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André Pomponet

Prefeito Graciliano Ramos é referência para os dias atuais (I)

André Pomponet - 20 de Janeiro de 2017 | 11h 55
Prefeito Graciliano Ramos é referência para os dias atuais (I)

Em 2017 milhares de prefeitos assumiram o cargo para mandato de quatro anos. Nesse momento de crise – política, econômica e ética – muitos deveriam se inspirar num dos mais célebres prefeitos brasileiros: Graciliano Ramos, posteriormente consagrado como autor de “Vidas Secas”, clássico da literatura brasileira. Eleito em 1927, permaneceu na prefeitura de Palmeira dos Índios por dois anos. Posteriormente, assumiu a Imprensa Oficial de Alagoas e foi diretor da Instrução Pública do estado, antes de se consagrar como um dos mais importantes escritores brasileiros.

A eleição de Graciliano Ramos foi cercada de fatos pitorescos. Sua indicação partiu do deputado federal Álvaro Paes e dos irmãos Francisco e Otávio Cavalcanti, líderes políticos locais. Inicialmente, Graciliano resistiu à indicação, só cedendo quando os adversários começaram a espalhar o boato que ele estava com medo de concorrer. É o que relata Dênis de Moraes na biografia do escritor.

Após inúmeras tratativas, o pleito ocorreu em 07 de outubro de 1927 e Graciliano concorreu como candidato único, obtendo 433 votos. As eleições guardaram as características da época, conforme reconheceu o próprio prefeito: “Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando”.

Nos dois anos que passou pela prefeitura Graciliano Ramos mostrou-se capaz de contrariar interesses arraigados dos poderosos locais, ordenar a situação caótica da cidade e executar obras que melhoraram a vida no município no sertão de Alagoas. Esse desempenho, inclusive, despertou a simpatia das pessoas comuns, habituadas à opressão imposta pelas elites locais. As intervenções do prefeito incluíram a construção de escolas em povoados, abertura de um posto de saúde e a implantação de um abatedouro na cidade.

No início de 1929, Graciliano Ramos encaminhou seu primeiro relatório de atividades para o governador Álvaro Paes. Sintético, o documento discorre sobre o conjunto das medidas adotado no exercício de 1928. Além do rigor estilístico que, posteriormente, se tornaria marca de sua produção literária, o documento foge dos clichês, costumeiros em documentos oficiais, enveredando para uma visão particular e, às vezes, pessimista, do próprio desempenho e de suas realizações.

Uma das primeiras medidas anunciadas pelo prefeito foi ordenar as funções dentro da prefeitura, suprimindo prerrogativas informais que, ao longo do tempo, foram cristalizando privilégios. É o que se pode observar em um trecho do famoso relatório: “Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses resolviam questões de polícia e advogavam”.

Ao final do primeiro ano de gestão, Graciliano Ramos se permitiu fazer um balanço do funcionalismo: “Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas”.

A viabilidade de sua gestão dependia de arrecadação maior. Contrariando as práticas habituais, que sobretaxavam os mais pobres enquanto os ricos pagavam pouco ou nenhum imposto, Graciliano Ramos concentrou esforços na arrecadação de dívidas dos inadimplentes. Essa medida rendeu-lhe dissabores. Apesar das dificuldades, manteve-se tenaz: “As despesas com a cobrança de impostos montaram 5:602$244. Foram altas porque os devedores são cabeçudos. Eu disse ao Conselho, em relatório, que aqui os contribuintes pagam ao Município se querem, quando querem e como querem”.

No primeiro ano de gestão Graciliano Ramos se esforçou para promover investimentos em infraestrutura. Além de um conjunto de intervenções em estradas para permitir a locomoção, o prefeito conduziu duas obras que mereceram referência especial no relatório: a construção da estrada para Palmeira de Fora – cujas obras seriam concluídas no ano seguinte, aproximando o município de Santana do Ipanema - e a terraplenagem do bairro da Lagoa, onde se acumulavam mato, imensas quantidades de lixo e para onde acorriam as águas das chuvas.

Graciliano Ramos descreveu no documento as dificuldades políticas enfrentadas: “Durante meses mataram-me o bicho do ouvido com reclamações de toda ordem contra o abandono em que se deixava a melhor entrada para a cidade. Chegaram lá pedreiros – outras reclamações surgiram, porque as obras irão custar um horror de contos de reis, dizem. (...) O que a prefeitura arrecada basta para que não nos resignemos às modestas tarefas de varrer as ruas e matar cachorros”.

E conclui, amargo, o relatório referente a 1928: “Procurei sempre os caminhos mais curtos (...) Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos (...) Há quem ache tudo ruim (...) Há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal”.

Triste realidade que se arrasta até os dias atuais.



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