Uma cópia foi parar nas mãos do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, que desconfiou da existência de um romance engavetado. De fato, havia: era “Caetés”, que marcou a estreia literária do autor, posteriormente consagrado com “Angústia”, “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”.



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